Genivalda's profileGENIVALDA CRAVO DOS SANT...PhotosBlogListsMore ![]() | Help |
Síndrome de Burnout na Argentina
Em Busca de Parcerias e OportunidadesCARTA DE APRESENTAÇÃO
Genivalda Araujo Cravo dos Santos, professora da rede pública do Estado de Goiás e do município de Goiânia, com Graduação em História pela UFG/GO, Doutoranda e Mestre em Ciências da Religião pela UCG/GO, Terapeuta em Reike nível III, Aprendiz da Formação Holística de Base – UNIPAZ/GO, associada à ISMA - International Stress Management Association - do Brasil e, facilitadora em eventos, como por exemplo, conferências, palestras, oficinas, workshop, cursos, mini-cursos e vivências contendo as seguintes temáticas:
Domina também outros temas, sob consulta. Contatos para agendamentos de atividades, eventos, consultoria, pesquisa diagnóstica e/ou parcerias:
Dados curriculares on-line na Plataforma Lattes do CNPq, no seguinte endereço: http://lattes.cnpq.br/5930342285944905. Diretrizes Nacionais para Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e AfricanaPARECER HOMOLOGADO(*) (*) Despacho do Ministro, publicado no Diário Oficial da União de 19/5/2004. Resolução Nº 1, de 17 de junho de 2004. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO INTERESSADO: Conselho Nacional de Educação UF: DF ASSUNTO: Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana CONSELHEIROS: Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva (Relatora), Carlos Roberto Jamil Cury, Francisca Novantino Pinto de Ângelo e Marília Ancona-Lopez PROCESSO N.º: 23001.000215/2002-96 PARECER N.º: CNE/CP 003/2004 COLEGIADO: CP APROVADO EM: 10/3/2004 I – RELATÓRIO Este parecer visa a atender os propósitos expressos na Indicação CNE/CP 6/2002, bem como regulamentar a alteração trazida à Lei 9394/96 de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, pela Lei 10.639/200, que estabelece a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana na Educação Básica. Desta forma, busca cumprir o estabelecido na Constituição Federal nos seus Art. 5º, I, Art. 210, Art. 206, I, § 1° do Art. 242, Art. 215 e Art. 216, bem como nos Art. 26, 26 A e 79 B na Lei 9.394/96 de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que asseguram o direito à igualdade de condições de vida e de cidadania, assim como garantem igual direito às histórias e culturas que compõem a nação brasileira, além do direito de acesso às diferentes fontes da cultura nacional a todos brasileiros. Juntam-se a preceitos analógicos os Art. 26 e 26 A da LDB, como os das Constituições Estaduais da Bahia (Art. 275, IV e 288), do Rio de Janeiro (Art. 306), de Alagoas (Art. 253), assim como de Leis Orgânicas, tais como a de Recife (Art. 138), de Belo Horizonte (Art. 182, VI), a do Rio de Janeiro (Art. 321, VIII), além de leis ordinárias, como lei Municipal nº 7.685, de 17 de janeiro de 1994, de Belém, a Lei Municipal nº 2.251, de 30 de novembro de 1994, de Aracaju e a Lei Municipal nº 11.973, de 4 de janeiro de 1996, de São Paulo.(1) Junta-se, também, ao disposto no Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.096, de 13 de junho de 1990), bem como no Plano Nacional de Educação (Lei 10.172, de 9 de janeiro de 2001). (1) Belém – Lei Municipal nº 7.6985, de 17 de janeiro de 1994, que “Dispõe sobre a inclusão, no currículo escolar da Rede Municipal de Ensino, na disciplina História, de conteúdo relativo ao estudo da Raça Negra na formação sócio-cultural brasileira e dá outras providências” Aracaju – Lei Municipal nº 2.251, de 30 de novembro de 1994, que “Dispõe sobre a inclusão, no currículo escolar da rede municipal de ensino de 1º e 2º graus, conteúdos programáticos relativos ao estudo da Raça Negra na formação sócio-cultural brasileira e dá outras providências São Paulo – Lei Municipal nº 11.973, de 4 de janeiro de 1996, que “Dispõe sobre a introdução nos currículos das escolas municipais de 1º e 2º graus de estudos contra a discriminação” Petronilha 0215/SPS Todos estes dispositivos legais, bem como reivindicações e propostas do Movimento Negro ao longo do século XX, apontam para a necessidade de diretrizes que orientem a formulação de projetos empenhados na valorização da história e cultura dos afro-brasileiros e dos africanos, assim como comprometidos com a de educação de relações étnico-raciais positivas, a que tais conteúdos devem conduzir. Destina-se, o parecer, aos administradores dos sistemas de ensino, de mantenedoras de estabelecimentos de ensino, aos estabelecimentos de ensino, seus professores e a todos implicados na elaboração, execução, avaliação de programas de interesse educacional, de planos institucionais, pedagógicos e de ensino. Destina-se, também, às famílias dos estudantes, a eles próprios e a todos os cidadãos comprometidos com a educação dos brasileiros, para nele buscarem orientações, quando pretenderem dialogar com os sistemas de ensino, escolas e educadores, no que diz respeito às relações étnico-raciais, ao reconhecimento e valorização da história e cultura dos afro-brasileiros, à diversidade da nação brasileira, ao igual direito à educação de qualidade, isto é, não apenas direito ao estudo, mas também à formação para a cidadania responsável pela construção de uma sociedade justa e democrática. Em vista disso, foi feita consulta sobre as questões objeto deste parecer, por meio de questionário encaminhado a grupos do Movimento Negro, a militantes individualmente, aos Conselhos Estaduais e Municipais de Educação, a professores que vêm desenvolvendo trabalhos que abordam a questão racial, a pais de alunos, enfim a cidadãos empenhados com a construção de uma sociedade justa, independentemente de seu pertencimento racial. Encaminharam-se em torno de mil questionários e o responderam individualmente ou em grupo 250 mulheres e homens, entre crianças e adultos, com diferentes níveis de escolarização. Suas respostas mostraram a importância de se tratarem problemas, dificuldades, dúvidas, antes mesmo de o parecer traçar orientações, indicações, normas. Diretrizes Nacionais para Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e AfricanaQuestões introdutórias O parecer procura oferecer uma resposta, entre outras, na área da educação, à demanda da população afrodescendente, no sentido de políticas de ações afirmativas, isto é, de políticas de reparações, e de reconhecimento e valorização de sua história, cultura, identidade. Trata, ele, de política curricular, fundada em dimensões históricas, sociais, antropológicas oriundas da realidade brasileira, e busca combater o racismo e as discriminações que atingem particularmente os negros. Nesta perspectiva, propõe à divulgação e produção de conhecimentos, a formação de atitudes, posturas e valores que eduquem cidadãos orgulhosos de seu pertencimento étnico-racial - descendentes de africanos, povos indígenas, descendentes de europeus, de asiáticos – para interagirem na construção de uma nação democrática, em que todos, igualmente, tenham seus direitos garantidos e sua identidade valorizada. É importante salientar que tais políticas têm como meta o direito dos negros se reconhecerem na cultura nacional, expressarem visões de mundo próprias, manifestarem com autonomia, individual e coletiva, seus pensamentos. É necessário sublinhar que tais políticas têm, também, como meta o direito dos negros, assim como de todos cidadãos brasileiros, cursarem cada um dos níveis de ensino, em escolas devidamente instaladas e equipadas, orientados por professores qualificados para o ensino das diferentes áreas de conhecimentos; com formação para lidar com as tensas relações produzidas pelo racismo e discriminações, sensíveis e capazes de conduzir a reeducação das relações entre diferentes grupos étnicoraciais, ou seja, entre descendentes de africanos, de europeus, de asiáticos, e povos indígenas. Estas condições materiais das escolas e de formação de professores são indispensáveis para Petronilha 0215/SOS 2 uma educação de qualidade, para todos, assim como o é o reconhecimento e valorização da história, cultura e identidade dos descendentes de africanos. Políticas de Reparações, de Reconhecimento e Valorização, de Ações Afirmativas A demanda por reparações visa a que o Estado e a sociedade tomem medidas para ressarcir os descendentes de africanos negros, dos danos psicológicos, materiais, sociais, políticos e educacionais sofridos sob o regime escravista, bem como em virtude das políticas explícitas ou tácitas de branqueamento da população, de manutenção de privilégios exclusivos para grupos com poder de governar e de influir na formulação de políticas, no pós-abolição. Visa também a que tais medidas se concretizem em iniciativas de combate ao racismo e a toda sorte de discriminações. Cabe ao Estado promover e incentivar políticas de reparações, no que cumpre ao disposto na Constituição Federal, Art. 205, que assinala o dever do Estado de garantir indistintamente, por meio da educação, iguais direitos para o pleno desenvolvimento de todos e de cada um, enquanto pessoa, cidadão ou profissional. Sem a intervenção do Estado, os postos à margem, entre eles os afro-brasileiros, dificilmente, e as estatísticas o mostram sem deixar dúvidas, romperão o sistema meritocrático que agrava desigualdades e gera injustiça, ao reger-se por critérios de exclusão, fundados em preconceitos e manutenção de privilégios para os sempre privilegiados. Políticas de reparações voltadas para a educação dos negros devem oferecer garantias a essa população de ingresso, permanência e sucesso na educação escolar, de valorização do patrimônio histórico-cultural afro-brasileiro, de aquisição das competências e dos conhecimentos tidos como indispensáveis para continuidade nos estudos, de condições para alcançar todos os requisitos tendo em vista a conclusão de cada um dos níveis de ensino, bem como para atuar como cidadãos responsáveis e participantes, além de desempenharem com qualificação uma profissão. A demanda da comunidade afro-brasileira por reconhecimento, valorização e afirmação de direitos, no que diz respeito à educação, passou a ser particularmente apoiada com a promulgação da Lei 10639/2003, que alterou a Lei 9394/1996, estabelecendo a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileiras e africanas. Reconhecimento implica justiça e iguais direitos sociais, civis, culturais e econômicos, bem como valorização da diversidade daquilo que distingue os negros dos outros grupos que compõem a população brasileira. E isto requer mudança nos discursos, raciocínios, lógicas, gestos, posturas, modo de tratar as pessoas negras. Requer também que se conheça a sua história e cultura apresentadas, explicadas, buscando-se especificamente desconstruir o mito da democracia racial na sociedade brasileira; mito este que difunde a crença de que, se os negros não atingem os mesmos patamares que os não negros, é por falta de competência ou de interesse, desconsiderando as desigualdades seculares que a estrutura social hierárquica cria com prejuízos para os negros. Reconhecimento requer a adoção de políticas educacionais e de estratégias pedagógicas de valorização da diversidade, a fim de superar a desigualdade étnico-racial presente na educação escolar brasileira, nos diferentes níveis de ensino. Reconhecer exige que se questionem relações étnico-raciais baseadas em preconceitos que desqualificam os negros e salientam estereótipos depreciativos, palavras e atitudes que, Petronilha 0215/SOS 3 velada ou explicitamente violentas, expressam sentimentos de superioridade em relação aos negros, próprios de uma sociedade hierárquica e desigual. Reconhecer é também valorizar, divulgar e respeitar os processos históricos de resistência negra desencadeados pelos africanos escravizados no Brasil e por seus descendentes na contemporaneidade, desde as formas individuais até as coletivas. Reconhecer exige a valorização e respeito às pessoas negras, à sua descendência africana, sua cultura e história. Significa buscar, compreender seus valores e lutas, ser sensível ao sofrimento causado por tantas formas de desqualificação: apelidos depreciativos, brincadeiras, piadas de mau gosto sugerindo incapacidade, ridicularizando seus traços físicos, a textura de seus cabelos, fazendo pouco das religiões de raiz africana. Implica criar condições para que os estudantes negros não sejam rejeitados em virtude da cor da sua pele, menosprezados em virtude de seus antepassados terem sido explorados como escravos, não sejam desencorajados de prosseguir estudos, de estudar questões que dizem respeito à comunidade negra. Reconhecer exige que os estabelecimentos de ensino, freqüentados em sua maioria por população negra, contem com instalações e equipamentos sólidos, atualizados, com professores competentes no domínio dos conteúdos de ensino, comprometidos com a educação de negros e brancos, no sentido de que venham a relacionar-se com respeito, sendo capazes de corrigir posturas, atitudes e palavras que impliquem desrespeito e discriminação. Políticas de reparações e de reconhecimento formarão programas de ações afirmativas, isto é, conjuntos de ações políticas dirigidas à correção de desigualdades raciais e sociais, orientadas para oferta de tratamento diferenciado com vistas a corrigir desvantagens e marginalização criadas e mantidas por estrutura social excludente e discriminatória. Ações afirmativas atendem ao determinado pelo Programa Nacional de Direitos Humanos2, bem como a compromissos internacionais assumidos pelo Brasil, com o objetivo de combate ao racismo e a discriminações, tais como: a Convenção da UNESCO de 1960, direcionada ao combate ao racismo em todas as formas de ensino, bem como a Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Discriminações Correlatas de 2001. Assim sendo, sistemas de ensino e estabelecimentos de diferentes níveis converterão as demandas dos afro-brasileiros em políticas públicas de Estado ou institucionais, ao tomarem decisões e iniciativas com vistas a reparações, reconhecimento e valorização da história e cultura dos afro-brasileiros, à constituição de programas de ações afirmativas, medidas estas coerentes com um projeto de escola, de educação, de formação de cidadãos que explicitamente se esbocem nas relações pedagógicas cotidianas. Medidas que, convém, sejam compartilhadas pelos sistemas de ensino, estabelecimentos, processos de formação de professores, comunidade, professores, alunos e seus pais. Medidas que repudiam, como prevê a Constituição Federal em seu Art.3º, IV, o “preconceito de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação” e reconhecem que todos são portadores de singularidade irredutível e que a formação escolar tem de estar atenta para o desenvolvimento de suas personalidades (Art.208, IV). Diretrizes Nacionais para Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana
Educação das relações étnico-raciais 22 Ministério da Justiça. Programa Nacional de Direitos Humanos. Brasília, 1996 Petronilha 0215/SOS 4 O sucesso das políticas públicas de Estado, institucionais e pedagógicas, visando a reparações, reconhecimento e valorização da identidade, da cultura e da história dos negros brasileiros depende necessariamente de condições físicas, materiais, intelectuais e afetivas favoráveis para o ensino e para aprendizagens; em outras palavras, todos os alunos negros e não negros, bem como seus professores, precisam sentir-se valorizados e apoiados. Depende também, de maneira decisiva, da reeducação das relações entre negros e brancos, o que aqui estamos designando como relações étnico-raciais. Depende, ainda, de trabalho conjunto, de articulação entre processos educativos escolares, políticas públicas, movimentos sociais, visto que as mudanças éticas, culturais, pedagógicas e políticas nas relações étnico-raciais não se limitam à escola. É importante destacar que se entende por raça a construção social forjada nas tensas relações entre brancos e negros, muitas vezes simuladas como harmoniosas, nada tendo a ver com o conceito biológico de raça cunhado no século XVIII e hoje sobejamente superado. Cabe esclarecer que o termo raça é utilizado com freqüência nas relações sociais brasileiras, para informar como determinadas características físicas, como cor de pele, tipo de cabelo, entre outras, influenciam, interferem e até mesmo determinam o destino e o lugar social dos sujeitos no interior da sociedade brasileira. Contudo, o termo foi ressignificado pelo Movimento Negro que, em várias situações, o utiliza com um sentido político e de valorização do legado deixado pelos africanos. É importante, também, explicar que o emprego do termo étnico, na expressão étnico-racial, serve para marcar que essas relações tensas devidas a diferenças na cor da pele e traços fisionômicos o são também devido à raiz cultural plantada na ancestralidade africana, que difere em visão de mundo, valores e princípios das de origem indígena, européia e asiática. Convivem, no Brasil, de maneira tensa, a cultura e o padrão estético negro e africano e um padrão estético e cultural branco europeu. Porém, a presença da cultura negra e o fato de 45% da população brasileira ser composta de negros (de acordo com o censo do IBGE) não têm sido suficientes para eliminar ideologias, desigualdades e estereótipos racistas. Ainda persiste em nosso país um imaginário étnico-racial que privilegia a brancura e valoriza principalmente as raízes européias da sua cultura, ignorando ou pouco valorizando as outras, que são a indígena, a africana, a asiática. Os diferentes grupos, em sua diversidade, que constituem o Movimento Negro brasileiro, têm comprovado o quanto é dura a experiência dos negros de ter julgados negativamente seu comportamento, idéias e intenções antes mesmo de abrirem a boca ou tomarem qualquer iniciativa. Têm, eles, insistido no quanto é alienante a experiência de fingir ser o que não é para ser reconhecido, de quão dolorosa pode ser a experiência de deixar-se assimilar por uma visão de mundo que pretende impor-se como superior e, por isso, universal e que os obriga a negarem a tradição do seu povo. Se não é fácil ser descendente de seres humanos escravizados e forçados à condição de objetos utilitários ou a semoventes, também é difícil descobrir-se descendente dos escravizadores, temer, embora veladamente, revanche dos que, por cinco séculos, têm sido desprezados e massacrados. Para reeducar as relações étnico-raciais, no Brasil, é necessário fazer emergir as dores e medos que têm sido gerados. É preciso entender que o sucesso de uns tem o preço da marginalização e da desigualdade impostas a outros. E então decidir que sociedade queremos construir daqui para frente. Petronilha 0215/SOS 5 Como bem salientou Frantz Fanon3, os descendentes dos mercadores de escravos, dos senhores de ontem, não têm, hoje, de assumir culpa pelas desumanidades provocadas por seus antepassados. No entanto, têm eles a responsabilidade moral e política de combater o racismo, as discriminações e, juntamente com os que vêm sendo mantidos à margem, os negros, construir relações raciais e sociais sadias, em que todos cresçam e se realizem enquanto seres humanos e cidadãos. Não fossem por estas razões, eles a teriam de assumir, pelo fato de usufruírem do muito que o trabalho escravo possibilitou ao país. Assim sendo, a educação das relações étnico-raciais impõe aprendizagens entre brancos e negros, trocas de conhecimentos, quebra de desconfianças, projeto conjunto para construção de uma sociedade justa, igual, equânime. Combater o racismo, trabalhar pelo fim da desigualdade social e racial, empreender reeducação das relações étnico-raciais não são tarefas exclusivas da escola. As formas de discriminação de qualquer natureza não têm o seu nascedouro na escola, porém o racismo, as desigualdades e discriminações correntes na sociedade perpassam por ali. Para que as instituições de ensino desempenhem a contento o papel de educar, é necessário que se constituam em espaço democrático de produção e divulgação de conhecimentos e de posturas que visam a uma sociedade justa. A escola tem papel preponderante para eliminação das discriminações e para emancipação dos grupos discriminados, ao proporcionar acesso aos conhecimentos científicos, a registros culturais diferenciados, à conquista de racionalidade que rege as relações sociais e raciais, a conhecimentos avançados, indispensáveis para consolidação e concerto das nações como espaços democráticos e igualitários. Para obter êxito, a escola e seus professores não podem improvisar. Têm que desfazer mentalidade racista e discriminadora secular, superando o etnocentrismo europeu, reestruturando relações étnico-raciais e sociais, desalienando processos pedagógicos. Isto não pode ficar reduzido a palavras e a raciocínios desvinculados da experiência de ser inferiorizados vivida pelos negros, tampouco das baixas classificações que lhe são atribuídas nas escalas de desigualdades sociais, econômicas, educativas e políticas. Diálogo com estudiosos que analisam, criticam estas realidades e fazem propostas, bem como com grupos do Movimento Negro, presentes nas diferentes regiões e estados, assim como em inúmeras cidades, são imprescindíveis para que se vençam discrepâncias entre o que se sabe e a realidade, se compreendam concepções e ações, uns dos outros, se elabore projeto comum de combate ao racismo e a discriminações. Temos, pois, pedagogias de combate ao racismo e a discriminações por criar. É claro que há experiências de professores e de algumas escolas, ainda isoladas, que muito vão ajudar. Para empreender a construção dessas pedagogias, é fundamental que se desfaçam alguns equívocos. Um deles diz respeito à preocupação de professores no sentido de designar ou não seus alunos negros como negros ou como pretos, sem ofensas. Em primeiro lugar, é importante esclarecer que ser negro no Brasil não se limita às características físicas. Trata-se, também, de uma escolha política. Por isso, o é quem assim se define. Em segundo lugar, cabe lembrar que preto é um dos quesitos utilizados pelo IBGE para classificar, ao lado dos outros – branco, pardo, indígena - a cor da população brasileira. Pesquisadores de diferentes áreas, inclusive da educação, para fins de seus estudos, agregam dados relativos a pretos e pardos sob a categoria negros, já que ambos reúnem, conforme 3 FRANTZ, Fanon. Os Condenados da Terra. 2.ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1979. Petronilha 0215/SOS 6 alerta o Movimento Negro, aqueles que reconhecem sua ascendência africana. É importante tomar conhecimento da complexidade que envolve o processo de construção da identidade negra em nosso país. Processo esse, marcado por uma sociedade que, para discriminar os negros, utiliza-se tanto da desvalorização da cultura de matriz africana como dos aspectos físicos herdados pelos descendentes de africanos. Nesse processo complexo, é possível, no Brasil, que algumas pessoas de tez clara e traços físicos europeus, em virtude de o pai ou a mãe ser negro(a), se designarem negros; que outros, com traços físicos africanos, se digam brancos. É preciso lembrar que o termo negro começou a ser usado pelos senhores para designar pejorativamente os escravizados e este sentido negativo da palavra se estende até hoje. Contudo, o Movimento Negro ressignificou esse termo dando-lhe um sentido político e positivo. Lembremos os motes muito utilizados no final dos anos 1970 e no decorrer dos anos 1980, 1990: Negro é lindo! Negra, cor da raça brasileira! Negro que te quero negro! 