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    AGRADECIMENTO

    Olá,
     
     
    Agradeço a você que está lendo esse blog e que auxiliou-me no desfecho da novela do processo de Licença para Aprimoramento Profissional da prefeitura de Goiânia/Go, que desde o dia 04/04/2008 estava aguardando o senhor prefeito assinar. 
     
    Você que acompanhou ou ficou sabendo do caso, o meu muito obrigado pelo pensamento otimista, pela vibração positiva, pela intervenção e solicitação pessoal junto ao senhor prefeito, pelas manifestações de protestos...
      
    Informo-lhe que hoje, 09/06/2008, o prefeito assinou todas as licenças.A partir de hoje poderei dedicar-me exclusivamente a pesquisa, a leitura, a investigação, as produções textuais, as participações em eventos científicos, palestras, pesquisa de campo... São tantas as coisas a serem realizadas...
     
    Aproveito essa oportunidade, ainda, para pedir pensamentos positivos pela Paz. "Acenda uma chama para a Paz, começando pelo seu coração!" 
     
    Obrigada por tudo!!!!
     
    Atenciosamente,
     
    Genivalda Araujo Cravo dos Santos.

    O MAL NA EDUCAÇÃO É A SÍNDROME DE BURNOUT?

    O MAL NA EDUCAÇÃO É A SÍNDROME DE BURNOUT?

    SANTOS, Genivalda Araujo Cravo dos

    Doutoranda e Mestre em Ciências da Religião UCG/GO

    genivaldacravo@ig.com.br

     

    Resumo: Essa comunicação se propõe a apresentar algumas reflexões realizadas durante o seminário interdisciplinar: simbólico e diabólico - as interpretações do mal, o seminário foi realizado de agosto até dezembro de 2007, a partir de um enfoque multidisplinar, onde refletimos sobre as diversas interpretações, concepções e representações do mal nas religiões numa perspectiva da antropologia da religião, da literatura sagrada e da sociologia da religião. Olhamos através da perspectiva: O mal na educação é a síndrome de burnout? Analisamos em alguns autores os sintomas, conseqüências da síndrome de burnout na educação e as representações simbólicas do mal. O problema do mal, a partir do enfoque do burnout na educação. Para Croatto as expressões simbólicas do mal em algumas cosmovisões religiosas surgem primeiramente na linguagem através da experiência humana e religiosa. Podendo ser simbolicamente representado como sendo: impureza esse símbolo é muito utilizado nas religiões através dos rituais de purificação; pecado o símbolo religioso é a conversão, a remissão dos pecados; culpa o símbolo religioso é a libertação, “tirar o peso de cima” (Croatto, 1999, p. 118-121). Passos (2004, p. 52-56) reflete sobre a burnout, como uma oportunidade simbólica de mudança do velho paradigma educacional para um novo, onde os seres humanos terão condições de ter prazer e sentido de vida no que fazem. “Se houver uma ação em favor da vida – e contra Burnout -, não é a supressão do signo e de sua simbolização, mas sim, compreender e modificar o significante, que são as razões sócio-econômico-político-culturais de nossos conflitos”. A partir desse enfoque burnout deixa de ser simbolicamente uma representação do mal, uma culpa, impureza, pecado para ser salvação, ressignificação das concepções, princípios e estruturas educacionais. É uma denúncia de que algo não vai bem, não é só com os profissionais em educação e sim em toda estrutura social, perpassando todos os níveis institucionais (Passos, 2004; Arntz, 2007).