100% Negro! Não deixe sua cor passar em branco! Este último utilizado na campanha do censo de 1990. Outro equívoco a enfrentar é a afirmação de que os negros se discriminam entre si e que são racistas também. Esta constatação tem de ser analisada no quadro da ideologia do branqueamento que divulga a idéia e o sentimento de que as pessoas brancas seriam mais humanas, teriam inteligência superior e, por isso, teriam o direito de comandar e de dizer o que é bom para todos. Cabe lembrar que, no pós-abolição, foram formuladas políticas que visavam ao branqueamento da população pela eliminação simbólica e material da presença dos negros. Nesse sentido, é possível que pessoas negras sejam influenciadas pela ideologia do branqueamento e, assim, tendam a reproduzir o preconceito do qual são vítimas. O racismo imprime marcas negativas na subjetividade dos negros e também na dos que os discriminam. Mais um equívoco a superar é a crença de que a discussão sobre a questão racial se limita ao Movimento Negro e a estudiosos do tema e não à escola. A escola, enquanto instituição social responsável por assegurar o direito da educação a todo e qualquer cidadão, deverá se posicionar politicamente, como já vimos, contra toda e qualquer forma de discriminação. A luta pela superação do racismo e da discriminação racial é, pois, tarefa de todo e qualquer educador, independentemente do seu pertencimento étnico-racial, crença religiosa ou posição política. O racismo, segundo o Artigo 5º da Constituição Brasileira, é crime inafiançável e isso se aplica a todos os cidadãos e instituições, inclusive, à escola. Outro equívoco a esclarecer é de que o racismo, o mito da democracia racial e a ideologia do branqueamento só atingem os negros. Enquanto processos estruturantes e constituintes da formação histórica e social brasileira, estes estão arraigados no imaginário social e atingem negros, brancos e outros grupos étnico-raciais. As formas, os níveis e os resultados desses processos incidem de maneira diferente sobre os diversos sujeitos e interpõem diferentes dificuldades nas suas trajetórias de vida escolar e social. Por isso, a construção de estratégias educacionais que visem ao combate do racismo é uma tarefa de todos os educadores, independentemente do seu pertencimento étnico-racial. Pedagogias de combate ao racismo e a discriminações elaboradas com o objetivo de educação das relações étnico/raciais positivas têm como objetivo fortalecer entre os negros e despertar entre os brancos a consciência negra. Entre os negros, poderão oferecer conhecimentos e segurança para orgulharem-se da sua origem africana; para os brancos, poderão permitir que identifiquem as influências, a contribuição, a participação e a importância da história e da cultura dos negros no seu jeito de ser, viver, de se relacionar com as outras pessoas, notadamente as negras. Também farão parte de um processo de Petronilha 0215/SOS 7 reconhecimento, por parte do Estado, da sociedade e da escola, da dívida social que têm em relação ao segmento negro da população, possibilitando uma tomada de posição explícita contra o racismo e a discriminação racial e a construção de ações afirmativas nos diferentes níveis de ensino da educação brasileira. Tais pedagogias precisam estar atentas para que todos, negros e não negros, além de ter acesso a conhecimentos básicos tidos como fundamentais para a vida integrada à sociedade, exercício profissional competente, recebam formação que os capacite para forjar novas relações étnico-raciais. Para tanto, há necessidade, como já vimos, de professores qualificados para o ensino das diferentes áreas de conhecimentos e, além disso, sensíveis e capazes de direcionar positivamente as relações entre pessoas de diferentes pertencimento étnico-racial, no sentido do respeito e da correção de posturas, atitudes, palavras preconceituosas. Daí a necessidade de se insistir e investir para que os professores, além de sólida formação na área específica de atuação, recebam formação que os capacite não só a compreender a importância das questões relacionadas à diversidade étnico-racial, mas a lidar positivamente com elas e, sobretudo criar estratégias pedagógicas que possam auxiliar a reeducá-las. Até aqui apresentaram-se orientações que justificam e fundamentam as determinações de caráter normativo que seguem. Diretrizes Nacionais para Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e AfricanaHistória e Cultura Afro-Brasileira e Africana – Determinações A obrigatoriedade de inclusão de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nos currículos da Educação Básica trata-se de decisão política, com fortes repercussões pedagógicas, inclusive na formação de professores. Com esta medida, reconhece-se que, além de garantir vagas para negros nos bancos escolares, é preciso valorizar devidamente a história e cultura de seu povo, buscando reparar danos, que se repetem há cinco séculos, à sua identidade e a seus direitos. A relevância do estudo de temas decorrentes da história e cultura afro-brasileira e africana não se restringe à população negra, ao contrário, dizem respeito a todos os brasileiros, uma vez que devem educar-se enquanto cidadãos atuantes no seio de uma sociedade multicultural e pluriétnica, capazes de construir uma nação democrática. É importante destacar que não se trata de mudar um foco etnocêntrico marcadamente de raiz européia por um africano, mas de ampliar o foco dos currículos escolares para a diversidade cultural, racial, social e econômica brasileira. Nesta perspectiva, cabe às escolas incluir no contexto dos estudos e atividades, que proporciona diariamente, também as contribuições histórico-culturais dos povos indígenas e dos descendentes de asiáticos, além das de raiz africana e européia. É preciso ter clareza que o Art. 26A acrescido à Lei 9.394/1996 provoca bem mais do que inclusão de novos conteúdos, exige que se repensem relações étnico-raciais, sociais, pedagógicas, procedimentos de ensino, condições oferecidas para aprendizagem, objetivos tácitos e explícitos da educação oferecida pelas escolas. A autonomia dos estabelecimentos de ensino para compor os projetos pedagógicos, no cumprimento do exigido pelo Art. 26A da Lei 9394/1996, permite que se valham da colaboração das comunidades a que a escola serve, do apoio direto ou indireto de estudiosos e do Movimento Negro, com os quais estabelecerão canais de comunicação, encontrarão formas próprias de incluir nas vivências promovidas pela escola, inclusive em conteúdos de disciplinas, as temáticas em questão. Caberá, aos sistemas de ensino, às mantenedoras, à coordenação pedagógica dos estabelecimentos de ensino e aos professores, com base neste parecer, estabelecer conteúdos de ensino, unidades de estudos, projetos e programas, Petronilha 0215/SOS 8 abrangendo os diferentes componentes curriculares. Caberá, aos administradores dos sistemas de ensino e das mantenedoras prover as escolas, seus professores e alunos de material bibliográfico e de outros materiais didáticos, além de acompanhar os trabalhos desenvolvidos, a fim de evitar que questões tão complexas, muito pouco tratadas, tanto na formação inicial como continuada de professores, sejam abordadas de maneira resumida, incompleta, com erros. Em outras palavras, aos estabelecimentos de ensino está sendo atribuída responsabilidade de acabar com o modo falso e reduzido de tratar a contribuição dos africanos escravizados e de seus descendentes para a construção da nação brasileira; de fiscalizar para que, no seu interior, os alunos negros deixem de sofrer os primeiros e continuados atos de racismo de que são vítimas. Sem dúvida, assumir estas responsabilidades implica compromisso com o entorno sociocultural da escola, da comunidade onde esta se encontra e a que serve, compromisso com a formação de cidadãos atuantes e democráticos, capazes de compreender as relações sociais e étnico-raciais de que participam e ajudam a manter e/ou a reelaborar, capazes de decodificar palavras, fatos e situações a partir de diferentes perspectivas, de desempenhar-se em áreas de competências que lhes permitam continuar e aprofundar estudos em diferentes níveis de formação. Precisa, o Brasil, país multi-étnico e pluricultural, de organizações escolares em que todos se vejam incluídos, em que lhes seja garantido o direito de aprender e de ampliar conhecimentos, sem ser obrigados a negar a si mesmos, ao grupo étnico/racial a que pertencem e a adotar costumes, idéias e comportamentos que lhes são adversos. E estes, certamente, serão indicadores da qualidade da educação que estará sendo oferecida pelos estabelecimentos de ensino de diferentes níveis. Para conduzir suas ações, os sistemas de ensino, os estabelecimentos e os professores terão como referência, entre outros pertinentes às bases filosóficas e pedagógicas que assumem, os princípios a seguir explicitados. CONSCIÊNCIA POLÍTICA E HISTÓRICA DA DIVERSIDADE Este princípio deve conduzir: - à igualdade básica de pessoa humana como sujeito de direitos; - à compreensão de que a sociedade é formada por pessoas que pertencem a grupos étnico-raciais distintos, que possuem cultura e história próprias, igualmente valiosas e que em conjunto constroem, na nação brasileira, sua história; - ao conhecimento e à valorização da história dos povos africanos e da cultura afrobrasileira na construção histórica e cultural brasileira; - à superação da indiferença, injustiça e desqualificação com que os negros, os povos indígenas e também as classes populares às quais os negros, no geral, pertencem, são comumente tratados; - à desconstrução, por meio de questionamentos e análises críticas, objetivando eliminar conceitos, idéias, comportamentos veiculados pela ideologia do branqueamento, pelo mito da democracia racial, que tanto mal fazem a negros e brancos; Petronilha 0215/SOS 9 - à busca, da parte de pessoas, em particular de professores não familiarizados com a análise das relações étnico-raciais e sociais com o estudo de história e cultura afrobrasileira e africana, de informações e subsídios que lhes permitam formular concepções não baseadas em preconceitos e construir ações respeitosas; - ao diálogo, via fundamental para entendimento entre diferentes, com a finalidade de negociações, tendo em vista objetivos comuns; visando a uma sociedade justa. FORTALECIMENTO DE IDENTIDADES E DE DIREITOS O princípio deve orientar para: - o desencadeamento de processo de afirmação de identidades, de historicidade negada ou distorcida; - o rompimento com imagens negativas forjadas por diferentes meios de comunicação, contra os negros e os povos indígenas; - o esclarecimentos a respeito de equívocos quanto a uma identidade humana universal; - o combate à privação e violação de direitos; - a ampliação do acesso a informações sobre a diversidade da nação brasileira e sobre a recriação das identidades, provocada por relações étnico-raciais; - as excelentes condições de formação e de instrução que precisam ser oferecidas, nos diferentes níveis e modalidades de ensino, em todos os estabelecimentos, inclusive os localizados nas chamadas periferias urbanas e nas zonas rurais. AÇÕES EDUCATIVAS DE COMBATE AO RACISMO E A DISCRIMINAÇÕES O princípio encaminha para: - a conexão dos objetivos, estratégias de ensino e atividades com a experiência de vida dos alunos e professores, valorizando aprendizagens vinculadas às suas relações com pessoas negras, brancas, mestiças, assim como as vinculadas às relações entre negros, indígenas e brancos no conjunto da sociedade; - a crítica pelos coordenadores pedagógicos, orientadores educacionais, professores, das representações dos negros e de outras minorias nos textos, materiais didáticos, bem como providências para corrigi-las; - condições para professores e alunos pensarem, decidirem, agirem, assumindo responsabilidade por relações étnico-raciais positivas, enfrentando e superando discordâncias, conflitos, contestações, valorizando os contrastes das diferenças; - valorização da oralidade, da corporeidade e da arte, por exemplo, como a dança, marcas da cultura de raiz africana, ao lado da escrita e da leitura; - educação patrimonial, aprendizado a partir do patrimônio cultural afro-brasileiro, Petronilha 0215/SOS 10 visando a preservá-lo e a difundi-lo; - o cuidado para que se dê um sentido construtivo à participação dos diferentes grupos sociais, étnico-raciais na construção da nação brasileira, aos elos culturais e históricos entre diferentes grupos étnico-raciais, às alianças sociais; - participação de grupos do Movimento Negro, e de grupos culturais negros, bem como da comunidade em que se insere a escola, sob a coordenação dos professores, na elaboração de projetos político-pedagógicos que contemplem a diversidade étnicoracial. Estes princípios e seus desdobramentos mostram exigências de mudança de mentalidade, de maneiras de pensar e agir dos indivíduos em particular, assim como das instituições e de suas tradições culturais. É neste sentido que se fazem as seguintes determinações: - O ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, evitando-se distorções, envolverá articulação entre passado, presente e futuro no âmbito de experiências, construções e pensamentos produzidos em diferentes circunstâncias e realidades do povo negro. É um meio privilegiado para a educação das relações étnico-raciais e tem por objetivos o reconhecimento e valorização da identidade, história e cultura dos afrobrasileiros, garantia de seus direitos de cidadãos, reconhecimento e igual valorização das raízes africanas da nação brasileira, ao lado das indígenas, européias, asiáticas. - O ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana se fará por diferentes meios, em atividades curriculares ou não, em que: - se explicitem, busquem compreender e interpretar, na perspectiva de quem o formule, diferentes formas de expressão e de organização de raciocínios e pensamentos de raiz da cultura africana; - promovam-se oportunidades de diálogo em que se conheçam, se ponham em comunicação diferentes sistemas simbólicos e estruturas conceituais, bem como se busquem formas de convivência respeitosa, além da construção de projeto de sociedade em que todos se sintam encorajados a expor, defender sua especificidade étnico-racial e a buscar garantias para que todos o façam; - sejam incentivadas atividades em que pessoas – estudantes, professores, servidores, integrantes da comunidade externa aos estabelecimentos de ensino – de diferentes culturas interatuem e se interpretem reciprocamente, respeitando os valores, visões de mundo, raciocínios e pensamentos de cada um. - O ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, a educação das relações étnico-raciais, tal como explicita o presente parecer, se desenvolverão no cotidiano das escolas, nos diferentes níveis e modalidades de ensino, como conteúdo de disciplinas,3 particularmente, Educação Artística, Literatura e História do Brasil, sem prejuízo das demais4, em atividades curriculares ou não, trabalhos em salas de aula, nos 3 § 2°, Art. 26A, Lei 9394/1996 : Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras.4 Neste sentido, ver obra que pode ser solicitada ao MEC: MUNANGA, Kabengele, org.. Diretrizes Nacionais para Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e AfricanaSuperando o Racismo na Escola. Brasília, Ministário da Educação, 2001. Petronilha 0215/SOS 11 laboratórios de ciências e de informática, na utilização de sala de leitura, biblioteca, brinquedoteca, áreas de recreação, quadra de esportes e outros ambientes escolares. - O ensino de História Afro-Brasileira abrangerá, entre outros conteúdos, iniciativas e organizações negras, incluindo a história dos quilombos, a começar pelo de Palmares, e de remanescentes de quilombos, que têm contribuído para o desenvolvimento de comunidades, bairros, localidades, municípios, regiões (exemplos: associações negras recreativas, culturais, educativas, artísticas, de assistência, de pesquisa, irmandades religiosas, grupos do Movimento Negro). Será dado destaque a acontecimentos e realizações próprios de cada região e localidade. - Datas significativas para cada região e localidade serão devidamente assinaladas. O 13 de maio, Dia Nacional de Denúncia contra o Racismo, será tratado como o dia de denúncia das repercussões das políticas de eliminação física e simbólica da população afro-brasileira no pós-abolição, e de divulgação dos significados da Lei áurea para os negros. No 20 de novembro será celebrado o Dia Nacional da Consciência Negra, entendendo-se consciência negra nos termos explicitados anteriormente neste parecer. Entre outras datas de significado histórico e político deverá ser assinalado o 21 de março, Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial. - Em História da África, tratada em perspectiva positiva, não só de denúncia da miséria e discriminações que atingem o continente, nos tópicos pertinentes se fará articuladamente com a história dos afrodescendentes no Brasil e serão abordados temas relativos: - ao papel dos anciãos e dos griots como guardiãos da memória histórica; - à história da ancestralidade e religiosidade africana; - aos núbios e aos egípcios, como civilizações que contribuíram decisivamente para o desenvolvimento da humanidade; - às civilizações e organizações políticas pré-coloniais, como os reinos do Mali, do Congo e do Zimbabwe; - ao tráfico e à escravidão do ponto de vista dos escravizados; - ao papel de europeus, de asiáticos e também de africanos no tráfico; - à ocupação colonial na perspectiva dos africanos; - às lutas pela independência política dos países africanos; - às ações em prol da união africana em nossos dias, bem como o papel da União Africana, para tanto; - às relações entre as culturas e as histórias dos povos do continente africano e os da diáspora; - à formação compulsória da diáspora, vida e existência cultural e histórica dos africanos e seus descendentes fora da África; - à diversidade da diáspora, hoje, nas Américas, Caribe, Europa, Ásia; - aos acordos políticos, econômicos, educacionais e culturais entre África, Brasil e outros países da diáspora. - O ensino de Cultura Afro-Brasileira destacará o jeito próprio de ser, viver e pensar manifestado tanto no dia a dia, quanto em celebrações como congadas, moçambiques, ensaios, maracatus, rodas de samba, entre outras. - O ensino de Cultura Africana abrangerá: - as contribuições do Egito para a ciência e filosofia ocidentais; - as universidades africanas Timbuktu, Gao, Djene que floresciam no século XVI; - as tecnologias de agricultura, de beneficiamento de cultivos, de mineração e de edificações trazidas pelos escravizados, bem como a produção científica, artística (artes plásticas, literatura, música, dança, teatro) política, na atualidade . - O ensino de História e de Cultura Afro-Brasileira, se fará por diferentes meios, Petronilha 0215/SOS 12 inclusive, a realização de projetos de diferentes naturezas, no decorrer do ano letivo, com vistas à divulgação e estudo da participação dos africanos e de seus descendentes em episódios da história do Brasil, na construção econômica, social e cultural da nação, destacando-se a atuação de negros em diferentes áreas do conhecimento, de atuação profissional, de criação tecnológica e artística, de luta social (tais como: Zumbi, Luiza Nahim, Aleijadinho, Padre Maurício, Luiz Gama, Cruz e Souza, João Cândido, André Rebouças, Teodoro Sampaio, José Correia Leite, Solano Trindade, Antonieta de Barros, Edison Carneiro, Lélia Gonzáles, Beatriz Nascimento, Milton Santos, Guerreiro Ramos, Clóvis Moura, Abdias do Nascimento, Henrique Antunes Cunha, Tereza Santos, Emmanuel Araújo, Cuti, Alzira Rufino, Inaicyra Falcão dos Santos, entre outros). - O ensino de História e Cultura Africana se fará por diferentes meios, inclusive a realização de projetos de diferente natureza, no decorrer do ano letivo, com vistas à divulgação e estudo da participação dos africanos e de seus descendentes na diáspora, em episódios da história mundial, na construção econômica, social e cultural das nações do continente africano e da diáspora, destacando-se a atuação de negros em diferentes áreas do conhecimento, de atuação profissional, de criação tecnológica e artística, de luta social (entre outros: rainha Nzinga, Toussaint-L’Ouverture, Martin Luther King, Malcom X, Marcus Garvey, Aimé Cesaire, Léopold Senghor, Mariama Bâ, Amílcar Cabral, Cheik Anta Diop, Steve Biko, Nelson Mandela, Aminata Traoré, Christiane Taubira). Para tanto, os sistemas de ensino e os estabelecimentos de Educação Básica, nos níveis de Educação Infantil, Educação Fundamental, Educação Média, Educação de Jovens e Adultos, Educação Superior, precisarão providenciar: - Registro da história não contada dos negros brasileiros, tais como em remanescentes de quilombos, comunidades e territórios negros urbanos e rurais. - Apoio sistemático aos professores para elaboração de planos, projetos, seleção de conteúdos e métodos de ensino, cujo foco seja História e Cultura Afro-Brasileira e Africana e a Educação das Relações Étnico-Raciais. - Mapeamento e divulgação de experiências pedagógicas de escolas, estabelecimentos de ensino superior, secretarias de educação, assim como levantamento das principais dúvidas e dificuldades dos professores em relação ao trabalho com a questão racial na escola e encaminhamento de medidas para resolvê-las, feitos pela administração dos sistemas de ensino e por Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros. - Articulação entre os sistemas de ensino, estabelecimentos de ensino superior, centros de pesquisa, Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros, escolas, comunidade e movimentos sociais, visando à formação de professores para a diversidade étnico-racial. - Instalação, nos diferentes sistemas de ensino, de grupo de trabalho para discutir e coordenar planejamento e execução da formação de professores para atender ao disposto neste parecer quanto à Educação das Relações Étnico-Raciais e ao determinado nos Art. 26 e 26A da Lei 9394/1996, com o apoio do Sistema Nacional de Formação Continuada e Certificação de Professores do MEC. Petronilha 0215/SOS 13 - Introdução, nos cursos de formação de professores e de outros profissionais da educação: de análises das relações sociais e raciais no Brasil; de conceitos e de suas bases teóricas, tais como racismo, discriminações, intolerância, preconceito, estereótipo, raça, etnia, cultura, classe social, diversidade, diferença, multiculturalismo; de práticas pedagógicas, de materiais e de textos didáticos, na perspectiva da reeducação das relações étnico-raciais e do ensino e aprendizagem da História e cultura dos Afro-brasileiros e dos Africanos. - Inclusão de discussão da questão racial como parte integrante da matriz curricular, tanto dos cursos de licenciatura para Educação Infantil, os anos iniciais e finais da Educação Fundamental, Educação Média, Educação de Jovens e Adultos, como de processos de formação continuada de professores, inclusive de docentes no Ensino Superior. - Inclusão, respeitada a autonomia dos estabelecimentos do Ensino Superior, nos conteúdos de disciplinas e em atividades curriculares dos cursos que ministra, de Educação das Relações Étnico-Raciais, de conhecimentos de matriz africana e/ou que dizem respeito à população negra. Por exemplo: em Medicina, entre outras questões, estudo da anemia falciforme, da problemática da pressão alta; em Matemática, contribuições de raiz africana, identificadas e descritas pela Etno-Matemática; em Filosofia, estudo da filosofia tradicional africana e de contribuições de filósofos africanos e afrodescendentes da atualidade. - Inclusão de bibliografia relativa à história e cultura afro-brasileira e africana às relações étnico-raciais, aos problemas desencadeados pelo racismo e por outras discriminações, à pedagogia anti-racista nos programas de concursos públicos para admissão de professores. - Inclusão, em documentos normativos e de planejamento dos estabelecimentos de ensino de todos os níveis - estatutos, regimentos, planos pedagógicos, planos de ensino - de objetivos explícitos, assim como de procedimentos para sua consecução, visando ao combate do racismo, das discriminações, e ao reconhecimento, valorização e ao respeito das histórias e culturas afro-brasileira e africana. - Previsão, nos fins, responsabilidades e tarefas dos conselhos escolares e de outros órgãos colegiados, do exame e encaminhamento de solução para situações de racismo e de discriminações, buscando-se criar situações educativas em que as vítimas recebam apoio requerido para superar o sofrimento e os agressores, orientação para que compreendam a dimensão do que praticaram e ambos, educação para o reconhecimento, valorização e respeito mútuos. - Inclusão de personagens negros, assim como de outros grupos étnico-raciais, em cartazes e outras ilustrações sobre qualquer tema abordado na escola, a não ser quando tratar de manifestações culturais próprias, ainda que não exclusivas, de um determinado grupo étnico-racial. - Organização de centros de documentação, bibliotecas, midiotecas, museus, exposições em que se divulguem valores, pensamentos, jeitos de ser e viver dos diferentes grupos étnico-raciais brasileiros, particularmentedos afrodescendentes. Petronilha 0215/SOS 14 - Identificação, com o apoio dos Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros, de fontes de conhecimentos de origem africana, a fim de selecionarem-se conteúdos e procedimentos de ensino e de aprendizagens; - Incentivo, pelos sistemas de ensino, a pesquisas sobre processos educativos orientados por valores, visões de mundo, conhecimentos afro-brasileiros e indígenas, com o objetivo de ampliação e fortalecimento de bases teóricas para a educação brasileira. - Identificação, coleta, compilação de informações sobre a população negra, com vistas à formulação de políticas públicas de Estado, comunitárias e institucionais. - Edição de livros e de materiais didáticos, para diferentes níveis e modalidades de ensino, que atendam ao disposto neste parecer, em cumprimento ao disposto no Art. 26A da LDB, e, para tanto, abordem a pluralidade cultural e a diversidade étnico-racial da nação brasileira, corrijam distorções e equívocos em obras já publicadas sobre a história, a cultura, a identidade dos afrodescendentes, sob o incentivo e supervisão dos programas de difusão de livros educacionais do MEC – Programa Nacional do Livro Didático e Programa Nacional de Bibliotecas Escolares (PNBE). - Divulgação, pelos sistemas de ensino e mantenedoras, com o apoio dos Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros, de uma bibliografia afro-brasileira e de outros materiais como mapas da diáspora, da África, de quilombos brasileiros, fotografias de territórios negros urbanos e rurais, reprodução de obras de arte afro-brasileira e africana a serem distribuídos nas escolas da rede, com vistas à formação de professores e alunos para o combate à discriminação e ao racismo. - Oferta de Educação Fundamental em áreas de remanescentes de quilombos, contando as escolas com professores e pessoal administrativo que se disponham a conhecer física e culturalmente, a comunidade e a formar-se para trabalhar com suas especificidades. - Garantia, pelos sistemas de ensino e entidades mantenedoras, de condições humanas, materiais e financeiras para execução de projetos com o objetivo de Educação das Relações Étnico-raciais e estudo de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, assim como organização de serviços e atividades que controlem, avaliem e redimensionem sua consecução, que exerçam fiscalização das políticas adotadas e providenciem correção de distorções. - Realização, pelos sistemas de ensino federal, estadual e municipal, de atividades periódicas, com a participação das redes das escolas públicas e privadas, de exposição, avaliação e divulgação dos êxitos e dificuldades do ensino e aprendizagem de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana e da Educação das Relações Étnico-Raciais; assim como comunicação detalhada dos resultados obtidos ao Ministério da Educação, à Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial, ao Conselho Nacional de Educação, e aos respectivos conselhos Estaduais e Municipais de Educação, para que encaminhem providências, quando for o caso. - Adequação dos mecanismos de avaliação das condições de funcionamento dos estabelecimentos de ensino, tanto da educação básica quanto superior, ao disposto neste Parecer; inclusive com a inclusão nos formulários, preenchidos pelas comissões Petronilha 0215/SOS 15 de avaliação, nos itens relativos a currículo, atendimento aos alunos, projeto pedagógico, plano institucional, de quesitos que contemplem as orientações e exigências aqui formuladas. - Disponibilização deste parecer, na sua íntegra, para os professores de todos os níveis de ensino, responsáveis pelo ensino de diferentes disciplinas e atividades educacionais, assim como para outros profissionais interessados a fim de que possam estudar, interpretar as orientações, enriquecer, executar as determinações aqui feitas e avaliar seu próprio trabalho e resultados obtidos por seus alunos, considerando princípios e critérios apontados. Diretrizes Nacionais para Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e AfricanaObrigatoriedade do Ensino de História e Cultura Afro-Brasileiras, Educação das Relações Étnico-Raciais e os Conselhos de Educação Diretrizes são dimensões normativas, reguladoras de caminhos, embora não fechadas a que historicamente possam, a partir das determinações iniciais, tomar novos rumos. Diretrizes não visam a desencadear ações uniformes, todavia, objetivam oferecer referências e critérios para que se implantem ações, as avaliem e reformulem no que e quando necessário. Estas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, na medida em que procedem de ditames constitucionais e de marcos legais nacionais, na medida em que se referem ao resgate de uma comunidade que povoou e construiu a nação brasileira, atingem o âmago do pacto federativo. Nessa medida, cabe aos conselhos de Educação dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios aclimatar tais diretrizes, dentro do regime de colaboração e da autonomia de entes federativos, a seus respectivos sistemas, dando ênfase à importância de os planejamentos valorizarem, sem omitir outras regiões, a participação dos afrodescendentes, do período escravista aos nossos dias, na sociedade, economia, política, cultura da região e da localidade; definindo medidas urgentes para formação de professores; incentivando o desenvolvimento de pesquisas bem como envolvimento comunitário. A esses órgãos normativos cabe, pois, a tarefa de adequar o proposto neste parecer à realidade de cada sistema de ensino. E, a partir daí, deverá ser competência dos órgãos executores - administrações de cada sistema de ensino, das escolas - definir estratégias que, quando postas em ação, viabilizarão o cumprimento efetivo da Lei de Diretrizes e Bases que estabelece a formação básica comum, o respeito aos valores culturais, como princípios constitucionais da educação tanto quanto da dignidade da pessoa humana (inciso III do art. 1), garantindo-se a promoção do bem de todos, sem preconceitos (inciso IV do Art. 3) a prevalência dos direitos humanos (inciso II do art. 4°) e repúdio ao racismo (inciso VIII do art. 4°). Cumprir a Lei é, pois, responsabilidade de todos e não apenas do professor em sala de aula. Exige-se, assim, um comprometimento solidário dos vários elos do sistema de ensino brasileiro, tendo-se como ponto de partida o presente parecer, que junto com outras diretrizes e pareceres e resoluções, têm o papel articulador e coordenador da organização da educação nacional. II – VOTO DA COMISSÃO Face ao exposto e diante de direitos desrespeitados, tais como: o de não sofrer discriminações por ser descendente de africanos; Petronilha 0215/SOS 16 o de ter reconhecida a decisiva participação de seus antepassados e da sua própria na construção da nação brasileira; o de ter reconhecida sua cultura nas diferentes matrizes de raiz africana; - diante da exclusão secular da população negra dos bancos escolares, notadamente em nossos dias, no ensino superior; - diante da necessidade de crianças, jovens e adultos estudantes sentirem-se contemplados e respeitados, em suas peculiaridades, inclusive as étnico-raciais, nos programas e projetos educacionais; - diante da importância de reeducação das relações étnico/raciais no Brasil; - diante da ignorância que diferentes grupos étnico-raciais têm uns dos outros, bem como da necessidade de superar esta ignorância para que se construa uma sociedade democrática; - diante, também, da violência explícita ou simbólica, gerada por toda sorte de racismos e discriminações, que sofrem os negros descendentes de africanos; - diante de humilhações e ultrajes sofridos por estudantes negros, em todos os níveis de ensino, em conseqüência de posturas, atitudes, textos e materiais de ensino com conteúdos racistas; - diante de compromissos internacionais assumidos pelo Brasil em convenções, entre outro os da Convenção da UNESCO, de 1960, relativo ao combate ao racismo em todas as formas de ensino, bem como os da Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Discriminações Correlatas, 2001; - diante da Constituição Federal de 1988, em seu Art. 3º, inciso IV, que garante a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação; do inciso 42 do Artigo 5º que trata da prática do racismo como crime inafiançável e imprescritível; do § 1º do Art. 215 que trata da proteção das manifestações culturais; - diante do Decreto 1.904/1996, relativo ao Programa Nacional de Direitos Humanas que assegura a presença histórica das lutas dos negros na constituição do país; - diante do Decreto 4.228, de 13 de maio de 2002, que institui, no âmbito da Administração Pública Federal, o Programa Nacional de Ações Afirmativas; - diante das Leis 7.716/1999, 8.081/1990 e 9.459/1997 que regulam os crimes resultantes de preconceito de raça e de cor e estabelecem as penas aplicáveis aos atos discriminatórios e preconceituosos, entre outros, de raça, cor, religião, etnia ou procedência nacional; - diante do inciso I da Lei 9.394/1996, relativo ao respeito à igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; diante dos Arts 26, 26 A e 79 B da Lei 9.394/1996, estes últimos introduzidos por força da Lei 10.639/2003, proponho ao Conselho Pleno: a) instituir as Diretrizes explicitadas neste parecer e no projeto de Resolução em anexo, para serem executadas pelos estabelecimentos de ensino de diferentes níveis e modalidades, cabendo aos sistemas de ensino, no âmbito de sua jurisdição, orientá-los, promover a formação dos professores para o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, e para Educação das Relações Ético-Raciais, assim como supervisionar o cumprimento das diretrizes; b) recomendar que este Parecer seja amplamente divulgado, ficando disponível no site do Conselho Nacional de Educação, para consulta dos professores e de outros interessados. Petronilha 0215/SOS 17 Brasília-DF, 10 de março de 2004. Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva – Relatora Carlos Roberto Jamil Cury – Membro Francisca Novantino Pinto de Ângelo – Membro Marília Ancona-Lopez – Membro III – DECISÃO DO CONSELHO PLENO O Conselho Pleno aprova por unanimidade o voto da Relatora. Sala das Sessões, 10 em março de 2004. Conselheiro José Carlos Almeida da Silva – Presidente Petronilha 0215/SOS 18 CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO Diretrizes Nacionais para Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e AfricanaPROJETO DE RESOLUÇÃO Institui Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana O Presidente do Conselho Nacional de Educação, tendo em vista o disposto no Art. 9º, do § 2º, alínea “C”, da Lei nº 9.131, de 25 de novembro de 1995, e com fundamento no Parecer CNE/CP 003/2004, de 10 de março de 2004, peça indispensável do conjunto das presentes Diretrizes Curriculares Nacionais, homologado pelo Ministro da Educação em de 2004, RESOLVE Art. 1° - A presente Resolução institui Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, a serem observadas pelas instituições de ensino de Educação Básica, nos níveis de Educação Infantil, Ensino Fundamental, Educação Média, Educação de Jovens e Adultos, bem como na Educação Superior, em especial no que se refere à formação inicial e continuada de professores, necessariamente quanto à Educação das Relações Étnico-Raciais; e por aquelas de Educação Básica, nos termos da Lei 9394/96, reformulada por forma da Lei 10639/2003, no que diz respeito ao ensino sistemático de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, em especial em conteúdos de Educação Artística, Literatura e História do Brasil. Art. 2° - As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africanas se constituem de orientações, princípios e fundamentos para o planejamento, execução e avaliação da Educação das Relações Étnico-Raciais e do Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Petronilha 0215/SOS 19 Art. 3° As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana têm por meta a educação de cidadãos atuantes no seio da sociedade brasileira que é multicultural e pluriétnica, capazes de, por meio de relações étnico-sociais positivas, construírem uma nação democrática. §1° A Educação das Relações Étnico-Raciais tem por objetivo a divulgação e produção de conhecimentos, bem como de atitudes, posturas e valores que eduquem cidadãos quanto ao seu pertencimento étnico-racial - descendentes de africanos, povos indígenas, descendentes de europeus, de asiáticos – capazes de interagir e de negociar objetivos comuns que garantam, a todos, ter igualmente respeitados seus direitos, valorizada sua identidade e assim participem da consolidação da democracia brasileira. §2º O Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, meio privilegiado para a educação das relações étnico-raciais, tem por objetivo o reconhecimento e valorização da identidade, história e cultura dos afro-brasileiros, garantia de seus direitos de cidadãos, reconhecimento e igual valorização das raízes africanas da nação brasileira, ao lado das indígenas, européias, asiáticas. Art. 4° Os conteúdos, competências, atitudes e valores a serem aprendidos com a Educação das Relações Étnico-Raciais e o estudo de História e Cultura Afro-Brasileira, bem como de História e Cultura Africana, serão estabelecidos pelos estabelecimentos de ensino e seus professores, com o apoio e supervisão dos sistemas de ensino, entidades mantenedoras e coordenações pedagógicas, atendidas as indicações, recomendações, diretrizes explicitadas no Parecer CNE/CP 003/2004. Art. 5° Os sistemas e os estabelecimentos de ensino poderão estabelecer canais de comunicação com grupos do Movimento Negro, grupos culturais negros, instituições formadoras de professores, núcleos de estudos e pesquisas, como os Núcleos de Estudos Afro- Brasileiros, com a finalidade de buscar subsídios e trocar experiências para planos institucionais, planos pedagógicos, planos e projetos de ensino. Art. 6º Os sistemas de ensino e as entidades mantenedoras incentivarão e criarão condições materiais e financeiras, assim como proverão as escolas, seus professores e alunos de material bibliográfico e de outros materiais didáticos necessários para a educação das Relações Étnico- Raciais e o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana; as coordenações pedagógicas promoverão o aprofundamento de estudos, para que os professores concebam e desenvolvam unidades de estudos, projetos e programas, abrangendo os diferentes componentes curriculares. Art. 7º As instituições de ensino superior, respeitada a autonomia que lhe é devida, incluirão nos conteúdos de disciplinas e atividades curriculares dos diferentes cursos que ministram, a Educação das Relações Étnico-Raciais, bem como o tratamento de questões e temáticas que dizem respeito aos afrodescendentes, nos termos explicitados no Parecer CNE/CP 003/2004. Art. 8° Os sistemas de ensino tomarão providências para que seja respeitado o direito de alunos afrodescendentes também freqüentarem estabelecimentos de ensino que contem com instalações e equipamentos sólidos, atualizados, com professores competentes no domínio dos conteúdos de ensino, comprometidos com a educação de negros e não negros, no sentido de que venham a relacionar-se com respeito, sendo capazes de corrigir posturas, atitudes, palavras que impliquem desrespeito e discriminação. Petronilha 0215/SOS 20 Art. 9° Nos fins, responsabilidades e tarefas dos órgãos colegiados dos estabelecimentos de ensino, será previsto o exame e encaminhamento de solução para situações de discriminação, buscando-se criar situações educativas para o reconhecimento, valorização e respeito da diversidade. § Único: As situações de racismo serão tratadas como crimes imprescritíveis e inafiançáveis, conforme prevê o Art. 5º, XLII da Constituição Federal de 1988. Art. 10 Os estabelecimentos de ensino de diferentes níveis, com o apoio e supervisão dos sistemas de ensino desenvolverão a Educação das Relações Étnico-Raciais e o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, obedecendo as diretrizes do Parecer CNE/CP 003/2004, o que será considerado na avaliação de suas condições de funcionamento. Art. 11 Os sistemas de ensino incentivarão pesquisas sobre processos educativos orientados por valores, visões de mundo, conhecimentos afro-brasileiros, ao lado de pesquisas de mesma natureza junto aos povos indígenas, com o objetivo de ampliação e fortalecimento de bases teóricas para a educação brasileira. Art. 12 Os sistemas de ensino orientarão e supervisionarão para que a edição de livros e de outros materiais didáticos atenda ao disposto no Parecer CNE/CP 003/2004, no comprimento da legislação em vigor. Art. 13 Aos conselhos de Educação dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios caberá aclimatar as Diretrizes Curriculares Nacionais instituídas por esta Resolução, dentro do regime de colaboração e da autonomia de entes federativos e seus respectivos sistemas. Art. 14 Os sistemas de ensino promoverão junto com ampla divulgação do Parecer CNE/CP 003/2004 e dessa Resolução, atividades periódicas, com a participação das redes das escolas públicas e privadas, de exposição, avaliação e divulgação dos êxitos e dificuldades do ensino e aprendizagens de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana e da Educação das Relações Étnico-Raciais; assim como comunicarão, de forma detalhada, os resultados obtidos ao Ministério da Educação, à Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial, ao Conselho Nacional de Educação e aos respectivos Conselhos Estaduais e Municipais de Educação, para que encaminhem providências, que forem requeridas. Art. 15 Esta resolução entra em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário. Brasília(DF), 10 de março de 2004. Petronilha 0215/SOS 21 Síndrome de Burnout
http://www.abril.com.br/noticia/comportamento/no_307504.shtmlSíndrome do burnout atinge 30% dos trabalhadores brasileirosCondição pode levar à depressão e à queda no rendimento do empregadoGetty Images
Síndrome é caracterizada pelo esgotamento mental Frustrações profissionais no dia-a-dia são algo normal. O problema é quando se torna rotina a ponto de deflagrar a síndrome de burnout, uma condição de estresse e desânimo extremo com o trabalho. Estresse dentro e fora da sala de aula
Edição: 635 Data:18/05/2008 Estresse dentro e fora da sala de aula Manoel Messias Apesar de não haver uma pesquisa completa e detalhada sobre o assunto, sabe-se que um percentual significativo dos professores sofre com estresse, depressão e outros distúrbios psicológicos. Dados da Organização Internacional do Trabalho indicam que profissões como médico e professor estão entre as mais desgastantes, colocando esses profissionais em um grupo em que é maior a incidência de afastamento por recomendação médica. Uma pesquisa feita no ano passado pelo Ibope a pedido da revista Nova Escola com 500 professores de redes públicas das capitais revelou que mais da metade dos entrevistados sofre de estresse. Entre as queixas freqüentes estão dores musculares e algum tipo de mal-estar, citadas por 40% deles. Na rede municipal de Goiânia e na rede estadual, em Goiás, não há estudo ou estatística sobre os males que afligem os professores. Também não há programas preventivos para identificar e evitar os distúrbios antes que a situação piore e o professor seja afastado da sala. Há apenas algumas pesquisas acadêmicas que indicam a gravidade do problema
http://www.hojenoticia.com.br/editoria_materia.php?id=16858
A viagem na América LatinaViagens...
Passeios, momentos vividos, compartilhados em relacionamentos
Com a natureza, com as pessoas, com os intercâmbios científicos, durante a peregrinação espiritual
Momentos experiênciados no corpo, nas emoções, na mente, no espírito
Viagens...
Que trazem lembranças e despertam saudades
Saudades da mística, do estudo, da partilha, da tomada de atitude, da mudança
Da transformação...
Momentos registrados nas fotografias, no diário de campo, no coração...
Viagens...
Falar o que, dizer o que?
Lembranças registradas na memória, no DNA...
Aprendi, como aprendi nessas viagens...
Pois é " Viver e não ter a vergonha de ser feliz!"
Obrigado! Sou grata por tal oportunidade!
Agradeço a todos e a todas que vibraram, torceram para que tudo desse certo...
Agradeço ao amparo e orientação espiritual recebida, tantos amigos que eu só sentia
as presenças, as energias, os fluidos, a mágia...
Viagens...
Outras virão... mas a experiência dessa ficará...
Realizei um sonho! E as merkabas deixaram-se fotografar...