     

    O mal é experimentado de muitas maneiras, desde a doença até a morte, desde as desgraças naturais (terremotos, vulcões, granizo) até as limitações de todo tipo, como a pobreza, as frustrações, a perda de sentido da vida etc. Cada cosmovisão religiosa tem sua interpretação do mal. (Croatto, 2001, p. 118)

    O mundo é mau: os alunos são maus porque são indisciplinados, não se interessam pela escola e não aprendem; a família dos alunos é má porque não apoia o seu trabalho; a sociedade é má porque não valoriza sua profissão; o governo é mau porque oferece baixos salários; a direção da escola é má porque não oferece o suporte que ele precisa; os outros profissionais também são maus... Enfim, tudo vai mal. (Codo; Vasque-Menezes, 2000, p. 31)

     

     

     

    1. INTRODUÇÃO

    Esse artigo se propõe a apresentar algumas reflexões realizadas durante o seminário interdisciplinar: simbólico e diabólico - as interpretações do mal[1], a partir da perspectiva da síndrome de burnout ser o mal na educação; e realizaremos, também, algumas provocações referentes ao problema do mal. A metodologia desenvolvida durante o seminário foi interdisciplinar e multidisciplinar para compreendermos e interpretarmos o mal nas religiões e as suas influencias sociais e culturais. Através do estudo da literatura recomendada por cada docente, com a leitura dos textos, das apresentações, das reflexões e da produção de artigos pelos discentes, nós fomos tecendo o simbólico e o diabólico existente no mal.

    Muitas questões burilaram o pensamento da autora durante a realização deste seminário, apresentaremos apenas alguns desses burilamentos interiores: “a maioria das grandes descobertas e revelações caras à nossa sociedade foi produto de perguntas... e a ciência só progride porque se fazem perguntas e se desafiam...” (Arntz, 2007, p. 4; 8).

    Uma das grandes verdades sobre os paradigmas é que ‘eles mudam’. Na ciência, que é uma construção na qual uma geração se edifica em cima do trabalho dos que vieram antes, o paradigma do conhecimento evolui à medida que as visões antigas se revelam incompletas ou incorretas. Ora devagar, ora esperneando e gritando, a grandeza da ciência é que ela ‘avança’! (Arntz, 2007, p. 28-29)

    A citação acima será o nosso guia nas provocações que realizaremos ao longo desse artigo. Acreditamos que a abordagem das ciências da religião nos estudos sobre a qualidade de vida no trabalho e o fenômeno religioso poderá evidenciar novos olhares sobre o problema do mal na educação.

    Primeiramente vamos conceituar o que entendemos por religião, mencionaremos o conceito e Jung (1997, p. 289) de experiência religiosa: “a religião é uma experiência absoluta. Uma experiência religiosa [...] então ele [a pessoa] a teve e ninguém pode tirá-la dele”. A experiência fornece sentido simbólico à vida, representam forças emocionais ou numinosidade, podendo, desta maneira, restabelecer a saúde e a nomia:

    A pessoa humana precisa de vida simbólica. E precisa com urgência. Nós só vivemos coisas banais, comuns, racionais ou irracionais – que naturalmente também estão dentro do campo de interesse do racionalismo, caso contrário poderíamos chamá-las irracionais. Mas não temos vida simbólica [...] mas temos necessidade premente dela. (Jung, 1997, p. 272-3)

    Nas nossas pesquisas realizadas entre 2003/2004, no Mestrado em Ciências na Religião da UCG/GO, evidenciamos um quadro preocupante sobre o impacto do trabalho na saúde das trabalhadoras em educação e quais as alternativas buscadas pelas profissionais em educação quando acometidas por anomias[2], síndrome de burnout e/ou depressão, em especial na terapêutica espiritual/religiosa, no caso da pesquisa no Espiritismo (Santos, 2004; 2007). No doutorado estamos nos propondo a estudar a qualidade de vida no trabalho na perspectiva das ciências da religião a partir das seguintes problematizações: Será que o fenômeno religioso ajuda a minimizar os reflexos do impacto do trabalho na saúde mental da trabalhadora em educação? As terapias espirituais/religiosas fornecem sentido de vida simbólica às trabalhadoras em educação, acometidas com estresse, síndrome de burnout e/ou depressão? De que forma as terapêuticas espirituais/religiosas ajudam na busca de qualidade de vida no trabalho? Quais são as teodicéias fornecidas pelo fenômeno religioso, através das terapias espirituais/religiosas, quando os/as trabalhadores/as em educação estão adoecidas, momentaneamente, pelo estresse, síndrome de burnout e/ou depressão e como essas teodicéias ajudam profissionalmente as trabalhadoras em educação?