Núcleo de Estudos de Problemas Espirituais e Religiosos (NEPER)
REVISTA PSIQUIATRIA DE CLÍNICA Núcleo de estudos de problemas espirituais e religiosos (Neper) Alexander Moreira de Almeida1, Hyong Jin Cho2, As dimensões espirituais e religiosas da cultura estão entre os fatores mais importantes que estruturam a experiência humana, as crenças, os valores, o comportamento e os padrões de adoecimento (Lukoff, 1992; Sims, 1994; Amaro, 1996; Weaver, 1998). Apesar disso, a psiquiatria, em seus sistemas diagnósticos, bem como em sua teoria, pesquisa e prática, tende a ignorar ou a considerar patológicas as dimensões religiosas e espirituais da vida (Lukoff, 1992; King, 1998). Assim como a religiosidade é tradicionalmente vista de modo negativo pela psiquiatria, as experiências místicas e espirituais são tidas como evidências de psicopatologia (Lukoff, 1992). Fato relevante é que essas visões negativas da religião e da espiritualidade não se mantêm à luz de recentes estudos que não encontram associação entre esses fatores e a psicopatologia (Lotufo Neto, 1997). Para a maioria das pessoas, religião e espiritualidade são mais fonte de suporte e bem-estar que evidência de psicopatologia (Lukoff, 1995). Trabalhos têm relatado que pessoas que vivenciam experiências místicas pontuam menos em escalas de psicopatologia e mais em medidas de bem-estar psicológico que controles (Lukoff, 1992). Levantamentos da última década têm mostrado que experiências extra-sensoriais dissociativas são comuns na população geral (Ross, 1990; Ross, 1992; Levin, 1993) e, freqüentemente, não estão associadas a transtornos psiquiátricos em populações não-clínicas (Heber, 1989). A despeito dessas sinalizações que apontam para uma mudança de postura diante dos fenômenos religiosos e espirituais, revisões sistemáticas em quatro das mais importantes revistas de psiquiatria do mundo expuseram um quadro preocupante. Larson (1986) detectou que apenas 2,5% dos artigos dessas revistas, entre 1978 e 1982, utilizaram alguma variável religiosa. Uma repetição da mesma pesquisa, abrangendo de 1991 a 1995, apontou uma queda para 1,2% (Weaver, 1998). E mesmo essa minoria de artigos que utilizou alguma variável religiosa geralmente o fez por meio de um único item, ao invés dos métodos multidimensionais, que são os mais indicados para pesquisas em religião (Larson, 1986; Lotufo Neto, 1997; Weaver, 1998). A Associação Psiquiátrica Americana deu um passo importante na revisão dessa insensibilidade cultural da psiquiatria ao incluir no DSM-IV uma nova categoria diagnóstica: Problemas Espirituais e Religiosos, que foi incluída no eixo I, no item "Outras condições que podem ser um foco de atenção clínica" (APA, 1994; Turner, 1995). Essa nova categoria foi incluída porque "continuar a negligenciar as questões espirituais e religiosas perpetuaria as falhas que a psiquiatria tem cometido nesse campo: falhas de diagnóstico e tratamento, pesquisa e teoria inadequadas e uma limitação no desenvolvimento pessoal dos próprios psiquiatras" (Lu, 1994). Pela primeira vez, no DSM, há o reconhecimento de que problemas religiosos e espirituais podem ser o foco de uma consulta e do tratamento psiquiátrico e que muitos desses problemas não são atribuíveis a um transtorno mental (Lukoff, 1995). Os problemas religiosos são: conversão para uma nova religião, intensificação na aderência a crenças e práticas, perda ou questionamento da fé e novos cultos e movimentos religiosos. Dentre os tipos de problemas espirituais, temos: experiências místicas, experiências de quase morte, emergência espiritual e meditação (Turner, 1995). Como Gabbard (1982) afirmou: "É incumbência dos psiquiatras estarem familiarizados com o amplo leque de experiências humanas, saudáveis ou patológicas. Precisamos respeitar e diferenciar as experiências incomuns, mas integrativas, das que são (...) desorganizadoras". Os benefícios almejados com a adoção dessa nova categoria são: aumentar a acurácia diagnóstica e reduzir a iatrogenia decorrente do diagnóstico equivocado dos problemas espirituais e religiosos, melhorar o tratamento ao estimular pesquisas clínicas e ao encorajar a inclusão das dimensões religiosas e espirituais da experiência humana no tratamento psiquiátrico (Lu, 1994). O Brasil, devido à sua grande diversidade religiosa, encontra-se numa posição privilegiada para fazer avançar o nosso conhecimento sobre o tema. O estudo desses tópicos em nosso meio pode colaborar muito na melhor compreensão dos fenômenos tão disseminados e enraizados em nossa cultura, que é o que se espera da pesquisa nacional (Ramadam, 1996). Considerados como experiências subjetivas, os fenômenos religiosos e espirituais podem ser investigados com confiabilidade do mesmo modo que a ansiedade, a depressão ou qualquer outro grupo de vivências. Para estudar cientificamente essas questões, não é necessário tomar qualquer decisão sobre sua realidade objetiva. Elas podem ser pesquisadas em suas correlações clínicas com qualquer outro conjunto de dados (Ross, 1992; Hufford, 1992; King, 1998). Problemas religiosos e espirituais necessitam ser objeto de mais pesquisas para melhor compreender sua prevalência, características clínicas, fatores predisponentes interpsíquicos e intrapsíquicos, evolução, relação com o ciclo vital e fatores étnicos. Duas áreas de particular importância para futuros estudos são o diagnóstico diferencial e o tratamento. Uma maior elaboração do diagnóstico diferencial entre os problemas espirituais e religiosos e os transtornos mentais com conteúdos espirituais e religiosos. Diretrizes de tratamento deverão ser estabelecidas para aliviar tais pacientes e evitar iatrogenias decorrentes do uso de terapêutica inadequada (Turner, 1995). Baseando-se nessa nova classe do DSM-IV, tendo em vista a diversidade religiosa do Brasil e a carência de estudos na área, foi fundado no Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP o Núcleo de Estudos de Problemas Espirituais e Religiosos (Neper). Seu objetivo é o estudo, a pesquisa e a assistência de questões religiosas e espirituais segundo o enfoque científico da moderna psiquiatria, não vinculado a nenhuma corrente filosófica ou religiosa. Seus integrantes já desenvolveram tese sobre psiquiatria e religião (Neto, 1997), livro e artigos sobre psicoterapia e religião (Amaro, 1994, 1995a, 1995b, 1995c, 1995d, 1996a, 1996b, 1996c), bem como pesquisa de campo sobre "cirurgia espiritual" (Almeida, 1999). Foi realizado um seminário sobre "Terapia Familiar e a Comunidade Religiosa" com a Dra. Martha Robbins, professora do Psychology Western Institute of Psychiatry em Pittsburg, EUA. Periodicamente, são realizados seminários de discussão de artigos e projetos abertos a todos os profissionais da área de saúde. Pesquisas estão sendo planejadas, assim como um programa de prevenção em saúde mental a ser desenvolvido nas comunidades religiosas. Almejamos que o Neper colabore na reversão da insensibilidade cultural da psiquiatria, na produção e difusão do saber ligado aos problemas espirituais e religiosos. Referências Bibliográficas Almeida, A. M.; Almeida, T. M. & Gollner, A. M. _ Cirurgia espiritual: uma investigação _ Rev Ass Med Brasil (aprovado, aguardando publicação). Amaro, J.W.F. _ Filosofia e religião _ Rev Psiq Clin 20: 19-22, 1994. Amaro, J.W.F. _ Psicologia e religião, segundo C. G. Jung _ Rev Psiq Clin 22: 1-10, 1995a. Amaro, J.W.F. _ Mito e religião _ Rev Psiq Clin 22: 31-7, 1995b. Amaro, J.W.F. _ Psicanálise e religião _ Rev Psiq Clin: 22: 75-81, 1995c. Amaro, J.W.F. _ Psicologia e religião segundo Freud, Fromm e Durkheim _ Rev Psiq Clin 22: 107-114, 1995d. Amaro, J.W.F. _ Maturidade e religião _ Rev Psiq Clin 23: 7-10, 1996a. Amaro, J.W.F. _ Psicoterapia e religião. Lemos Editorial, São Paulo, 1996b. Amaro, J.W.F. _ Psicoterapia e religião _ Rev Psiq Clin 23: 47-50, 1996c. American Psychiatric Association _ Diagnostic and statistical manual of mental disorders, 4th ed., American Psychiatric Press, Washington DC, 1994. Gabbard, G.O.; Twemlow, S.W. & Jones, F.C. _ Differential diagnosis of altered mind/body perception _ Psychiatry 45: 361-369, 1982. Heber, A.S.; Fleisher, W.P.; Ross, C.A. & Stanwick, R.S. _ Dissociation in alternative healers and traditional therapists: A comparative study _ Am J Psychotherapy 43: 562-574, 1989. Hufford, D.J. _ Commentary _ Paranormal experiences in the general population _ J Nerv Ment Dis 180: 362-68, 1992. King, M. B. & Dein, S. _ The spiritual variable in psychiatric research _ Psychological Medicine 28: 1259-1262, 1998. Larson, D.B.; Pattison, E.M.; Blazer, D.G. et al. _ Systematic analysis of research variables in four major psychiatric journals _ Am J Psychiatry 143: 329-334, 1986. Levin, J.S. _ Age differences in mystical experience _ The Gerontologist 33: 507-13,1993. Lotufo Neto, F. _ Psiquiatria e religião: a prevalência de transtornos mentais entre ministros religiosos _ Tese (livre-docência), Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. São Paulo, 1997. Lu, F.G.; Lukoff, D. & Turner, R. _ Religious or spiritual problems. In: DSM-IV Sourcebook, Washington DC, American Psychiatric Press, 1994. Lukoff, D.; Lu, F. & Tuner, R. _ Toward a more culturally sensitive DSM-IV: psychoreligious and psychospiritual problems _ J Nerv Ment Dis 180: 673-682, 1992. Lukoff, D.; Lu, F.G. & Turner, R. _ Cultural considerations in the assessment and treatment of religious problems _ Psych Clin N Am 18: 467-485, 1995. Ramadam, Z.B.A. _ Pós-graduação: um investimento estratégico _ Rev Psiq Clin 23/24: 46-50, 1996/7. Ross, G.A.; Heber, S.; Norton, G.R. et al. _ The dissociative disorders interview schedule: a structured interview _ Dissociation 2: 169-89, 1989. Ross, C.A.; Joshi, S. & Currie, R _ Dissociative experiences in the general population _ Am J Psychiatry 147: 1547-1552, 1990. Ross, C.A. & Joshi, S. _ Paranormal experiences in the general population _ J Nerv Ment Dis 180: 357-61, 1992. Sims, A. _ "Psyche" _ Spirit as well mind? _ Br J Psychiatry 165: 441-6, 1994. Turner, R.P.; Lukoff, D.; Barnhouse, R. T. & Lu, F.G. _ Religious or spiritual problem _ J Nerv Ment Dis 183: 435-444, 1995. Weaver, A.J.; Samford, J.A.; Larson, D.B. et al. _ A systematic review of research on religion in four major psychiatric journals: 1991-1995 _ J Nerv Ment Dis 186: 187-189, 1998.
AGRADECIMENTOOlá,
Agradeço a você que está lendo esse blog e que auxiliou-me no desfecho da novela do processo de Licença para Aprimoramento Profissional da prefeitura de Goiânia/Go, que desde o dia 04/04/2008 estava aguardando o senhor prefeito assinar.
Você que acompanhou ou ficou sabendo do caso, o meu muito obrigado pelo pensamento otimista, pela vibração positiva, pela intervenção e solicitação pessoal junto ao senhor prefeito, pelas manifestações de protestos...
Informo-lhe que hoje, 09/06/2008, o prefeito assinou todas as licenças.A partir de hoje poderei dedicar-me exclusivamente a pesquisa, a leitura, a investigação, as produções textuais, as participações em eventos científicos, palestras, pesquisa de campo... São tantas as coisas a serem realizadas...
Aproveito essa oportunidade, ainda, para pedir pensamentos positivos pela Paz. "Acenda uma chama para a Paz, começando pelo seu coração!"
Obrigada por tudo!!!!
Atenciosamente,
Genivalda Araujo Cravo dos Santos. O MAL NA EDUCAÇÃO É A SÍNDROME DE BURNOUT?O MAL NA EDUCAÇÃO É A SÍNDROME DE BURNOUT? SANTOS, Genivalda Araujo Cravo dos Doutoranda e Mestre em Ciências da Religião UCG/GO
Resumo: Essa comunicação se propõe a apresentar algumas reflexões realizadas durante o seminário interdisciplinar: simbólico e diabólico - as interpretações do mal, o seminário foi realizado de agosto até dezembro de 2007, a partir de um enfoque multidisplinar, onde refletimos sobre as diversas interpretações, concepções e representações do mal nas religiões numa perspectiva da antropologia da religião, da literatura sagrada e da sociologia da religião. Olhamos através da perspectiva: O mal na educação é a síndrome de burnout? Analisamos em alguns autores os sintomas, conseqüências da síndrome de burnout na educação e as representações simbólicas do mal. O problema do mal, a partir do enfoque do burnout na educação. Para Croatto as expressões simbólicas do mal em algumas cosmovisões religiosas surgem primeiramente na linguagem através da experiência humana e religiosa. Podendo ser simbolicamente representado como sendo: impureza esse símbolo é muito utilizado nas religiões através dos rituais de purificação; pecado o símbolo religioso é a conversão, a remissão dos pecados; culpa o símbolo religioso é a libertação, “tirar o peso de cima” (Croatto, 1999, p. 118-121). Passos (2004, p. 52-56) reflete sobre a burnout, como uma oportunidade simbólica de mudança do velho paradigma educacional para um novo, onde os seres humanos terão condições de ter prazer e sentido de vida no que fazem. “Se houver uma ação em favor da vida – e contra Burnout -, não é a supressão do signo e de sua simbolização, mas sim, compreender e modificar o significante, que são as razões sócio-econômico-político-culturais de nossos conflitos”. A partir desse enfoque burnout deixa de ser simbolicamente uma representação do mal, uma culpa, impureza, pecado para ser salvação, ressignificação das concepções, princípios e estruturas educacionais. É uma denúncia de que algo não vai bem, não é só com os profissionais em educação e sim em toda estrutura social, perpassando todos os níveis institucionais (Passos, 2004; Arntz, 2007).
O mal é experimentado de muitas maneiras, desde a doença até a morte, desde as desgraças naturais (terremotos, vulcões, granizo) até as limitações de todo tipo, como a pobreza, as frustrações, a perda de sentido da vida etc. Cada cosmovisão religiosa tem sua interpretação do mal. (Croatto, 2001, p. 118) O mundo é mau: os alunos são maus porque são indisciplinados, não se interessam pela escola e não aprendem; a família dos alunos é má porque não apoia o seu trabalho; a sociedade é má porque não valoriza sua profissão; o governo é mau porque oferece baixos salários; a direção da escola é má porque não oferece o suporte que ele precisa; os outros profissionais também são maus... Enfim, tudo vai mal. (Codo; Vasque-Menezes, 2000, p. 31)
1. INTRODUÇÃO Esse artigo se propõe a apresentar algumas reflexões realizadas durante o seminário interdisciplinar: simbólico e diabólico - as interpretações do mal[1], a partir da perspectiva da síndrome de burnout ser o mal na educação; e realizaremos, também, algumas provocações referentes ao problema do mal. A metodologia desenvolvida durante o seminário foi interdisciplinar e multidisciplinar para compreendermos e interpretarmos o mal nas religiões e as suas influencias sociais e culturais. Através do estudo da literatura recomendada por cada docente, com a leitura dos textos, das apresentações, das reflexões e da produção de artigos pelos discentes, nós fomos tecendo o simbólico e o diabólico existente no mal. Muitas questões burilaram o pensamento da autora durante a realização deste seminário, apresentaremos apenas alguns desses burilamentos interiores: “a maioria das grandes descobertas e revelações caras à nossa sociedade foi produto de perguntas... e a ciência só progride porque se fazem perguntas e se desafiam...” (Arntz, 2007, p. 4; 8). Uma das grandes verdades sobre os paradigmas é que ‘eles mudam’. Na ciência, que é uma construção na qual uma geração se edifica em cima do trabalho dos que vieram antes, o paradigma do conhecimento evolui à medida que as visões antigas se revelam incompletas ou incorretas. Ora devagar, ora esperneando e gritando, a grandeza da ciência é que ela ‘avança’! (Arntz, 2007, p. 28-29) A citação acima será o nosso guia nas provocações que realizaremos ao longo desse artigo. Acreditamos que a abordagem das ciências da religião nos estudos sobre a qualidade de vida no trabalho e o fenômeno religioso poderá evidenciar novos olhares sobre o problema do mal na educação. Primeiramente vamos conceituar o que entendemos por religião, mencionaremos o conceito e Jung (1997, p. 289) de experiência religiosa: “a religião é uma experiência absoluta. Uma experiência religiosa [...] então ele [a pessoa] a teve e ninguém pode tirá-la dele”. A experiência fornece sentido simbólico à vida, representam forças emocionais ou numinosidade, podendo, desta maneira, restabelecer a saúde e a nomia: A pessoa humana precisa de vida simbólica. E precisa com urgência. Nós só vivemos coisas banais, comuns, racionais ou irracionais – que naturalmente também estão dentro do campo de interesse do racionalismo, caso contrário poderíamos chamá-las irracionais. Mas não temos vida simbólica [...] mas temos necessidade premente dela. (Jung, 1997, p. 272-3) Nas nossas pesquisas realizadas entre 2003/2004, no Mestrado em Ciências na Religião da UCG/GO, evidenciamos um quadro preocupante sobre o impacto do trabalho na saúde das trabalhadoras em educação e quais as alternativas buscadas pelas profissionais em educação quando acometidas por anomias[2], síndrome de burnout e/ou depressão, em especial na terapêutica espiritual/religiosa, no caso da pesquisa no Espiritismo (Santos, 2004; 2007). No doutorado estamos nos propondo a estudar a qualidade de vida no trabalho na perspectiva das ciências da religião a partir das seguintes problematizações: Será que o fenômeno religioso ajuda a minimizar os reflexos do impacto do trabalho na saúde mental da trabalhadora em educação? As terapias espirituais/religiosas fornecem sentido de vida simbólica às trabalhadoras em educação, acometidas com estresse, síndrome de burnout e/ou depressão? De que forma as terapêuticas espirituais/religiosas ajudam na busca de qualidade de vida no trabalho? Quais são as teodicéias fornecidas pelo fenômeno religioso, através das terapias espirituais/religiosas, quando os/as trabalhadores/as em educação estão adoecidas, momentaneamente, pelo estresse, síndrome de burnout e/ou depressão e como essas teodicéias ajudam profissionalmente as trabalhadoras em educação? Estamos pesquisando e procurando compreender de que forma as terapias espirituais/religiosas ajudam as/os trabalhadores/as em educação na qualidade de vida no trabalho. As terapêuticas espirituais/religiosas ajudam profissionalmente as trabalhadoras em educação acometidas com a síndrome de burnout e/ou com a depressão? Em síntese, queremos continuar pesquisando o impacto da profissão na saúde mental do/a trabalhador/a em educação e a busca do restabelecimento da saúde por meio da terapêutica espiritual/religiosa. A nossa tese é que o fenômeno religioso influencia e ajuda os/as trabalhadores/as em educação na qualidade de vida no trabalho. O fenômeno religioso, através das terapias espirituais/religiosas, constroi padrões e modelos de sentido de vida simbólica, através das suas teodicéias, que auxiliam os/as trabalhadores/as em educação a suportarem o cotidiano e a gerarem sentidos e significados para sua atuação profissional. Quando há mudanças de padrões e modelos a partir da teodicéia fornecida pelo fenômeno religioso, há uma ressignificação da percepção e dos propositos do sentido de vida simbólica do/a trabalhador/a em educação. Vamos agora compreender um pouco sobre o mal na educação, a partir do enfoque da síndrome de burnout. No quadro abaixo uma descrição resumida sobre o que vem a ser a doença que está acometendo 48,04% da categoria que trabalha na educação pública no Brasil (Codo, 1999). Esses dados que estamos apresentando, neste artigo, são de 1999, possivelmente se fossemos realizar a mesma pesquisa na educação básica no Brasil, passados seus oitos anos de resultados, os dados poderão ser ainda mais alarmantes ou quem sabe termos uma agradável surpresa que esses índices reduziram. Observemos o quadro abaixo, sobre o que é, sintomas e conseqüências da síndrome de burnout: Quadro 1: Burnout o que é, sintomas e conseqüências
Fonte: Codo; Vasques-Menezes, out. 2000. Como podemos perceber essa doença chega à raiz do sentido de vida das pessoas, o trabalho acaba perdendo o sentido e o significado, chegando ao extremo da exaustão, sobrecarga, desumanização e falta de prazer naquilo que faz ou deixa de fazer, atingindo todas as esferas da vida. Passos (2004, p. 52-56) já reflete essa doença como uma oportunidade simbólica de mudança do velho paradigma educacional para um novo, onde os seres humanos terão condições de ter prazer e sentido de vida no que fazem. 1ª) As doenças físicas são nossas irmãs! 2ª) A cura de nossas enfermidades não pode ser feita pela supressão dos sintomas físicos e pelo silenciamento de nossas dores... 3ª) Se houver uma ação em favor da vida – e contra Burnout -, não é a supressão do signo e de sua simbolização, mas sim, compreender e modificar o significante, que são as razões sócio-econômico-político-culturais de nossos conflitos... A cura de Burnout, em nós, é a cura da escola; é a cura das relações materiais e sociais de produção; é a cura da cultura pervertida; e a cura da exploração de nosso desejo; é a destruição da mentira institucional; é a recuperação de voz de protesto, ou seja, a remissão da condição de mercadoria a que estamos submetidos como classes e que usurpa nossa humanidade. Entendemos, assim como Passos (2004), que a síndrome de burnout – acrescentamos a depressão – manifesta-se simbolicamente no corpo, na mente, nas emoções, atitudes, sensações e no espírito das pessoas que acomete. Essa reflexão de Passos (2004) sintetiza também como a anomia age no sistema simbólico das pessoas, em especial das trabalhadoras em educação. A religião, nesses casos, quando é procurada pela pessoa que está vivenciando a doença, terá o papel de oferecer sentido, significado, conforto, respostas para a causa do mal vivenciado; e os rituais religiosos freqüentados e praticados ajudam aqueles que crêem a encontrar nomia e vida simbólica. A partir desse enfoque, acima, burnout deixa de ser simbolicamente uma representação do mal, uma culpa, impureza, estigma, pecado para ser salvação, redenção, justiça, ressignificação dos valores, concepções, princípios e estruturas educacionais. É uma denúncia de que algo não vai bem, não é só com os profissionais em educação e sim em toda estrutura, perpassando todos os níveis institucionais, as pessoas que trabalham na educação, as sociedades, as culturas é ao mesmo tempo uma resistência (Passos, 2004; Arntz, 2007). Sendo assim, vamos ver logo a seguir algumas reflexões sobre as interpretações e representações simbólicas do mal. 2. ALGUNS REFERENCIAIS TEÓRICAS SOBRE A COMPREENSÃO DO MAL Os/as trabalhadores/as em educação, conforme citações nesse artigo, sentem-se impotentes diante do sofrimento psíquico, da exaustão emocional, da despersonalização e da falta de envolvimento no trabalho, em função de estar em burnout (Santos, 2004; 2007). “Tudo vai mal”, expressão mencionada várias vezes por muitas pessoas, não é diferente no meio da educação, olhemos a segunda epígrafe. O paralelo que estamos realizando, nesse artigo, entre o mal e a burnout na educação, evidencia uma banalização do mal de forma sorrateira e silenciosa, corroendo os sonhos e as utopias daqueles que trabalham na educação. O mal sempre povoou o imaginário da humanidade, vamos agora buscar entender porque, a partir da reflexão de alguns autores e autoras, logo abaixo. Bauman (1999, p. 9-61) analisou a modernidade a partir do conceito de ambivalência, a partir da teoria da ordem e da jardinagem. Ele trás diversos exemplos de como o mal agiu na sociedade através dessas teorias ao longo do século passado. A análise sociológica da modernidade, com o olhar de Bauman, nos auxilia a compreender as reflexões que Passos (2004) trás sobre como se pode processar a cura da burnout. Parece que o único fator realmente capaz de contrabalançar e eventualmente compensar o potencial genocida adormecido nas capacidades instrumentais da modernidade e sua mentalidade racional-instrumental é o ‘pluralismo do poder’ e portanto o pluralismo de opiniões autorizadas. Só o pluralismo devolve a responsabilidade moral da ação a seu natural portador: o indivíduo que age. (Bauman, 1999, p. 60) Para Croatto as expressões simbólicas do mal em algumas cosmovisões religiosas, a partir do enfoque antropológico, surgem primeiramente na linguagem através da experiência humana e religiosa. Simbolicamente pode ser representado como sendo: impureza – vem de fora, mancha, adere à pessoa, esse símbolo é muito utilizado nas religiões através dos rituais de purificação; pecado – o outro, uma relação que pode ser consigo mesmo ou apontar o dedo ao outro, o símbolo religioso é a conversão, a remissão dos pecados; culpa – é uma interiorização da falta da pessoa, os símbolos da culpa é o peso ou carga, que pode ser medido e o símbolo religioso é a libertação, “tirar o peso de cima” (Croatto, 1999, p. 118-121). O artigo “O mal e suas representações simbólicas: o universo mítico e social das figuras de satanás na Bíblia”, de Luigi Schiavo trás uma reflexão que serve de orientação na compreensão das diversas vestimentas, sentidos e significados dado ao mal através das representações do diabo. O artigo retrata o conceito histórico da palavra diabo, Lúcifer e demônio e como o significado foi mudando ao longo do processo histórico desde o Antigo Testamento até o Novo Testamento Bíblico. O diabo possuiu diversas representações simbólicas, como por exemplo: luz, adversidade, doença, calamidade, protetor, adversário, indutor do mal. O artigo buscou fundamentar através dos livros bíblicos, apócrifos e em outras literaturas o sentido e significados do mal: O processo de demonização está relacionado à situação de conflito de impotência e de opressão entre grupos sociais e povos. Esta chave nos permite... ler de maneira crítica as várias imagens do demônio na Bíblia, como expressão e memória de situações de conflito, sofrimento, perseguição e morte, mas também como grito de esperança na derrota definitiva do demoníaco que, de mil maneiras, ameaça a vida humana. (Schiavo, 2000, p. 65) O mal foi utilizado como instrumento de dominação, de medo, de poder, coerção, de controle social, de perpetuação de paradigmas que interessavam a determinados grupos dominantes. Em resumo o mal possuiu vários nomes e vestimentas ao longo da história da humanidade. O mal se fundiu com a história do diabo, o Lúcifer. Schiavo (2001) num outro artigo “Como é que é sentir o calor? A história de Lúcifer que se tornou demônio por causa da mulher” relata as representações simbólicas construídas sobre a mulher na bíblia. Contextualiza a influencia cristão-judaica-grego-romana e desmistifica o papel temido da mulher pelo patriacalismo. “A pergunta que nos guiará será: por que a mulher, o sexo e o amor sexual são culpados pelos males que afligem a humanidade?” No final o autor problematiza e menciona as diversas formas de mal imputado as mulheres através das comparações, da dualidade, da necessidade da imposição de símbolos e imagens negativas referentes à mulher, da ambivalência, da impureza e da tentação da mulher/Lúcifer. Schiavo propõe no seu texto uma quebra de paradigmas e o resgate da imagem da mulher, de forma positiva. Constrói uma metodologia feminina, contraponto a literatura com uma leitura nas entrelinhas, buscando verificar as omissões, os medos, os temores e os vazios literários. O autor afirma que o patriacalismo deixou um legado de machismo, dualidade, vergonha do corpo, da sexualidade, da beleza e na construção simbólica bíblica do feminino de forma negativa. Para Sanford (1988, p. 162-194) no texto “A ontologia do mal” ele faz um passeio nas diversas teorias explicativas do problema do mal na teologia cristã e reflexões sobre o interesse e as críticas de Jung a doutrina da privatio boni: “A idéia básica da doutrina da ‘privatio boni’ é que só o bem possui substância; o mal não teria substância própria, mas uma existência apenas no sentido de diminuição do bem” (Sanford, 1988, p. 169). Jung baseia-se em três argumentos para derrubar a doutrina da privatio boni: 1. A imagem unilateralmente luminosa de Cristo contradiz o fato de que o ‘si-mesmo’ é uma combinação dos opostos. 2. A divisão e isolamento entre o mal e a divindade deu a ele demasiada autonomia, com resultados desastrosos para a humanidade, especialmente quando a doutrina da ‘privatio boni’ tranqüiliza os homens numa falsa sensação de segurança ao negar a realidade do mal, ainda que o sentimento humano esteja contra tal negação. 3. A objeção lógica de que o mal é real, já que o bem e o mal são um par de opostos logicamente equivalentes... Já mencionamos o fato de que Jung sentiu que o símbolo trinitário divino estava incompleto, uma vez que ele deve ser um símbolo da totalidade, e que o símbolo do quaternário seria mais representativo da totalidade. (Sanford, 1988, p. 174-175) As reflexões realizadas por Sanford, após analises da citação acima, evidenciaram que o mal e o bem coexistem, formam uma totalidade e depende do ponto de vista da pessoa sobre o que é o bem e o mal. Pois uma situação pode ser bem para si e para o outro pode ser um mal. Já a Souki (2007, p. 43-60) reflete sobre o conceito da banalização do mal a partir da analise dos escritos de Hannah Arendt: Pensar sobre o mal não constitui uma tarefa fácil e muito menos confortável ou prazerosa, ao contrário, representa um desafio... Outra saída é considerar o mal como um enigma e, nessa via, evitá-lo ou remetê-lo ao ‘buraco negro’ do mistério e do insondável. Mas o fato de ignorá-lo, deslocá-lo de seu estatuto real ou expurgá-lo do pensamento não o esconjura, nem tampouco o retira do universo dos problemas humanos... Foi em relação a tais eventos concernentes a Eichmann que Hannah Arent empregou pela primeira vez a expressão banalidade do mal... ‘Era como se naqueles últimos minutos ele estivesse resumindo a lição que este longo percurso através da maldade humana nos ensinou, a lição da temerosa banalidade do mal’... associa claramente ‘inconsciência’, ‘afastamento da realidade’, e ‘obediência’... Isto significa que a aparência de banalidade tem justamente a função de ocultar o verdadeiro escândalo do mal... (Souki, 2007, p. 43;49;50;55) Pensar se burnout é o mal na educação é um desafio. Como paralelo, ao pensamento desenvolvido na citação acima, os estudos sobre burnout evidenciam que a pessoa afasta-se da realidade, obedece cegamente à burocracia e busca se tornar inconsciente dos seus atos, atitudes, sentimentos, emoções, coisificando-se e desumanizando-se para não sofrer. Acaba por responsabilizar os outros dos males sofridos e enfrentados na profissão, vê tudo que é relacionado ao trabalho como negativo, desiste estando trabalhando; muitas pessoas não sabem que tem essa doença (Codo, 1999; Codo e Vasques-Menezes 2000; Santos, 2004). A educação sofre da banalização do mal? Nesse artigo não temos a pretensão de aprofundar tal questionamento, o paralelo fica como provocações que podem sugerir possíveis estudos comparativos com os estudos de Hannah Arent. No nosso ponto de vista burnout na educação pode representar a banalização do mal. Conforme já refletimos em Passos (2004) burnout pode ser uma oportunidade de revisão de paradigmas individuais e/ou coletivos e para Souki (2007) uma oportunidade de rever nossos pontos de vistas e colocar outros óculos para compreendermos como a banalização do mal age em nosso meio. Sendo assim, voltamos a nossa indagação sobre se é burnout o mal da educação ou é um sinal que os paradigmas educacionais precisarão ser revistos? Segundo a nossa interpretação do texto de Sanford é a pessoa individualmente que consegue a cura para o problema do mal existente em sua vida privado e/ou coletiva. As concepções representadas pelas crenças religiosas sobre o bem e o mal auxiliariam nesse processo de cura individual. Sendo assim basta curar somente o indivíduo que solucionaremos o problema do mal na educação? Onde fica a interdependência das partes e a totalidade do ser? 2. OS REFLEXOS DO MAL NA PESSOA EM BURNOUT Um trabalhador que entra em Burnout assume uma posição de frieza frente a seus clientes, não se deixando envolver com seus problemas e dificuldades. As relações interpessoais são cortadas, como se ele estivesse em contato apenas com objetos, ou seja, a relação torna-se desprovida de calor humano. Isso acrescido de uma grande irritabilidade por parte do profissional, este quadro torna qualquer processo ensino-aprendizagem, que se pretenda efetivo, completamente inviável. Por um lado, o professor [trabalhador/a em educação] tornar-se incapaz do mínimo de empatia necessária para a transmissão do conhecimento e, de outro, ele sofre: ansiedade, melancolia, baixa auto-estima, sentimento de exaustão física e emocional. (Codo; Vasques-Menezes, 2000, p. 31) Como podemos observar, na citação acima, o mal representado no estar em burnout pode prejudicar a qualidade de vida no trabalho. O sentimento de impotência, de culpa, de frustração, de decepção, de desilusão, de perda de sentido de vida leva a um círculo vicioso que se não for diagnosticado e tratado de forma consciente, as pessoas, as escolas e as instituições envolvidas nesse processo podem adoecer, ou melhor, já estão adoecidas, conforme pesquisas já realizadas. Consequentemente pode gerar uma banalização do mal, uma psicopatologia, desperdício de energia humana, de recursos financeiros, violência simbólica e total desumanização nas relações. Observemos os reflexos da citação acima, no quadro das sintomatologias: Quadro 2: Sintomatologias da síndrome de burnout
Fonte: Benevides-Pereira, 2002, p.44. In Barasuol, 2005, p. 54. Essas sintomatologias camuflam a doença da desistência, as pessoas começam a acreditar que estão acometidas de males físicos, passam por diversas especialidades médicas até descobrirem que o que sentem é burnout, o mal que acomete os cuidadores (Santos, 2004;2007; Barasuol, 2005). É evidente e explicito o mal estar, a dor psíquica sentida e vivenciada pelos/as trabalhadores/as em educação, observemos as citações mencionadas nesse artigo sobre burnout. A pessoa ao sentir algo que não sabe identificar ao certo o que tem, ao perceber e vivenciar sentimentos de dualidade, hostilidade, frieza, irritabilidade, intolerância, pessimismo, desmotivação, apatia, em síntese “tudo vai mal”. Como poderá ter qualidade de vida no trabalho? [1] O seminário foi realizado de agosto até dezembro de 2007, a partir de um enfoque multidisplinar, refletimos sobre as diversas interpretações, concepções e representações do mal nas religiões numa perspectiva da antropologia da religião, das literaturas sagradas e da sociologia da religião. [2] Conceito baseado em Berger, 1985. Cont. O mal na educação é a síndrome de burnout?4. ONDE BUSCAR AJUDA PARA O MAL EM BURNOUT? Conforme nossos estudos no mestrado ficaram evidenciados que uma das alternativas buscadas pela pessoa para solucionar ou minimizar o problema do mal vivenciado pode ser na religião. As teodicéias explicativas das religiões, com suas terapias espirituais/religiosas, podem fornecer qualidade de vida através das respostas ou rituais para cura ou libertação dos males enfrentados. Para Weber (1999) o conceito de teodicéia significa uma ação racionalizada, como as respostas das religiões, das suas concepções, das visões e das cosmovisões sobre Deus, pecado, salvação, injustiça, justiça, imperfeição do mundo, sofrimento, dor e morte. “O problema da teodicéia encontrou soluções diversas e estas estão numa relação muito íntima com a formação da concepção de deus e também com a das idéias de pecado e salvação” (Weber, 1999, p. 351). Já para Berger (1985. p. 70-1) Se uma teodicéia responde, de qualquer maneira, a essa indagação de sentido, serve a um objetivo de suma importância para o indivíduo que sofre, mesmo que não envolva uma promessa de que o resultado final dos seus sofrimentos é a felicidade neste mundo ou no outro [...]. Os ‛ganhos’ da teodicéia para a sociedade devem ser entendidos de um modo análogo aos que são proporcionados ao indivíduo. Coletividades inteiras adquirem a possibilidade de integrar eventos anômicos, agudos ou crônicos, no nomos estabelecido na sua sociedade. Sendo assim a religião tem a resposta ao mal, tenha ele, o mal, o nome que tiver. Aquele que crê busca a instituição religiosa ou o espaço sagrado e realiza todos os rituais a fim de encontrar a qualidade de vida almejada. Resumindo a religião ajudou profissionalmente: por ser o local onde houve refazimento, reabastecimento de energia, esclarecimento, conscientização, gerando equilíbrio, paciência, tolerância, compreensão, tranqüilidade, força, aprendizado para conviver com os diferentes, respostas, paz, serenidade, humanização e sentido de vida. Essa experiência religiosa proporcionou às pessoas, que buscaram a terapêutica Espírita, o significado, a motivação, o prazer, os meios e os instrumentos para o enfrentamento dos problemas, sejam eles quais forem em especial no cotidiano profissional (Santos, 2004). 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS Esperamos ter contribuído com as nossas provocações e colocado mais lenha nessa fogueira do problema do mal, a partir do enfoque do burnout na educação. Esse é um debate, concordando com Souki (2007), que é desafiante. A crise da modernidade pode ser exemplificada na metáfora do jardineiro que separa as ervas daninhas das plantas que ele considera mais importante. Tivemos ao longo do processo histórico exemplos de diversas teorias científicas, que fundamentaram essa concepção da jardinagem ao longo do século XIX e XX. As conseqüências dessa teoria jardineira acabaram sendo materializada na prática, no passado, através do Holocausto, do racismo, do Q.I., do modelo educacional e Estatal excludente (Bauman, 1999, p. 9-61). Podemos também analisar essa metáfora do jardineiro, a partir das interpretações e representações simbólicas do mal, a partir do paralelo do caos e da ordem, ocasionado por estar em burnout: O caos, ‘o outro da ordem’ , é pura negatividade. É a negação de tudo o que se empenha em ser. É contra essa negatividade que a positividade da ordem se constitui. Mas a negatividade do caos é um produto da autoconstituição da ordem, seu efeito colateral, seu resíduo e, no entanto, condição ‘sine qua non’ da sua possibilidade (reflexa). Sem a negatividade do caos, não há positividade da ordem; sem o caos, não há ordem. (Bauman, 1999, p. 15) O caos estar em burnout. A ordem pode ser as teodicéias explicativas sobre o problema desse mal. A cura pode ser fornecida pelas terapias espirituais/religiosas como tratamento desse caos. Nas interpretações do problema do mal, no nosso caso estar em burnout, caos e ordem caminham juntas e iluminam a nossa estrada onde flores e ervas daninhas convivem no mesmo espaço. Como disse Passos (2004) “a cura de Burnout, em nós, é a cura da escola; é a cura das relações materiais e sociais de produção...”. Seria a representação simbólica, do caos e da ordem, a biodiversidade na floresta da vida. Sendo assim, as religiões podem trazer sentido e significado de vida no trabalho. As mesmas podem deixar de ser um mercado de ofertas simbólicas, na disputa do cliente para suas terapias espirituais/religiosas (Bourdieu, 2001, p. 34-78). Para se tornarem em alternativas de qualidade de vida no trabalho. A partir da compreensão do Holos = Totalidade do problema do mal, no nosso caso a burnout na educação, conforme citação de Sanford sobre Jung (1988) e Arntz (2007) é romper com o paradigma mecanicista, fragmentalista das especializações e percebermos as interdependências das partes. É permitir emergir, despertar uma nova consciência holística, onde “somos todos um”. Sendo assim as representações simbólicas do mal não será vista de forma fragmentada e nem acusaremos o outro dos males existente em sociedade ou nas culturas ou nas religiões. A interdependência de tudo e de todos os seres vivos existentes no planeta terra, emergirá como uma nova consciência responsável pela qualidade de vida (Arntz, 2007). Poderemos ressignificar nossos modelos e percepções sobre a vida, sobre as religiões, sobre o problema do mal. A ordem estabelecida não será de quem tem mais poder ou ocupa o lugar de destaque em sociedade. A ambivalência do ser retorna à essência divina, o sagrado ganha sentido e significado, consequentemente o local de trabalho, a profissão torna-se prazerosa. Para exemplificarmos essa reflexão, observemos a citação logo abaixo e vamos aprender um pouquinho com o sábio Weber, pois temos que tomar: ‘Cuidado, o diabo é velho; envelhecei também para compreendê-lo’. Isto não significa a idade, no sentido da certidão de nascimento. Significa que se desejarmos haver-nos com esse diabo teremos de não fugir à sua frente, como gostam de fazer tantas pessoas, hoje. Em primeiro lugar, temos de perceber-lhe os processos, para compreender seu poder e suas limitações. A ciência hoje é uma ’vocação’ organizada em disciplinas especiais a serviço do auto-esclarecimento e conhecimento de fatos inter-relacionados... O destino de nossos tempos é caracterizado pela racionalização e intelectualização e, acima de tudo, pelo ‘desencantamento do mundo’. Precisamente os valores últimos e mais sublimes retiraram-se da vida pública, seja para o reino transcendental da vida mística, seja para fraternidade das relações humanas diretas e pessoais. Não é por acaso... (Weber, 1982, p. 179-180;182) Finalizando, a representação do mal está simbolicamente representada em diversas vestimentas que escondem os porquês dos males na educação. Claro que não foi o nosso propósito analisar todos os males educacionais. Mas sim apresentar a você leitor/a outro olhar na perspectiva das ciências da religião. Como vimos nesse artigo às conseqüências da burnout na qualidade de vida no trabalho evidenciam-se ser desastrosas. Os teóricos estudados no seminário interdisciplinar sobre o mal forneceram diversas pistas sobre as interpretações e representações simbólicas do problema do mal conforme o enfoque da antropologia da religião, da literatura sagrada ou da sociologia da religião. Claro que privilegiamos alguns autores para a nossa analise, em detrimentos de outros olhares, e acrescentamos outros que não foram estudados no seminário, mas que consideramos relevantes para a compreensão das provocações expostas nesse artigo. BIBLIOGRAFIA: ARNTZ, William. Quem somos nós? A descoberta das infinitas possibilidades de alterar a realidade diária. Tradução de Doralice Lima. Rio de Janeiro: Prestígio, 2007. BARASUOL, Evandir Bueno. Burnout e docência: sofrimento na inclusão. Três de Maio: Setrem, 2005, p. 41-59. BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e ambivalência. Tradução Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999, p. 9-61. BERGER, Peter. O dossel sagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião. Tradução de José Carlos Barcelos. São Paulo: Paulinas, 1985. BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. 5. ed. São Paulo: Perspectiva, 1998. p. 34-78; 45-57; 69-78. CODO, Wanderley (Coord.). Educação: carinho e trabalho. 3. ed. Petrópolis: Vozes; Brasília: Ed. da UnB, 1999. CODO, Wanderley; VASQUES-MENEZES, Iône. Burnout: sofrimento psíquico dos trabalhadores em educação. São Paulo: Kingraf, out. 2000. (Cadernos de saúde do trabalhador, INST/ CUT-Brasil) CROATTO, José Severino. As linguagens da experiência religiosa: uma introdução à fenomenologia da religião. Tradução de Carlos Maria Vasquez Gutiérrez. São Paulo: Paulinas, 2001, p. 118- 121. JUNG, Carl Gustav. A vida simbólica: escritos diversos. Tradução de Araceli Elman, Edgar Orth. Petrópolis: Vozes, 1997. V. XVIII/1. PASSOS, Luiz Augusto. Retrato bem temperado da cultura escolar brasileira. In: SILVA, Ainda Maria Monteiro; AGUIAR, Márcia Ângela da Silva. Retrato da escola no Brasil. Brasília: ArtGraf, 2004, p. 52-56. SANFORD, John A. Mal, o lado sombrio da realidade. Tradução de Sílvio José Pilon e João Silvério Trevisan. São Paulo: Paulus, 1988, p. 162-194. SANTOS, Genivalda Araujo Cravo dos. 2004. Educação, profissão perigo. Burnout, depressão e o tratamento espiritual no Espiritismo. Mestrado. Dissertação. Goiânia: Universidade Católica de Goiás. SANTOS, Genivalda Araujo Cravo dos Santos. Educação profissão perigo: burnout, depressão e tratamento espiritual no Espiritismo. In: LEMOS, Carolina Teles (org.) Religião e Saúde. Goiânia: Deescubra, 2007, p. 39-69. SOUKI, Nádia. O problema do mal em Hannah Arent. In: II Simpósio Internacional de Teologia e Ciências da Religião. Belo Horizonte: Primacor, 2007, p. 43-60. SCHIAVO, Luigi. O mal e suas representações simbólicas. In: Estudos da religião 19, São Bernardo do campo: UMESP, 2000, p. 65-83. SCHIAVO, Luigi. Como é sentir o calor? A história de Lúcifer que se tornou demônio por causa da mulher. In: Estudos Bíblicos 72, Petrópolis: Vozes, 2001, p. 73-89. WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Tradução de Regis Barbosa e Karen Elsabe Barbosa. Brasília: Ed. da UnB, 1999. p. 3-17;279-320;350-404. (V. I). WEBER, Max. Ensaios de sociologia. Rio de Janeiro: LTC, 1982, p. 97-183. ARTIGO: TECENDO ALGUNS ASPECTOS IDENTITÁRIOS E PSICOLOGICOS DO FUNDAMENTALISMOTECENDO ALGUNS ASPECTOS IDENTITÁRIOS E PSICOLOGICOS DO FUNDAMENTALISMO Genivalda Araujo Cravo dos Santos[1]
Resumo: O objetivo desse artigo é refletir, a partir dos autores aqui citados, alguns aspectos identitários e psicológicos contidos no fundamentalismo. Desta forma citaremos alguns casos exemplos de fundamentalismo religioso e econômico/político. Esperamos tecer algumas características históricas e sociológicas desses aspectos e apontar possíveis correlações entre os diversos tipos de fundamentalismos. Palavras-chave: Fundamentalismo, Aspecto identitários e psicológico, Religião
Definiré el fundamentalismo, según mi proprio entendimento, como la construcción de la identidad colectiva a partir de la identificación de la conducta individual y las instituciones de la sociedad con las normas derivadas de la ley de Dios, interpretada por una autoridad definida que hace de intermediario entre Dios y la humanidade. (CASTELLS, Manoel. La era de la información. Economía, sociedad y cultura. Vol. 2. El poder de la identidad. Madrid: Alianza Editorial, 1998, p. 35)
O objetivo desse artigo é refletir, a partir dos autores aqui citados, alguns aspectos identitários e psicológicos contidos no fundamentalismo. Desta forma citaremos alguns casos exemplos de fundamentalismo religioso e econômico/político. Esperamos tecer algumas características históricas e sociológicas dos aspectos identitários e psicológicos do fundamentalismo. No final do artigo apontaremos algumas provocações, a luz do estudo realizado. Primeiramente vamos compreender a origem da palavra fundamentalismo e logo a seguir vamos tentar realizar um paralelo entre as características do fundamentalismo religioso e fundamentalismo econômico/político. O termo ‘fundamentalismo’ veio à luz num contexto histórico determinado, coincidente com a passagem do século XIX ao XX, quando um grupo de protestantes ultraconservadores, nos EUA, denominou a si mesmo fundamentalista, ao procurar resgatar os significados originais – ou fundamentos – da revelação bíblica. Essa procura exprimia a reação de tal grupo à excessiva secularização da sociedade americana, que produzia a indiferença religiosa ou pelo menos uma interpretação labial, historicizada, do texto sagrado. (Micheloto, 2002, p. 19) Observemos o quadro abaixo:
Fonte: Harbin, 2004, p. 1-19. As características do fundamentalismo, conforme síntese acima, não é só restrito ao caso do fundamentalismo Batista, podemos perceber o paralelo com outros fatos históricos ocorridos no passado, como por exemplo: na época da idade média, dos profetas, dos grandes impérios na antiguidade. A diferença que as lideranças não se auto-denominavam fundamentalistas, conforme período histórico citado por Micheloto. Poderíamos dizer que há vários fundamentalismos. Nesse artigo não vamos analisar tal tese, pois a nossa pergunta principal é: Quais os aspectos identitários e psicológicos no fundamentalismo? Segundo Castells (1998) a construção identitária se dá a partir de três formas originarias: a) identidade legitimadora: introduzida pela instituição dominante da sociedade frente aos atores sociais, teoria da autoridade e da dominação; b) identidade de resistência: gerada pelos atores que se encontram em posições ou situações estigmatizadas pela lógica de dominação, constroem trincheiras de resistências e de sobrevivências baseadas em princípios diferentes das instituições e da sociedade vigente; c) identidade projetada: quando os atores sociais constroem uma nova identidade redefinindo sua posição na sociedade, buscando a transformação de toda a estrutura social. Wasserman (2002) menciona a necessidade que os indivíduos e as coletividades possuem em sentirem-se pertencentes socialmente. Os atores sociais buscam através de experiências reais, significativas e simbólicas esse pertencimento identitário. Pertencer a uma comunidade mais ampla do que a comunidade local tem sido a identidade prioritária nos tempos modernos, mas está longe de ser a única... O sentimento de pertencimento, enquanto universo simbólico, imbricado com as experiências concretas da sociedade e o modo de utilização dos símbolos conformam a memória e o passado como verdades inabaláveis desta sociedade. (WASSERMAN, 2002, p. 94; 95)
Analisando o quadro, anterior, a luz dos autores, citados acima, poderemos verificar que o fundamentalismo religioso está baseado nos três modelos de Castells. Dependendo do contexto histórico, das ações e das atitudes das pessoas, do coletivo ou instituição poderá significar simbolicamente um fundamentalismo de identidade legitimadora, identidade de resistência e/ou identidade projetada. No caso analisado, anteriormente, as lideranças religiosas Batistas dão legitimidade ao comportamento da comunidade e suporte psicológico, através: da volta às tradições religiosas e da doutrina, na fé e verdades absolutas vindas de Deus como orientadoras. Quando há oposições, dúvidas, comportamentos considerados desviantes por eles a justificativa para tais ações e atitudes está nas obras de Satanás e do outro ser um herege. Para os fundamentalistas batistas o livro sagrado, no caso deles a Bíblia, responde e direciona a trajetória das suas vidas. Fornecendo dessa forma o caminho da salvação e um porto seguro diante de tantas imoralidades, transformações que ferem os princípios das suas crenças. Nesse caso a teodicéia fundamentalista responde e preenche os vazios nos seus aspectos psicológicos, fornecendo uma identidade cristã Batista. Poderíamos fazer o mesmo paralelo com outras instituições cristãs, mas esse artigo não se propõe a tal estudo. O nosso objetivo nesse artigo é trazer um caso exemplo de fundamentalismo cristão, assim como os demais casos que estaremos analisando logo abaixo, para irmos tecendo os aspectos identitários e psicológicos do fundamentalismo e percebermos as possíveis correlações entre os diversos fundamentalismos. Como diz Grof: Mestres espirituais de todos os tempos parecem concordar que a busca de objetivos materiais, em si e por si, não pode nos trazer satisfação, felicidade e paz interior. O vertiginoso crescimento da crise global e da deterioração moral e o crescente descontentamento que acompanha o aumento da influência material nas sociedades industriais dão testemunho dessa antiga verdade. Parece haver concordância geral na literatura mística de que o remédio para o mal-estar existencial que assedia a humanidade é voltar-se para seu interior, buscar as respostas em sua própria psique e passar por uma profunda transformação psicoespiritual. (Grof, 2000, p. 321) No caso do fundamentalismo religioso cristão Batista, não há um consenso interno na comunidade, Harbin (2004) cita as incoerências teológicas e históricas. Concluindo o seu artigo, dizendo: O fundamentalismo modificou a aplicação da declaração de fé batista. De um consenso de opinião entre batistas, passou a ser a definição máxima de ortodoxia. As forças definindo fé como proposicional tanto direcionaram o processo de revisão como guiaram a aplicação do documento, transformando-o num credo – um documento autoritário regendo ortodoxia – nas palavras do preâmbulo da revisão de 2000, ‘um instrumento doutrinário a que se presta contas’. Mesmo que os esforços revisionistas não fizeram algumas das modificações maiores que se podia ter esperado da liderança fundamentalista, promulgou a base para enfatizar conformidade doutrinária, um caráter proposicional da fé, um pano de fundo contribuindo para teologia de inerrância, e estrutura autoritária para que a liderança possa ditar o que o indivíduo deve crer.