    Estamos pesquisando e procurando compreender de que forma as terapias espirituais/religiosas ajudam as/os trabalhadores/as em educação na qualidade de vida no trabalho. As terapêuticas espirituais/religiosas ajudam profissionalmente as trabalhadoras em educação acometidas com a síndrome de burnout e/ou com a depressão? Em síntese, queremos continuar pesquisando o impacto da profissão na saúde mental do/a trabalhador/a em educação e a busca do restabelecimento da saúde por meio da terapêutica espiritual/religiosa. A nossa tese é que o fenômeno religioso influencia e ajuda os/as trabalhadores/as em educação na qualidade de vida no trabalho. O fenômeno religioso, através das terapias espirituais/religiosas, constroi padrões e modelos de sentido de vida simbólica, através  das suas teodicéias, que auxiliam os/as trabalhadores/as em educação a suportarem o cotidiano  e a gerarem sentidos e significados para sua atuação profissional. Quando há mudanças de padrões e modelos a partir da teodicéia fornecida pelo fenômeno religioso, há uma ressignificação da percepção e dos propositos do sentido de vida simbólica do/a trabalhador/a em educação.

    Vamos agora compreender um pouco sobre o mal na educação, a partir do enfoque da síndrome de burnout. No quadro abaixo uma descrição resumida sobre o que vem a ser a doença que está acometendo 48,04% da categoria que trabalha na educação pública no Brasil (Codo, 1999). Esses dados que estamos apresentando, neste artigo, são de 1999, possivelmente se fossemos realizar a mesma pesquisa na educação básica no Brasil, passados seus oitos anos de resultados, os dados poderão ser ainda mais alarmantes ou quem sabe termos uma agradável surpresa que esses índices reduziram. Observemos o quadro abaixo, sobre o que é, sintomas e conseqüências da síndrome de burnout:

    Quadro 1: Burnout  o que é, sintomas e conseqüências

    1.      Burnout em português é algo como ‘perder o fogo’, ‘perder a energia’ ou ‘queimar para fora’. É uma síndrome através da qual o/a trabalhador/a perde o sentido da sua relação com o trabalho, de forma que as coisas já não o importam mais e qualquer esforço lhe parece ser inútil.

    2.      O BURNOUT É UMA DESISTÊNCIA DE QUEM AINDA ESTÁ LÁ. Encalacrado/a em uma situação de trabalho que não pode suportar, mas que também não pode desistir. O/A trabalhador/a arma, conscientemente uma retirada psicológica, um modo de abandonar o trabalho apesar de continuar no posto. Está presente no local de trabalho, mas passa a considerar cada dia, cada estudante, cada semestre, como número que vão se somando em uma folha em branco.

    3.      Burnout é o nome da dor de um profissional encalacrado entre o que pode fazer e o que efetivamente consegue fazer, entre o que deve fazer e o que efetivamente pode, entre a vitória e a frustração. Fica incapaz do mínimo de empatia, ele/a sofre: ansiedade, melancolia, baixa auto-estima, sentimento de exaustão física e emocional. Essa dificuldade em lidar com a afetividade se traduz numa lógica mais depressiva em contraste com aquele perfil eufórico do início da carreira.

    4.      Burnout é um problema internacional, não pode ser considerado como privilégio desta ou daquela cultura, deste ou daquele país. As profissões mais atingidas com essa doença são: trabalhadores/as em educação, da saúde, policiais, agentes penitenciários, todos/as que lidam com gente, com afetos ou com o cuidar.

    5.      São três os sintomas que podem estar associados, mas que são indepentendes: exaustão emocional, despersonalização e baixo envolvimento pessoal no trabalho.

    Fonte: Codo; Vasques-Menezes, out. 2000.