Como podemos perceber o fundamentalismo aponta a interdependência entre aspectos psicológicos e a construção de identidades individuais, coletivas e institucionais (WASSERMAN, 2002). Mas essa afirmação não é um consenso entre os estudiosos do fundamentalismo, pois para Micheloto (2002) o fundamentalismo é fruto de processo histórico e das suas conseqüências em sociedade: Na realidade, as manifestações históricas do fundamentalismo religioso têm exibido diferenças quanto ao conteúdo ideológico... Temos, portanto, de levar em consideração as condições históricas particulares que envolvem esses fundamentalismos, a fim de traçar análises mais próximas da realidade. (Micheloto, 2002, p. 23-24)
Aqui não vejo contradição, mas olhares que podem indicar complementaridades e não divergências de fundo, apresentando nas entrelinhas aspectos identitários e psicológicos. Sendo assim vamos analisar outro caso, o fundamentalismo judeu. Schlegel (2001) caracteriza o fundamentalismo ultra-ortodoxo dos judeus como uma teocracia, o retorno do poder político dos sacerdotes, conforme seus textos internos. Para o autor são as decepções com a modernidade que geram o retorno ao fundamentalista. Com a modernidade, reino da separação, da especialização, da divisão, ocorreu uma mudança cultural e de mentalidade. Frente a essas transformações os fundamentalistas e integristas judeus denunciam a crise da autonomia. Para os judeus o fracasso da modernidade e causado pela ausência de Deus. Utilizam as tecnologias como forma de divulgação e conversão dos não crentes. As tecnologias são consideradas um instrumento neutro, desde que pratiquem os seus rituais sagrados. No campo político recusam a separação entre Estado e religião. Para os judeus ultra-ortodoxos é a halacá (a Lei ou a Torá em suas inúmeras aplicações concretas), sem que fique muito claro se os ‘religiosos’ preferem um poder exercido pelos religiosos ou um governo de laicos que apliquem a lei religiosa. (SCHLEGEL, 2001, p. 139)
Sendo assim, “minha convicção é que esses movimentos, com sua violência física e verbal, traduzem um profundo mal-estar interno, uma perda de referências internas, uma crise de identidade social”. (SCHLEGEL, 2001, p. 148) Já Neusner (2001, p. 115) afirma que “no sentido estrito, não podemos falar de fundamentalismo no âmbito de nenhum dos judaísmos nem do judaísmo em geral”. Pois a relação entre judaísmo integracionista, que são a maioria dos judeus e detentores do poder político e econômico e o judaísmo segregacionista, minoria que depende financeiramente dos integracionistas. Acaba por criar uma relação de co-dependência econômica entre a minoria e a maioria. Em função disso, para o autor, essa relação impossibilita o avanço do fundamentalismo, pois a co-dependência econômica seria um inibidor. Mas não impediu nesses vinte anos que o judaísmo segregacionista continuasse reunindo-se em comunidades, com peculiaridades diversas. Neusner (2001) apresenta alguns traços comuns em meio à diversidade do judaísmo segregacionistas: todos rejeitam qualquer forma de relação com o mundo exterior; todos têm uma visão exclusiva da verdade; todos rejeitam a idéia de política enquanto prática com objetivos comuns a diversas pessoas, “vêem o mundo do político como um meio de melhorar a sua própria situação ou uma fonte de ameaças para a autonomia e a integridade da comunidade” (Neusner 2001, p. 118). Em nossa opinião há uma contradição nos argumentos do autor. Ao mesmo tempo em que ele diz que a correlação de forças econômicas inibe o avanço do fundamentalismo; ele também fornece características do fundamentalismo segregacionista. Afinal existe ou não fundamentalismo no meio dos judeus? Poderemos dizer que como Karff (2001) a maioria esmagadora dos judeus rejeitam o fundamentalismo e rejeitam o modo de vida segregacionista. Mas mesmo assim a reafirmação das tradições dentro do judaísmo acaba por legitimar ações que demonstram práticas fundamentalistas. Mas não basta apresentar argumentos sólidos e válidos contra as tentativas fundamentalistas de deslegitimação do resto de nós. Nós, judeus não fundamentalistas, também devemos abordar as questões desconcertantes que se colocam em nosso próprio campo e não recuar diante de uma autocrítica construtiva... Se a excessiva rigidez é inimiga da vitalidade e da sobrevivência judaica, devemos concordar que uma atitude flexível de adaptação, que ignore os limites e perca a capacidade de dizer não à cultura ambiente e a nós mesmos, também o é. (KARFF, 2001, p. 122)
A pluralidade religiosa judaica nós diversos países onde se fazem presente acaba por legitimar uma ação voltada para as sinagogas, para as instituições educativas e sociais como forma de integração inter-religiosa e socio-política mais ampla (KARFF, 2001, p. 126). Mesmo com toda essa disposição e sentimento identitário consigo mesmo, com o outro e uma boa relação de convivência com os fundamentalistas judeus, os não fundamentalistas do judaísmo do Norte, americano e Israelense, vêem como desafio essa relação inter-religiosa. Como podemos perceber há indícios de pontos em comum entre o fundamentalismo cristão e judaico, dessa forma temos os fundamentalismos, cada um defendendo a sua identidade, o seu ponto de vista sobre o outro. O sentimento de pertencimento está baseado nas tradições, nas doutrinas, na fé incondicional, na autoridade da liderança, nos livros sagrados como verdade de fé e revelação da palavra do Deus de cada fundamentalista religioso ou econômico/político. Tudo colabora na formação das características psicológicas do ser fundamentalista. O apelo a violência, seja ela física, simbólica ou psicológica, justifica-se para aqueles que são fundamentalistas. Pois o outro é o inimigo, seria a representação de Satã, do mal social. O dialogo inter-religioso poderia ser ameaçado caso a maioria dos líderes religiosos fossem fundamentalistas e encastelados em suas verdades sagradas. Sendo assim observemos a citação logo abaixo: Manuel Castells defende ponto de vista muito próximo desse, ao afirmar que a contrapartida de uma globalização desigual quanto aos seus efeitos é o encastelamento de determinados grupos locais, regionais e até nacionais, a partir de posições sectárias ou fundamentalistas. Há, segundo esse autor, um traço comum entre os distintos grupos e movimentos fundamentalistas que grassam no ex-Terceiro Mundo (a exemplo do fundamentalismo islâmico, o Sendero Luminoso e os khmers vermelhos de Pol Pot, sendo o primeiro de base especificamente religiosa): esse traço comum seria a ‘oposição global e não negociável a um modelo de desenvolvimento que ameaça dissolver as identidades culturais pre-existentes’. (Micheloto, 2002, p. 20) A partir dessa citação vamos tentar compreender um pouco sobre o fundamentalismo econômico/político e realizar uma correção com o fundamentalismo religioso. No artigo “Mudanças na Declaração de Helsinki: fundamentalismo econômico, imperialismo ético e controle social” de Garrafa e Prado (2001) exemplifica como pode ocorrer o fundamentalismo econômico/político e científico através do descumprimento de acordos e normas internacionais, no que diz respeito à metodologia de pesquisa com seres humanos. O presente trabalho consiste em uma reflexão crítica sobre as tentativas de alterações na Declaração de Helsinki, entendida como um dos documentos que representam as teses democráticas vencedoras da segunda metade do século passado, portanto, patrimônio da humanidade, pelo seu valor de referência como diretrizes éticas a serem observadas em pesquisa envolvendo seres humanos... Este estudo analisa fatos atuais relacionados com pesquisas com sujeitos humanos, desenvolvidas em países chamados ‘periféricos’ ou ‘em desenvolvimento’. E, também, faz uma interpretação sócio-política da questão, em que se evidencia que o fundamentalismo econômico por parte dos países ricos resulta em um inevitável imperialismo ético, expondo ainda mais as comunidades dos países pobres à vulnerabilidade, discriminação e exclusão social. (Garrafa; Prado, 2001, p. 1489)
Para os autores o poder econômico dos laboratórios de medicamentos e os interesses dos países mais ricos acabam por influenciar alguns cientistas e políticos no que diz respeito à metodologia de pesquisa com determinados grupos humanos. A justificativa é o bem das invenções científicas e o beneficio a toda humanidade, mesmo com o sacrifício de alguns. A ética científica fica relegada aos resultados e aos lucros de laboratórios e pessoas interessadas. Os autores mencionam, no artigo, as estratégias de poder utilizadas para modificar normas e convenções internacionais a fim de facilitar os procedimentos éticos de pesquisa de campo com humanos no mundo. Acabam por denunciar perseguições, manobras, conflitos éticos e de poder e os fundamentalismos em nome da ciência e do poder econômico. Qual o paralelo entre as reflexões sobre fundamentalismo econômico e o fundamentalismo religioso? Percebemos alguns pontos em comum entre ambos os fundamentalismos: 1º uma maioria defendendo os interesses da humanidade e uma minoria defendendo os interesses econômicos e políticos; assim como no caso dos batistas fundamentalistas que modificaram o documento teológico da declaração de fé Batista de 2000, os fundamentalistas econômicos conseguiram tecer modificações que podem comprometer a ética científica com humanos; 2º os argumentos dos que defendem a tese ‘da urgência’, a fim de salvar vidas ferindo as exigências éticas, são parecidas com a tese dos fundamentalistas em defesa das tradições como salvadora da maioria diante do demônio da modernidade e da imoralidade; 3º a doutrina “tudo em nome da ciência ou do poder econômico” , não difere de “tudo em nome de Deus ou de Jesus Cristo”. Esperamos que esses três argumentos suscitem o debate e estudos comparativos sobre os fundamentalismos. Vamos analisar outro caso, relacionando fundamentalismo religioso com violência política. Micheloto (2002) no seu artigo “Fundamentalismo religioso e violência política: ensaio sobre possíveis relações”, aborda brilhantemente o contexto histórico do fundamentalismo, os desdobramentos com a modernidade, analisando o caso exemplo dos mulçumanos iranianos e a violência política. O autor conceitualiza religião conforme Weber e Bourdieu “pois a religião em geral e as religiões particulares que conhecemos são nada menos e nada mais que produções simbólicas” (Micheloto, 2002, p. 18). Defendeu a tese, no artigo, que não é o fundamentalismo que gera a violência, como no Islamismo – os homens bombas – mas a ação consciente política de líderes que utilizam da religião para legitimar as suas ações contra o ocidente e a modernidade. Menciona que não há um tipo de fundamentalismo, mas vários fundamentalismos, que não são herança da transição entre o século XIX e XX, quando protestantes nos EUA se autodenominaram fundamentalistas, a fim de defender a bíblia, seus princípios e valores. Esclarece que na história da humanidade ocorreram diversos casos de fundamentalismo cita o exemplo dos profetas na antiguidade. É provável que o fundamentalismo ou os fundamentalismos, como formas simbólicas e comportamentos individuais e coletivos determinados, tenham se manifestado em diferentes conjuntos históricos, inclusive anteriormente àquela inicialmente citada... Dentre as várias manifestações de fundamentalismo, religiosos e outros, é o fundamentalismo islâmico o que tem alcançado maior notoriedade nos últimos tempos, graças aos eventos americanos e à atuação da mídia, principalmente devido ao poder amplificador desta junto à opinião pública. (Micheloto, 2002, p. 20;24)
No artigo o autor vai descontextualizando historicamente a associação entre fanatismo religioso e fundamentalismo como algo intrínseco dos mulçumanos. Esclarece que há uma falsa interpretação da cultura-religiosa dos mulçumanos, nos seus termos simbólicos religiosos e apropriação por parte de alguns líderes para interesses políticos. Daí o argumento do autor de fundamentalismo político violento. São as situações de destradicionalização agressiva que predispõem à emergência de fundamentalismo... destrói as comunidades locais, as bases econômicas, políticas e culturais em que se assentam, sem, contudo, garantir a essas populações o acesso senão fragmentado à modernidade... Ao passar, a modernidade de tipo ocidental danifica muitas identidades, individuais e grupais, predispondo-as, frequentemente, senão à revolta pelo menos a um estado de crise permanente. São esses estados de rebelião ou de crise que podem ser catalizados por certas religiões ou certas lideranças religiosas, nascendo daí os fundamentalismos, violentos ou não. (Micheloto, 2002, p. 28-29)
Nesse caso, Micheloto (2002), menciona o fundamentalismo de resistência, onde envolveu violência, como no caso de Canudos através do seu líder Antonio Conselheiro. As pessoas lideradas por Antonio Conselheiro, na guerra de Canudos, lutavam em defesa da sua identidade grupal, espaço geopolítico e qualidade de vida adquirida e não contra a modernidade. Discorda que o fundamentalismo de agora seja o mesmo do passado, menciona que esses elementos diferenciadores são conseqüência da globalização e dos seus desdobramentos. Nos aspectos identitários o autor concorda com Castelli que considera o modelo de fundamentalismo existente hoje, como resistências ou afirmações de identidade grupal ou individual girando em torno de um líder individual, mas carismático que representa a oferta do mercado simbólico Para Micheloto (2002) a falta de utopias leva as pessoas para as religiões e isso não significa que todos os fundamentalismos sejam violentos ou contra o outro de forma satanizadora e endemoniadora. Mas fruto da desterritorização, da falta de identidade individual ou grupal e das perdas de referencias. Para o autor não são apenas os aspectos psicológicos que explicam o fundamentalismo atual e sim o contexto histórico, as conseqüências da globalização, as atitudes e ações derivadas dessa modernidade expropriadora, deslegitimadora dos valores humanos e consequentemente desumanizadora. Como já mencionamos, anteriormente, essas reflexões são complementares e não contraditórias para tecermos possíveis indícios dos aspectos psicológicos, dos indivíduos e dos grupos sociais, nos aspectos identitários do fundamentalismo. O fundamentalismo pode ser considerado ambivalente? “A oposição nascida do horror à ambigüidade, torna-se a principal fonte de ambivalência” (Bauman, 1999, p. 70). Fazendo um paralelo com Bauman (1999, p. 9-84) podemos tecer alguns fios sobre a formação e a construção nos aspectos identitários e psicológicos do fundamentalismo. Utilizando, como por exemplo, a teoria do estranho, do Outro, do estigmatizado, da ambivalência da linguagem: relação amigo/inimigo. As definições desumanizadoras do inimigo não são novas na história do homem e de modo algum um aspecto peculiar da idade moderna... A defesa do próprio direito de viver requer uma negação desse direito ao outro. Em tal configuração, o Outro não precisa - ou assim parece – ser definido. O Outro define-se – como inimigo – quando lança o respeito alheio por sua identidade moral em conflito com a proteção da identidade alheia. Só se pode desprezar o fato de que ele é ‘um inimigo’ com risco para si. (Bauman, 1999, p. 54)
O autor vai desvelando, no seu estudo, o que está por traz do grito fundamentalista: a defesa da sua identidade e a resistência ao Estado-moderno-liberal que busca enquadrar a todos. Existem amigos e inimigos. E existem ‘estranhos’. Amigos e inimigos colocam-se em oposição uns aos outros. Os primeiros são o que os segundos não são e vice-versa... Está é uma variação da oposição-chave entre interior e exterior. O exterior é negatividade para a positividade interior. O exterior é o que o interior não é. Os inimigos são a negatividade da positividade dos amigos. Os inimigos são o que os amigos não são. Os inimigos são amigos falhados; eles são a ‘selvageria’ que viola a ‘domesticidade’ dos amigos, a ‘ausência’ que é uma negação da ‘presença’ dos amigos... Só cristalizando e solidificando o que eles não são (ou o que eles não querem ser ou o que não diriam que sejam) na contra-imagem dos inimigos é que os amigos podem afirmar o que são, o que querem ser e o que querem que se pense que são. (Bauman, 1999, p. 62)
Esperamos ter tecido alguns aspectos identitários e psicológicos do fundamentalismo ou dos fundamentalismos. Nesse artigo não nos debruçamos no conceito de identidade e nem na formação e nas concepções de aspectos psicológicos. Os autores escolhidos aqui neste artigo foram oportunidades de dialogo conceitual e teórico sobre o fundamentalismo. Pensava em fazer um estudo antropológico e me vi numa reflexão sociológica e histórica do fundamentalismo. Trilhar esse caminho não foi algo fácil! Mas fizemos algumas descobertas, algumas provocações ou somente problematizamos, a partir do estudo realizado nesse artigo, logo abaixo um resumo dessas reflexões: 1. O fundamentalismo e as suas características não se resumem somente a aspectos religiosos, podemos tecer uma interface com a economia, a política, cultura, produção científica, dentre outros. Os fundamentalismos, se assim quisermos mencionar, não se resumem somente a um período histórico, a partir das idéias aqui mencionadas, poderemos utilizar da imaginação histórica e ir contextualizando outras experiências fundamentalistas e poderemos verificar que ele está mais vivo do que nunca. 2. Poderemos classificar o fundamentalismo em vários tipos, conforme os autores citados no artigo, as imagens que temos dos homens-bombas, da violência contra o ocidente e a modernidade camuflam as resistências contra um modelo - econômico, político, cultural - falido que atravessa uma das maiores crises de existência e essas ações são, também, denuncias das contradições do capitalismo. 3. Percebemos, nas leituras, que existem pesquisadores éticos, pessoas de coragem e ousadas que denunciam a farsa das palavras ambivalentes que escondem o desejo do poder acima de tudo e em nome de Deus. Vimos que por detrás de um projeto fundamentalista está interesses que defendem uma verdade absoluta, em detrimento do respeito e da tolerância a diversidade, a pluralidade e ao dialogo inter-religioso/econômico/político/cultural. 4. Por detrás de qualquer tipo que seja de fundamentalismo está à busca de uma referencia de identidade individual, grupal e/ou institucional. Está o desejo de acalmar a consciência, as emoções, retirar a insegurança, as incertezas, sair do caos da angústia, da frustração, das decepções. A busca de um porto seguro, de um sentido de vida e de se salvar. Construindo a partir dessa experiência identidades legitimadoras, identidade de resistência e/ou identidade projetada. 5. O fundamentalismo denuncia as ambivalências da modernidade, da globalização, das incertezas e crises existências, individual, grupal e/ou institucional. Um novo está sendo tecido, não sabemos ainda o que será ou como será! Será que realmente está ressurgindo um novo? Que novo? Será que os fundamentalistas vão convencer a maioria que eles estão com a razão e nós é que estamos errados? Poderemos estabelecer na sociedade mundial um dialogo inter - religioso, político, econômico, cultural de forma respeitável e solidária? Até quando ficaremos nesse jogo de cão e gato: “Eu tenho a verdade e eu represento Deus; o meu livro sagrado disse... Vocês são...”? Encerramos esse artigo com essas reflexões e provocações. Esperamos ter contribuído de alguma forma com os estudos sobre o fundamentalismo. Tal assunto é ao mesmo tempo atual e tão antigo na história da humanidade no que diz respeito aos seus reflexos negativos, positivos e/ou neutro.
Bibliografia BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e ambivalência. Tradução Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999, p. 9-61; 62-84. CASTELLS, Manoel. La era de la información. Economía, sociedad y cultura. Vol. 2. El poder de la identidad. Madrid: Alianza Editorial, 1998, p. 28-49. HARBIN, Christopher B. O impacto do Fundamentalismo na Revisão Teológica da Declaração de fé Batista de 2000. Aula Inaugural 25º Aniversário do Seminário Teológico Batista do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Copyright, 2004, p. 1-19. Site www.rocksbc.org/sermons/pdf/Impacto_Fundamentalista.pdf. Consulta 21/01/2008. WASSERMAN, Claudia. Problemas teóricos que envolvem a questão da identidade coletiva e a formação de novas identidades. In: Semina: Ciências Humanas e Sociais, Londrina, v. 23, set. 2002, p. 93-100. GARRAFA, Volnei; PRADO, Mauro Machado do. Mudanças na Declaração de Helsinki: fundamentalismo econômico, imperialismo ético e controle social. In: Caderno Saúde Pública. Rio de Janeiro, v. 17 n. 6, nov./dez., 2001, p. 1489-1496. Site http://www.scielosp.org/pdf/csp/v17n6/6975.pdf. Consulta 21/01/2008. GROF, Stanislav, Psicologia do futuro: lições das pesquisas modernas da consciência. Tradução de Jussara de Avellar Serpa. Niterói: Heresis, 2000, p. 317-344. MICHELOTO, Antonio Ricardo. Fundamentalismo religioso e violência política: ensaio sobre possíveis relações. In: Revista Múltipla, Brasília, v. 7 n. 12, jun. 2002, p. 17-36. Site http://www.upis.br/revistamultipla/multipla12.pdf#page=17. Consulta 21/01/2008. NEUSNER, Jacob; KARFF, Samuel. O fundamentalismo judeu. In: FUNDAMENTALISMO, INTEGRISMOS: uma ameaça aos direitos humanos – ACAT. São Paulo: Paulinas, 2001, p. 113-128. SCHLEGEL, Jean-Louis. Fundamentalistas e integristas ante a modernidade. In: FUNDAMENTALISMO, INTEGRISMOS: uma ameaça aos direitos humanos – ACAT. São Paulo: Paulinas, 2001, p. 129-149. [1] Doutoranda e Mestre em Ciências da Religião UCG/GO; professora da Educação básica SEE/GO e SME-Goiânia. A SAÚDE DOS /AS TRABALHADORES EM EDUCAÇÃO
A SAÚDE DO/A TRABALHADOR/A EM EDUCAÇÃO
Doutoranda e Mestre em Ciências da Religião Genivalda Araujo Cravo dos Santos (UCG/SEE/SME) genivaldacravo@ig.com.br
RESUMO: O objetivo deste artigo é refletir sobre o adoecimento das trabalhadoras em educação da rede pública , em especial quando acometidas com a síndrome de Burnout, depressão, distúrbios vocais e o tratamento espiritual no espiritismo. A nossa metodologia científica foi desenvolvida com base em um olhar holístico, fenomenológico e qualitativo e constatamos que a educação é uma profissão perigo. Através do olhar das entrevistadas, dos pesquisadores e do espiritismo concluímos que a religião, na busca das pessoas pela saúde, desempenha o papel de proporcionar conforto, respostas aos porquês das doenças; e que as trabalhadoras em educação buscam, no espiritismo, o tratamento espiritual das doenças pela crença no restabelecimento da vida simbólica e da nomia por meio da teodicéia explicativa oferecida por esta expressão religiosa. Palavras-chaves: Educação, Saúde e Religião Pesquisas desenvolvidas no final da década de 1990 pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), em parceria com o Laboratório de Psicologia e Trabalho da Universidade Federal de Brasília (LPT/UnB), sobre o impacto da profissão na saúde mental das trabalhadoras em educação diagnosticaram o alto índice da síndrome de burnout. Para Codo (1999), esse quadro indica um grave problema, o qual poderá levar à falência da educação. Esta doença, que afeta a saúde mental da trabalhadora em educação, forma um quadro de desalento, desmotivação, apatia, perda de energia, desistência e isolamento da sociedade, podendo culminar na depressão, exigindo tratamentos psiquiátricos, psicológicos e, até mesmo, licenças para tratamento de saúde. Levantamento realizado no Programa de Saúde no Serviço Público do Estado de Goiás constatou um aumento de licenças para tratamento de saúde por transtornos mentais no ano de 1999, com um total de 2.163 pessoas; no ano de 2000, um total de 2.496 pessoas; em 2001, 3.686 pessoas; no primeiro semestre de 2002, 3.001 pessoas. A maioria dessas licenças é concedida às trabalhadoras em educação. Na rede municipal de educação de Goiânia, o número de licenças médicas das trabalhadoras em educação para tratamento de saúde por transtornos mentais de setembro a dezembro de 2002 foi de 170 e de janeiro a abril de 2003, foi de 120. Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) indicam que, em 1999, 330 milhões de pessoas no mundo sofreram de depressão, conforme Pasquali e Tracco (2003, p. 12-4): “de cada 20 pessoas, três vão ter pelo menos um surto depressivo na vida [...] só no Brasil serão mais de 10 milhões de vítimas do mal”. Em Goiás, há pouca notificação de problemas vocais relacionadas ao trabalho na Educação. Em 2002, foram relacionados 123 professores que solicitaram licenças e/ou readaptação de função por motivo de nosologia relacionada ao uso excessivo de voz. Durante a realização de exames admissionais para o cargo de professor do Estado, em 2004, foram detectadas anomalias nas pregas vocais em 58 deles (GESEG, 2005). No Brasil, os prejuízos, apenas em termos de professores afastados, advindos das enfermidades vocais relacionadas ao trabalho, representam mais de duzentos milhões de reais (CNVP, 2004). As condições de trabalho docente, dado à sua precariedade, são vistas como verdadeiras fontes geradoras dos distúrbios vocais e do estresse, podendo-se estabelecer uma relação entre os mesmos e as condições efetivas de trabalho nessa categoria.
ALGUMAS FUNÇÕES, PAPÉIS, RESPONSABILIDADES E PERFIS PROFISSIONAIS DAS TRABALHADORAS EM EDUCAÇÃO A pessoa que trabalha na educação geralmente tem família, filhos, e, para sobreviver, tem, muitas vezes, tripla jornada de trabalho, com uma média de 35 a 40 alunos por turma, ou até mais. Além disso, ela precisa estar atualizada diante das mudanças que ocorrem no mundo do trabalho, da educação, da sua cidade, do estado e do país; precisa lutar por carreira, salário, valorização profissional e direitos trabalhistas. [...] Não é fácil você estar lidando com vidas e vidas e vidas futuro, e imagine você ficar de manhã, a tarde e a noite porque se você for observar a estatística, a maioria dos professores precisam, não é porque eles querem para fazer bonito [...] não, eles precisam para poder sobreviver, viver um pouco com dignidade. [...] para tentar melhorar o nosso salário, a nossa casa [...] (Catarina). O depoimento anterior e o seguinte complementam-se e esclarecem, também, o papel, as responsabilidades e a função que o educador exerce na sua profissão, que ocasionam até o desejo de desistir da educação em função das exigências, cobranças e mal-estares vivenciados no cotidiano do trabalho: Cada dia que passa está cada vez mais difícil de trabalhar com a educação. Eu já tentei sair da educação por três vezes e não consegui. [...] O atual contexto que eu estou em sala de aula 35 alunos, alunos difíceis de convivência, alunos sem limites, que a família nunca consegue por limite [...]. Tenho 05 turmas no Estado e 02 turmas no município [...] (Suelen). Enfim, as trabalhadoras em educação desempenham múltiplas responsabilidades no cotidiano da escola, por exemplo planejamento escolar e elaboração do Projeto Político Pedagógico (PPP), algumas participam do Conselho Escolar, outras cuidam do espaço físico, dos multimeios didáticos, da segurança dos estudantes, da alimentação, da infra-estrutura escolar, acrescentando, ainda, na sua rotina, as funções que envolvem outras tarefas, como Programa de Desenvolvimento Escolar (PDE), Programas de Formação Continuada e de avaliação escolar. Segundo Rodrigues et alii (2003, p. 72), “todo esse processo de envolvimento nas discussões e na tomada de decisões no âmbito educacional gera uma sobrecarga de atividades”. O depoimento da entrevistada logo a seguir irá esclarecer e contextualizar a afirmação de Rodrigues et alii (2003): Eu convivo diariamente com 1.200 pessoas, são 1.200 alunos nessa escola, sem contar com pais ou os responsáveis, [...] além dos funcionários. É essa profissão que você acaba sendo o professor, o educador, um pouco mãe, um pouco amigo. Então sempre os problemas vêm pra cima da gente. [...] Fora o papel do que dizem que é minha obrigação eu tenho que cumprir 10 horas, 10 tempos na escola então se são 05 dias eu teria que cumprir 02 períodos, no entanto não é esse tempo que a escola necessita e também dentro do que eu tenho condição física de fazer. Então eu acho que o gestor [diretor] ele tem que estar integrado em tudo, pedagógico e administrativo, então desde uma coisa que estraga, desde o planejamento que vai fazer com a verba que vem pra escola, de estar promovendo conciliação entre as pessoas; porque no trabalho eu tenho 30 pessoas por turno, 30 funcionários por turno e as divergências tem que ser conciliadas é um papel imprescindível para o gestor. O pedagógico é minha paixão. Então [...] eu faço questão de acompanhar, eu sei de todos os projetos que estão sendo trabalhados, eu sei o que cada professor está fazendo nas 35 turmas nos três horários no ciclo 02, no ciclo 03, no EAJA de 1° a 4° e de 5° a 8°, eu acompanho tudo [...] (Antonia). Considerando-se tudo isso, será que sobra tempo e dinheiro para estes educadores dedicarem-se à leitura, ao lazer, à diversão e, ainda, adquirirem bens de consumo essenciais na profissão deles, como o computador, a impressora e garantir o acesso à internet em casa? A trabalhadora em educação ainda é cobrada, avaliada pelo sistema e, até, se auto-avalia, e muitas vezes, se culpa pelos problemas enfrentados no local de trabalho. Eu sentia é que agente tava passando na educação por um processo de mudança, era a implantação do ciclo, [a entrevistada está relatando sua experiência quando entrou na rede em 1999] na época eu [...] tinha uma grande responsabilidade porque eu sabia que os professores da aceleração, eles querendo ou não, eles funcionavam como protótipo da rede como modelo e o ciclo foi implantado de uma forma que agente não tinha preparação não teve esse respaldo da secretaria então você lidava com crianças com distúrbio de comportamento e não tinha uma equipe, como foi proposto uma equipe multidisciplinar (Maria José). Em alguns momentos, as educadoras são responsabilizadas pelo fracasso escolar e pela falta de consciência cidadã dos estudantes, dos pais, das mães e da sociedade (Ceccon et alii, 1998). Essas trabalhadoras em educação assumem funções no trabalho cotidiano com os estudantes que não seriam sua atribuição, como a de psicólogo, psiquiatra, fonoaudiólogo, enfermeiro, assistente social, policial, pai, mãe, avôs e religiosos; em alguns momentos, isso acontece até entre os próprios colegas de trabalho. As pessoas nos procuram pra desabafar, pra pedir conselhos e isso é uma sobrecarga muito grande de energias, são muitas energias negativas [...] Agente vive numa comunidade onde predomina o desemprego, baixa renda e violência. Estou convivendo diariamente, no meu caso na direção, são todos os dias praticamente 12 horas por dia com todos esses problemas: com crianças abusadas sexualmente, com violência contra a mulher, roubo e drogas. Isso é constante na nossa vida, nos educadores que trabalhamos no ensino público, estamos na periferia onde esses problemas aparecem; eu já trabalhei na rede privada e esses problemas existiam mais eles são mais camuflados. Aqui a pessoa não tem psicólogo, não tem acesso a um advogado então agente acaba aconselhando o direito deles, também, [...] nos procuram enfim pra vários motivos e isso vai nos gerando uma sobrecarga de energias [...] (Antonia). Como podemos perceber pelos depoimentos, o trabalho da professora e da funcionária administrativa não se resume só nas competências estabelecidas nas leis educacionais, nos regimentos ou nos editais de concurso público. Em alguns casos, extrapola, como evidenciado nos depoimentos, o local de trabalho, envolvendo não só os conhecimentos aprendidos, mas também os seus sentimentos, afetos, experiências, vivências e as relações extra-muro do local de trabalho. O perfil pessoal das entrevistadas, na sua maioria, evidencia uma situação onde o retrato esboça um grupo de mulheres educadoras na faixa etária entre trinta e cinqüenta anos convivendo no mesmo ambiente de trabalho, algumas casadas, umas solteiras e outras separadas e, em sua maioria, com um a três filhos(as), tendo de administrar trabalho, família e educação dos(as filhos(as); autodenominam-se de diferentes cores, algumas, possivelmente, poderão não ter consciência de que são afro-descendentes, já que 32% se consideram pardas. Sendo que o perfil profissional das entrevistadas, percebemos uma realidade que evidencia sobrecarga de trabalho e de atividades; uma profissão que exige qualificação, atualização e formação continuada; um relacionamento constante com outras pessoas, sejam os estudantes – que têm as suas individualidades, diferenças e exigências de aprendizado, comportamento e de carinho – ou os colegas de trabalho – alguns (27%) com um tempo de trabalho entre dez anos, uns (35%), entre dez e vinte anos, e outros (38%), entre vinte e trinta anos; um convívio permanente com pessoas de idades, personalidades, formação, experiências e vivências diferentes, conseqüentemente, essa profissão exige também paciência, tolerância, civilidade e afetividade.
ANATOMIA DE UM TRABALHO PENOSO E AS SUAS CONSEQÜÊNCIAS NA SAÚDE DAS TRABALHADORAS EM EDUCAÇÃO Com base nas reflexões expostas anteriormente, vamos apresentar nos parágrafos subseqüentes as conseqüências desta profissão na saúde. Observemos o Quadro 1: Quadro 1: Anatomia de um Trabalho Penoso
Fonte: Vieira (2003, p. 26). Verificamos que essa anatomia de um trabalho penoso apareceu nos resultados da pesquisa de campo da dissertação. As condições de trabalho docente, dado à sua precariedade, são vistas como verdadeiras fontes geradoras dos distúrbios vocais e do estresse, podendo-se estabelecer uma relação entre os mesmos e as condições efetivas de trabalho dessa categoria profissional. Das pessoas entrevistadas, 26% solicitou afastamento do trabalho e 66% faltou ao trabalho por diversos motivos. Verificamos que o número de trabalhadoras que solicitaram licenças médicas por causa de depressão não corresponde ao número das pessoas que responderam terem tido essa doença (59%). As faltas ao trabalho poderão estar camuflando estresse, burnout ou outras doenças conseqüência da profissão laboral. Segundo as pessoas entrevistadas, elas faltaram ao trabalho por diversos motivos, desde problemas familiares e pessoais, doenças na família e com a própria pessoa, a participação em eventos, entre outros motivos. Não temos como saber quantas faltas as pessoas tiveram num semestre ou num ano, pois não foi esse o objeto de nossa pesquisa, mas seria um dado interessante para cruzarmos com os dados sobre o nível de burnout e depressão. Foram evidenciados na pesquisa de campo, também, vários sintomas que representam sinais de estresse e intolerância que poderão levar uma pessoa a adoecer, trazendo como conseqüências problemas físicos, mentais ou emocionais (Limongi França; Rodrigues, 2002). Eu fiquei encabulada quando eu fui ao psicólogo e ao psiquiatra em janeiro [2004], eu falei para ele, que lá parecia uma subsecretária, parecia um órgão da secretaria municipal de educação, de tantos colegas que eu encontrei fazendo consulta e tratando de depressão. Na escola no dia a dia estou vendo isso por causa da sobrecarga de dois, três turnos de trabalho lidando diariamente com tanta gente sofrida (Antonia). Esse quadro dos sintomas apresentados é preocupante, pois, como verificamos anteriormente, as funções, os papéis e as responsabilidades na educação são complexas, exigem atributos, habilidades, competências e conhecimentos que, na maioria das vezes, devem ser dosados com muita paciência, tolerância e afetividade. Estava muito estressada, esgotada e coincidiu de anunciar o Programa de Demissão Voluntária e, muito cansada, com filho pequeno, problemas domésticos, resolvi entrar na demissão. Fiz um balanço do que poderia perder e poderia ganhar e optei pelo filho e pela casa. Ficar em casa um período [no outro, trabalha na rede municipal], cuidando dos meus afazeres de mãe e de dona de casa (Barros, 2002, p. 88). Desse mesmo mal-estar, as funcionárias administrativas são também acometidas: há os que têm um nível de escolaridade mais alto, reclamando, e com razão, de que seu trabalho é rotineiro, sem verem aproveitadas suas potencialidades; há os que se encontram com nível de escolaridade compatível com a função, mas sentem o tempo todo que precisam de mais, pois participam da educação e recebem condições de trabalho compatíveis apenas com lavar alfaces (Codo; Soratto, 1999, p. 367). Tanto professoras como funcionárias administrativas sofrem do mal-estar profissional, que sempre refletirá no desempenho do seu trabalho e nas relações sociais. Se formos considerar as diferenças das complexidades exigidas de cada função, afirmaríamos, precipitadamente, que a professora está mais suscetível ao adoecimento. Essa afirmação carece de um estudo científico para corroborar tal hipótese. Por exemplo, se a professora ficar doente e precisar de faltar ao serviço ou pegar licença para tratamento de saúde será contratada uma substituta, ao passo que a funcionária não tem tal benefício, outra colega da escola ficará sobrecarregada. Essa realidade traz, provavelmente, conseqüências para a saúde das pessoas, para o seu trabalho profissional, para sua relação com os estudantes e com a sociedade. Analisemos com atenção o seguinte depoimento: Vários colegas eu já encontrei [adoecidos] [...]. Também aqui na escola, eu cheguei na sala dos professores, tinha uma professora deitada no chão na hora do intervalo, aquilo pra mim... Aquela cena não saiu da minha cabeça, um absurdo, fui conversando com ela e percebi a depressão que ela tava vivendo. Ela chegou a me pedir [diretora] me devolve pra secretaria faz qualquer coisa pelo amor de Deus, mas eu não consigo entrar mais na sala de aula. Então ela e os outros colegas eu indiquei que procurasse um médico, um tratamento [...] isso é constante na nossa profissão (Antonia). Verificamos, na pesquisa, que a maioria das pessoas entrevistadas (80%) não sabe o que é síndrome de burnout, somente 18% diz conhecer essa doença. Com relação à questão ‘você já teve essa doença’, ficou evidenciado o total desconhecimento por parte das pessoas entrevistadas, a maioria respondeu “não” e “não sei”, outras, num total de 87%, não a responderam. Foram poucas as pessoas que, no momento de responder, confirmavam com convicção – por conhecer a doença – que não tiveram tal acometimento. Apenas 13% afirmaram ter a doença. Com relação à depressão, 59% das pessoas entrevistadas consideraram que tiveram ou têm depressão e 39%, que não têm a doença, sendo que, das que tem depressão, 84% buscou ajuda em tratamento espírita; 78%, na religião, das quais 43%, no espiritismo; 8%, no catolicismo e espiritismo; 8%, na religião evangélica e espiritismo, e 3%, na Seicho-Noie; 70%, em livros de auto-ajuda; 54%, nos psicólogos e em remédios; 49%, sozinha e 41%, nos psiquiatras. Segundo as pessoas entrevistadas, 38% tiveram ou têm depressão há mais de um ano; 19%, há alguns dias; 16%, há mais de três meses; 8%, há duas semanas; 8%, há três ou cinco semanas; 5%, há dois meses e 3%, há uma semana. Valendo-nos dessas respostas, podemos verificar a confusão presente com relação ao que sejam os sintomas que evidenciam depressão, estresse, síndrome de burnout ou, possivelmente, outro tipo de doença. Estudiosos de diferentes culturas dão diferentes definições à saúde mental. Os conceitos de saúde mental abrangem, entre outras coisas, o bem-estar subjetivo, a auto-eficácia percebida, a autonomia, a competência, a dependência intergeracional e a auto-realização do potencial intelectual e emocional da pessoa. Por uma perspectiva transcultural, é quase impossível definir saúde mental de uma forma completa. De modo geral, porém, concorda-se quanto ao fato de que saúde mental é algo mais do que a ausência de transtornos mentais (OMS, 2001, p. 29). Se saúde mental é “algo mais do que a ausência de transtornos mentais”, então, a anatomia de um trabalho penoso (Quadro 1) pode demonstrar que a educação está adoecida. Durante a coleta de dados nos órgãos responsáveis pelas licenças médicas, algumas pessoas demonstraram preconceito, deboche, casos como piadas e brincadeiras. Utilizaram expressões do tipo “é malandragem das pessoas; só querem ficar em casa; fulano já teve aqui não sei quantas vezes; os psiquiatras só dão licença, é um estressinho e querem licença”. Algumas depoentes relataram casos, tanto no plano de saúde do estado como no município de Goiânia, de serem desacatadas, desrespeitadas e tratadas como se fossem objetos e não seres humanos que estiveram ou estão doente.
O QUE É SÍNDROME DE BURNOUT, SINTOMAS E CONSEQÜÊNCIAS Não existe uma definição única na literatura internacional para a síndrome de burnout, há um consenso de que essa doença “seria uma resposta ao stress laboral crônico, não devendo contudo ser confundido com stress” (Codo; Vasques-Menezes, 2002, p. 240), seria uma doença profissional, pesquisada pioneiramente desde 1970 por Cristina Maslach, psicóloga social, e Herbert J. Freudenberger, psicanalista. Para esses autores, burnout seria a resposta emocional a situações de stress crônico em função de relações intensas – em situações de trabalho – com outras pessoas ou de profissionais que apresentam grandes expectativas em relação a seus desenvolvimentos profissionais e dedicação à profissão; no entanto, em função de diferentes obstáculos, não alcançam o retorno esperado (Limongi França; Rodrigues, 2002, p. 50). Há uma grande expectativa com relação à profissão que se está desempenhando, mas as frustrações, as decepções, os problemas, as desvalorizações, as condições de trabalho, a realidade, que não corresponde com o que é planejado, desejado, sonhado, e o contato constante com diferentes pessoas, possivelmente ocasionarão burnout. Essa doença é considerada uma síndrome porque tem três elementos básicos “que podem aparecer associados, mas que são independentes: despersonalização, exaustão emocional e baixo envolvimento pessoal no trabalho [ou redução da realização pessoal e profissional]” (Codo; Vasques-Menezes, 2002, p. 241). Para compreendermos esses três sintomas ou aspectos da síndrome, observemos o quadro abaixo: Quadro 3: Características, Sintomas e Conseqüências da Síndrome de Burnout
Fonte: Limongi França; Rodrigues (2002, p. 51-52). Codo (1999) esclarece que a síndrome de burnout é um problema de saúde mental que pode levar a educação pública à falência, fazendo-se necessário o reconhecimento das autoridades sobre a epidemia que está se instalando e a necessidade de implantação de políticas públicas para sua prevenção, seu diagnóstico e tratamento. O público-alvo das trabalhadoras em educação são os seres humanos em suas diversas fases, seja num contato com estudantes, com colegas de trabalho e com a sociedade em geral. Assim, é relevante e urgente a apropriação do que seja essa doença, sua conseqüência para o trabalho, para a educação, para a vida pessoal e familiar, para a sociedade, bem como é necessário traçar políticas públicas para o seu tratamento e prevenção.
O QUE É DEPRESSÃO, SINTOMAS E CONSEQÜÊNCIAS Doença que afeta a mente e o corpo, os sintomas são físicos e psicológicos, mas a natureza exata da doença varia de uma pessoa para outra, ou seja, uma determinada pessoa pode apresentar a predominância de alguns sintomas da doença que diferem dos sintomas predominantes em outra. Classificada como transtorno afetivo bipolar, episódio depressivo, transtorno depressivo recorrente, transtorno persistente do humor e outros transtornos do humor, segundo a Classificação Internacional de Doenças (CID 10) da Organização Mundial da Saúde (OMS) em função do perfil sintomatológico, da gravidade, do padrão de recorrência e do curso (Cordas; Taveira, 2003, p. 15). Quadro 4: Sintomas e Conseqüências da Depressão
Fonte: Cordas; Taveira (2003, p. 14-5). Na verdade, os médicos utilizam o termo depressão para descrever uma doença clínica considerada grave, cujos sintomas podem durar vários meses, ou até anos, ao contrário das reações que todas as pessoas têm, quotidianamente, caracterizadas por fases de baixo-astral e tristeza, mas que podem passar rapidamente, o que não é o caso do quadro depressivo. As pessoas neste estado, quando procuram ajuda, fazem-no em diversos segmentos, não só na medicina oficial, mas na terapia alternativa e em diversas religiões.
CONCLUSÃO A profissão interfere na saúde das pessoas, trazendo como conseqüências doenças como distúrbios vocais, a síndrome de burnot e de depressão, advindas também do estresse laboral, e que refletem no local de trabalho. As trabalhadoras entrevistadas, em sua maioria, encontram-se estressadas, intolerantes e em burnout. Percebemos que as pessoas entrevistadas, para a sobrevivência, trabalham mais de oito horas por dia, o que ocasiona uma sobrecarga, isso sem considerar as exigências profissionais, como formação continuada, leituras, avaliações, atualizações, atividades extraclasse – correções de trabalhos, provas etc –, higiene, manutenção e segurança do espaço físico, bem como as atividades domésticas e o cuidar dos filhos. A maioria das trabalhadoras em educação não tem tempo para o lazer e o lúdico. Conseqüentemente, a profissão é um perigo, e, como uma panela de pressão, poderá estourar na saúde física e mental das profissionais e também no processo de ensino-aprendizagem. Infelizmente, a pesquisa demonstrou a falta de conhecimento, por parte das trabalhadoras em educação, do que seja a síndrome de burnout e, também, do que venha a ser, realmente, a depressão. Constatamos que as trabalhadoras em educação buscam a religião nos casos de problemas com a saúde porque ela proporciona conforto, respostas aos porquês das doenças e o restabelecimento da vida simbólica e da nomia. A busca pelo tratamento espiritual no espiritismo está vinculado à teodicéia explicativa da religião. Para 95% das entrevistadas, o tratamento realizado no espiritismo proporcionou melhoras na sua saúde e, para 84%, a religião ajudou profissionalmente. Isso denota, também, o vínculo entre educação, saúde e religião. A terapêutica espírita não se resume ao que é recomendado pela Federação Espírita Brasileira em suas orientações documentais, também não há um consenso na literatura espírita sobre o tema. Percebemos que o tratamento espiritual espírita é realizado com autonomia pelos grupos religiosos e nem os rituais realizados por um grupo nem sempre são os mesmos do outro. O que há de comum em todos é a oração, os passes, a água fluidificada e a palestra. A forma da prática e da implementação do ritual dependerá de cada grupo, da orientação dos mentores espirituais e da administração local. A busca por tratamento espiritual no espiritismo se dá em situações as mais diversas, como problemas emocionais, psicológicos, físicos, familiares, mentais, curiosidades, espirituais e/ou materiais. Todas as pessoas que procuram são atendidas e não são questionadas nada sobre sua vida pregressa, situação econômica ou a religião que freqüenta. O sigilo, a ética, o respeito e a discrição foram elementos comuns aos grupos pesquisados.
[1] Queremos esclarecer que essa pesquisa faz uma abordagem valendo-nos do fenômeno religioso, a fim de refletir as dificuldades e as motivações das trabalhadoras em educação e as possíveis conseqüências na profissão e na vida pessoal.
Referências: ANDRADE, G. Doenças, cura e saúde: à luz do Espiritismo. 8. ed. Capivara: EME, 2003. ANDRADE, G. Terapêutica espírita. Capivari: EME, 2001. ANDRADE, Hernani Guimarães. Psicobiofísica: novo paradigma para a ciência. In: ASSOCIAÇÃO Médica Espírita do Brasil. Saúde e espiritismo: campo de força, mediunidade, sexualidade e abordagens na prática médica. 2. ed. São Paulo: Ed. da AME, 2000. p. 1-6. BERGER, P. O dossel sagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião. Tradução de José Carlos Barcelos. São Paulo: Paulinas, 1985. BONTEMPO, Geraldo Paulo. Obsessão e sua fisiologia. Goiânia: SEPT, 2000. CANHADAS, C. M. Cura espiritual, uma visão integradora corpo-mente-espírito. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 1999. CAVALCANTI, M. L. V. de C. O mundo invisível: cosmologia, sistema ritual e noção de pessoa no espiritismo. Rio de Janeiro: Zahar, 1983. CARVALHO, Mércia Maria Almeida de. Desobsessão, terapia do amor. In: ASSOCIAÇÃO MÉDICA ESPÍRITA DO BRASIL. Saúde e espiritismo: campo de força, mediunidade, sexualidade e abordagens na prática médica. 2. ed. São Paulo: AME-Brasil, 2000. p. 233-45. CECCON, C.; OLIVEIRA, M. D. de; OLIVEIRA, R. D. de. A vida na escola e a escola da vida. 33. ed. Petrópolis: Vozes, Idac, 1998. CLARO, I. Depressão: causas, conseqüências e tratamento. Matão: O Clarim, 1998. CODO, W. (Coord.). Educação: carinho e trabalho. 3. ed. Petrópolis: Vozes; Brasília: Ed. da UnB, 1999. CONSENSO NACIONAL SOBRE VOZ PROFISSIONAL (CNVP). Dos levantamentos a respeito da incidência da laringopatias. Anexo 6: 2004. CORDÁS, Táki Athanássios; TAVEIRA, Ana. Recuperação funcional e remissão em psiquiatria. In: MORENO, Doris Hupfeld et alii. Recuperação em depressão. São Paulo: Livre, 2003. p. 9-28. ESTADO DE GOIÁS, Agência goiana de administração e negócios públicos. Gerencia de Saúde e Segurança do Servidor (GESEG). Relatório de atividades, 2005. GREENFIELD, S. M. Cirurgias do além: pesquisa antropológica sobre curas espirituais. Tradução de Wagner de Oliveira Brandão. Petrópolis: Vozes, 1999. JUNG, C. G. A vida simbólica: escritos diversos. Tradução de Araceli Elman, Edgar Orth. Petrópolis: Vozes, 1997. V. XVIII/1. LEMOS, C. T. Religião e saúde: a busca de uma vida com sentido. Fragmentos de Cultura, Goiânia, v. 12, n. 3, p. 470-510, maio/jun. 2002. LIMONGI FRANÇA, A. C.; RODRIGUES, A. L. Stress e trabalho: uma abordagem psicossomática. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2002. MORENO, D. H. Cronificação e recorrência. In: MORENO, D. H. et alii. Recuperação em depressão. São Paulo: Livre, 2003. p. 53-62. NOBRE, Marlene Rossi Severino. Nossa contribuição para o debate. In: ASSOCIAÇÃO Médica Espírita do Brasil. Saúde e espiritismo: campo de força, mediunidade, sexualidade e abordagens na prática médica. 2. ed. São Paulo: AME-Brasil, 2000. p. V-VI. OMS: Organização Mundial de Saúde. Relatório sobre saúde no mundo: Saúde mental: nova concepção, nova esperança. Suíça: OMS/OPAS, 2001. PASQUALI, C.; TRACCO, M. Como vencer a depressão. São Paulo: Abril, 2003. (Coleção muito mais Ana Maria, n. 15315/5, V. 1). RODRIGUES, E. B. T.; SANTOS, G. A. C. dos; SILVA, S. A. Gestão escolar democrática. Revista Solta a Voz, Goiânia, v. 14, n. 1, p. 64-81, jan./jun. 2003. SANTOS, G. A. C. dos. Educação, profissão perigo. Burnout, depressão e o tratamento espiritual no Espiritismo. Dissertação (Mestrado em Ciências da religião) – Universidade Católica de Goiás, Goiânia, 2004. SCHUBERT, S. C. Transtornos mentais: uma leitura espírita. Araguari: Minas Ed., 2001. VIEIRA, Juçara Dutra. Identidade expropriada: retrato do educador brasileiro. Brasília: CNTE, 2003. WEBER, M. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Tradução de Regis Barbosa e Karen Elsabe Barbosa. Brasília: Ed. da UnB, 2000. p. 3-17;279-320;350-403. (V. I).
GENIVALDA ARAUJO CRAVO DOS SANTOS Doutoranda e Mestre em Ciências da Religião - UCG/GO. Professora de história, sociologia, ensino religioso e tutora na Secretaria Estadual de Educação de Goiás (SEE/GO); coordenadora de turno na Secretaria Municipal de Educação de Goiânia (SME); Contatos: 62-91130193 / e-mail: genivaldacravo@ig.com.br.
Falando sobre COMO VIVER EM PLENITUDE? - TRECHO DO LIVRO NORMOSE - UMA PATOLOGIA DA NORMALIDADE
Citação COMO VIVER EM PLENITUDE? - TRECHO DO LIVRO NORMOSE - UMA PATOLOGIA DA NORMALIDADE O IMPACTO DO TRABALHO NA SAÚDE DAS TRABALHADORAS EM EDUCAÇÃO DE GOIÂNIA-GOIÁSXIV JORNADAS SOBRE ALTERNATIVAS RELIGI0SAS EN AMÉRICA LATINA GT 3 – RELIGIONES/CUERPOS/SALUD GENIVALDA ARAUJO CRAVO DOS SANTOS DOUTORANDA EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO UCG/GO
O IMPACTO DO TRABALHO NA SAÚDE DAS TRABALHADORAS EM EDUCAÇÃO DE GOIÂNIA/GOIÁS
Resumo: O presente trabalho oral visa apresentar os resultados científicos da pesquisa strito-sensu em Ciências da Religião – UCG/GO. O nosso objeto de pesquisa buscou compreender o impacto do trabalho na saúde das trabalhadoras em educação e a busca de sentido de vida na religião, em especial no Espiritismo. Qual a relação da saúde com a religião? Porque as trabalhadoras em educação acometidas com a síndrome de burnout e depressão buscaram o tratamento espiritual no Espiritismo? A metodologia científica foi desenvolvida com base em um olhar holístico, fenomenológico e qualitativo e constatamos, na investigação, que a educação é uma profissão perigo. Percebemos que as trabalhadoras entrevistadas quando em anomia por causa da síndrome de burnout e da depressão buscam alternativas das mais diversas. Uma das alternativas buscadas pelas trabalhadoras em educação foi o tratamento espiritual no Espiritismo, a teodicéia explicativa de tal fenômeno religioso forneceu sentido de vida simbólico. O Espiritismo tem uma cosmovisão própria sobre a doença, a cura, a saúde e os meios para proporcionar o restabelecimento da saúde, através da terapêutica espírita baseada nos encontros específicos para o tratamento espiritual, reuniões públicas, sessões de desobsessões, passes, água fluidificada, recomendações de leituras espíritas, reforma íntima, cursos e prece. Na conclusão da pesquisa ficou evidenciado que a religião, na busca das pessoas pela saúde, desempenha o papel de proporcionar conforto, respostas aos porquês das doenças e o restabelecimento da vida simbólica e da nomia; e a teodicéia explicativa do Espiritismo restabelece a nomia através do tratamento espiritual. PALAVRAS-CHAVES: Educação, Saúde e Religião
Pesquisas desenvolvidas no final da década de 1990 pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), em parceria com o Laboratório de Psicologia e Trabalho da Universidade Federal de Brasília (LPT/UnB), sobre o impacto da profissão na saúde mental das trabalhadoras em educação diagnosticaram o alto índice da síndrome de burnout. Para Codo (1999), esse quadro indica um grave problema, o qual poderá levar à falência da educação. Esta doença, que afeta a saúde mental da trabalhadora em educação, forma um quadro de desalento, desmotivação, apatia, perda de energia, desistência e isolamento da sociedade, podendo culminar na depressão, exigindo tratamentos psiquiátricos, psicológicos e, até mesmo, licenças para tratamento de saúde. As trabalhadoras em educação desempenham múltiplas responsabilidades no cotidiano da escola, por exemplo planejamento escolar e elaboração do Projeto Político Pedagógico (PPP), algumas participam do Conselho Escolar, outras cuidam do espaço físico, dos multimeios didáticos, da segurança dos estudantes, da alimentação, da infra-estrutura escolar e do meio ambiente, acrescentando, ainda, na sua rotina, as funções que envolvem outras tarefas, como Programa de Desenvolvimento Escolar (PDE), Programas de Formação Continuada e de avaliação escolar. Segundo Rodrigues et alii (2003:72), “todo esse processo de envolvimento nas discussões e na tomada de decisões no âmbito educacional gera uma sobrecarga de atividades”. Dados da pesquisa de Santos (2004) sobre o trabalho na educação evidenciou uma sobrecarga de trabalho e de atividades; uma profissão que exige qualificação, atualização e formação continuada; um relacionamento constante com outras pessoas, sejam os estudantes – que têm as suas individualidades, diferenças e exigências de aprendizado, comportamento e de carinho – ou os colegas de trabalho –; um convívio permanente com pessoas de idades, personalidades, formação, experiências e vivências diferentes, conseqüentemente, essa profissão exige também paciência, tolerância, civilidade e afetividade. ANATOMIA DE UM TRABALHO PENOSO E AS SUAS CONSEQÜÊNCIAS NA SAÚDE MENTAL Com base nas reflexões expostas anteriormente, vamos apresentar nos parágrafos subseqüentes as conseqüências desta profissão na saúde. Observemos o Quadro 1: Quadro 1: Anatomia de um Trabalho Penoso
Fonte: Vieira (2003:26).
Tanto professoras como funcionárias administrativas sofrem de mal-estar profissional, que sempre refletirá no desempenho do seu trabalho e nas relações sociais. Se formos considerar as diferenças das complexidades exigidas de cada função, afirmaríamos, precipitadamente, que a professora está mais suscetível ao adoecimento. Essa afirmação carece de um estudo científico para corroborar tal hipótese. Por exemplo, se a professora ficar doente e precisar faltar ao serviço ou pegar licença para tratamento de saúde será contratada uma substituta, ao passo que a funcionária não tem tal benefício, em Goiânia e em Goiás, outra colega da escola ficará sobrecarregada. Essa realidade traz, provavelmente, conseqüências para a saúde das pessoas, para o seu trabalho profissional, para sua relação com os estudantes e com a sociedade. Estudiosos de diferentes culturas dão diferentes definições à saúde mental. Os conceitos de saúde mental abrangem, entre outras coisas, o bem-estar subjetivo, a auto-eficácia percebida, a autonomia, a competência, a dependência intergeracional e a auto-realização do potencial intelectual e emocional da pessoa. Por uma perspectiva transcultural, é quase impossível definir saúde mental de uma forma completa. De modo geral, porém, concorda-se quanto ao fato de que saúde mental é algo mais do que a ausência de transtornos mentais (OMS 2001:29).
Se saúde mental é “algo mais do que a ausência de transtornos mentais”, então, a anatomia de um trabalho penoso (Quadro 1) pode demonstrar que a educação está adoecida. O QUE É ESTRESSE, SINTOMAS E CONSEQÜÊNCIAS O estresse não é bom e nem ruim. Dependendo do organismo, dos fatores estressores – as causas, os porquês, as situações, os motivos – e da adaptação da pessoa às situações que exigem enfrentamento destes problemas, poderá ser positivo ou negativo, pois ele permeia a vida humana, é algo que está interligado a todas as dimensões – sociais, econômicas, culturais, ecológicas, religiosas e políticas: O que é estar estressado? Estado do organismo, após o esforço de adaptação, que pode produzir deformidade na capacidade de resposta atingindo o comportamento mental e afetivo, o estado físico e o relacionamento com as pessoas (Limongi França; Rodrigues 2002:28).
Como podemos perceber, existe uma linha tênue que separa o estar com saúde e o estar doente, estressado. O estresse é algo natural na vida, mas tem alguns gatilhos que, quando acionados, podem ocasionar desequilíbrios, excessos, tensões e realizações sem resultados positivos, levando ao adoecimento. Na situação particular, do stress relacionado ao trabalho, ele é definido como as ‘situações em que a pessoa percebe seu ambiente de trabalho como ameaçador’ a suas necessidades de realização pessoal e profissional e/ou a sua saúde física ou mental, prejudicando a interação desta com o trabalho e com o ambiente de trabalho, à medida que esse ambiente contém demandas excessivas a ela, ou que ela não contém recursos adequados para enfrentar tais situações (Limongi França; Rodrigues 2002:34).
O QUE É SÍNDROME DE BURNOUT, SINTOMAS E CONSEQÜÊNCIAS Não existe uma definição única na literatura internacional para a síndrome de burnout, há um consenso de que essa doença “seria uma resposta ao stress laboral crônico, não devendo contudo ser confundido com stress” (Codo; Vasques-Menezes 1999b:240), seria uma doença profissional, pesquisada pioneiramente desde 1970 por Cristina Maslach, psicóloga social, e Herbert J. Freudenberger, psicanalista. Para esses autores, burnout seria a resposta emocional a situações de stress crônico em função de relações intensas – em situações de trabalho – com outras pessoas ou de profissionais que apresentam grandes expectativas em relação a seus desenvolvimentos profissionais e dedicação à profissão; no entanto, em função de diferentes obstáculos, não alcançam o retorno esperado (Limongi França; Rodrigues 2002:50).
Há uma grande expectativa com relação à profissão que se está desempenhando, mas as frustrações, as decepções, os problemas, as desvalorizações, as condições de trabalho, a realidade, que não corresponde com o que é planejado, desejado, sonhado, e o contato constante com diferentes pessoas, possivelmente ocasionarão burnout. Essa doença é considerada uma síndrome porque tem três elementos básicos “que podem aparecer associados, mas que são independentes: despersonalização, exaustão emocional e baixo envolvimento pessoal no trabalho [ou redução da realização pessoal e profissional]” (Codo; Vasques-Menezes 1999b:241). Para compreendermos esses três sintomas ou aspectos da síndrome, observemos o quadro abaixo: Quadro 3: Características, Sintomas e Conseqüências da Síndrome de Burnout
Fonte: Limongi França; Rodrigues (2002:51-52).
Codo (1999) esclarece que a síndrome de burnout é um problema de saúde mental que pode levar a educação pública à falência, fazendo-se necessário o reconhecimento das autoridades sobre a epidemia que está se instalando e a necessidade de implantação de políticas públicas para sua prevenção, seu diagnóstico e tratamento. O público-alvo das trabalhadoras em educação são os seres humanos em suas diversas fases, seja num contato com estudantes, com colegas de trabalho e com a sociedade em geral. Assim, é relevante e urgente a apropriação do que seja essa doença, sua conseqüência para o trabalho, para a educação, para a vida pessoal e familiar, para a sociedade, bem como é necessário traçar políticas públicas para o seu tratamento e prevenção. CONCLUSÃO A profissão interfere na saúde das pessoas, trazendo como conseqüências doenças como, por exemplo, a síndrome de burnout, advindas também do estresse laboral, e que refletem no local de trabalho. As trabalhadoras entrevistadas na pesquisa, em sua maioria, encontram-se estressadas, intolerantes e em burnout. Esta situação denota que as relações humanas delas devem estar possivelmente, deterioradas, seja entre elas próprias ou entre elas e os estudantes, os pais, as mães ou responsáveis ou com os demais membros da sociedade. Percebemos que as pessoas entrevistadas, para a sobrevivência, trabalham mais de oito horas por dia, o que ocasiona uma sobrecarga, isso sem considerar as exigências profissionais, como formação continuada, leituras, avaliações, atualizações, atividades extraclasse – correções de trabalhos, provas etc –, higiene, manutenção e segurança do espaço físico, bem como as atividades domésticas e o cuidar dos filhos. A maioria das trabalhadoras em educação não tem tempo para o lazer e o lúdico. Conseqüentemente, a profissão é um perigo, e, como uma panela de pressão, poderá estourar na saúde física e mental das profissionais e também no processo de ensino-aprendizagem. Nessa pesquisa, privilegiamos as possíveis conseqüências da síndrome de burnout e de depressão na saúde mental das pessoas que trabalham na educação. Infelizmente, a pesquisa demonstrou a falta de conhecimento, por parte das trabalhadoras em educação, do que seja a síndrome de burnout. O próprio termo saúde mental não é bem visto por diversas pessoas, observamos, durante todo o processo da pesquisa de campo nos anos de 2003 e 2004, a insatisfação, o constrangimento e o preconceito com o uso, ocorreram alguns casos de pessoas tentarem nos convencer a não adotá-lo, sugerindo outros, como mal-estar, burnout e sofrimento psíquico. Esse fato está vinculado ao que disse uma entrevistada: “eu pareço pinel, louca”.
Bibliografia CODO, Wanderley. (Coord.). 1999. Educação: carinho e trabalho. 3. ed. Petrópolis: Vozes; Brasília: Ed. da UnB. LIMONGI FRANÇA, Ana Cristina; RODRIGUES, Avelino Luiz. 2002. Stress e trabalho: uma abordagem psicossomática. 3. ed. São Paulo: Atlas. OMS: Organização Mundial de Saúde. 2001. Relatório sobre saúde no mundo: Saúde mental: nova concepção, nova esperança. Suíça: OMS/OPAS. RODRIGUES, Edvânia Braz Teixeira; SANTOS, Genivalda Araujo Cravo dos; SILVA, Simei Araújo. 2003. Gestão escolar democrática. Revista Solta a Voz, 14(1):64-81. SANTOS, Genivalda Araujo Cravo dos. 2004. Educação, profissão perigo. Burnout, depressão e o tratamento espiritual no Espiritismo. Mestrado. Dissertação. Goiânia: Universidade Católica de Goiás. VIEIRA, Juçara Dutra. 2003. Identidade expropriada: retrato do educador brasileiro. Brasília: CNTE.
Artigo publicado |
|
|