    Como podemos perceber essa doença chega à raiz do sentido de vida das pessoas, o trabalho acaba perdendo o sentido e o significado, chegando ao extremo da exaustão, sobrecarga, desumanização e falta de prazer naquilo que faz ou deixa de fazer, atingindo todas as esferas da vida.

    Passos (2004, p. 52-56) já reflete essa doença como uma oportunidade simbólica de mudança do velho paradigma educacional para um novo, onde os seres humanos terão condições de ter prazer e sentido de vida no que fazem.

    1ª) As doenças físicas são nossas irmãs! 2ª) A cura de nossas enfermidades não pode ser feita pela supressão dos sintomas físicos e pelo silenciamento de nossas dores... 3ª) Se houver uma ação em favor da vida – e contra Burnout -, não é a supressão do signo e de sua simbolização, mas sim, compreender e modificar o significante, que são as razões sócio-econômico-político-culturais de nossos conflitos... A cura de Burnout, em nós, é a cura da escola; é a cura das relações materiais e sociais de produção; é a cura da cultura pervertida; e a cura da exploração de nosso desejo; é a destruição da mentira institucional; é a recuperação de voz de protesto, ou seja, a remissão da condição de mercadoria a que estamos submetidos como classes e que usurpa nossa humanidade.

    Entendemos, assim como Passos (2004), que a síndrome de burnout – acrescentamos a depressão – manifesta-se simbolicamente no corpo, na mente, nas emoções, atitudes, sensações e no espírito das pessoas que acomete. Essa reflexão de Passos (2004) sintetiza também como a anomia age no sistema simbólico das pessoas, em especial das trabalhadoras em educação. A religião, nesses casos, quando é procurada pela pessoa que está vivenciando a doença, terá o papel de oferecer sentido, significado, conforto, respostas para a causa do mal vivenciado; e os rituais religiosos freqüentados e praticados ajudam aqueles que crêem a encontrar nomia e vida simbólica.

    A partir desse enfoque, acima, burnout deixa de ser simbolicamente uma representação do mal, uma culpa, impureza, estigma, pecado para ser salvação, redenção, justiça, ressignificação dos valores, concepções, princípios e estruturas educacionais. É uma denúncia de que algo não vai bem, não é só com os profissionais em educação e sim em toda estrutura, perpassando todos os níveis institucionais, as pessoas que trabalham na educação, as sociedades, as culturas é ao mesmo tempo uma resistência (Passos, 2004; Arntz, 2007). Sendo assim, vamos ver logo a seguir algumas reflexões sobre as interpretações e representações simbólicas do mal.

    2. ALGUNS REFERENCIAIS TEÓRICAS SOBRE A COMPREENSÃO DO MAL

    Os/as trabalhadores/as em educação, conforme citações nesse artigo, sentem-se impotentes diante do sofrimento psíquico, da exaustão emocional, da despersonalização e da falta de envolvimento no trabalho, em função de estar em burnout (Santos, 2004; 2007). “Tudo vai mal”, expressão mencionada várias vezes por muitas pessoas, não é diferente no meio da educação, olhemos a segunda epígrafe. O paralelo que estamos realizando, nesse artigo, entre o mal e a burnout na educação, evidencia uma banalização do mal de forma sorrateira e silenciosa, corroendo os sonhos e as utopias daqueles que trabalham na educação.  O mal sempre povoou o imaginário da humanidade, vamos agora buscar entender porque, a partir da reflexão de alguns autores e autoras, logo abaixo.

    Bauman (1999, p. 9-61) analisou a modernidade a partir do conceito de ambivalência, a partir da teoria da ordem e da jardinagem. Ele trás diversos exemplos de como o mal agiu na sociedade através dessas teorias ao longo do século passado. A análise sociológica da modernidade, com o olhar de Bauman, nos auxilia a compreender as reflexões que Passos (2004) trás sobre como se pode processar a cura da burnout.

    Parece que o único fator realmente capaz de contrabalançar e eventualmente compensar o potencial genocida adormecido nas capacidades instrumentais da modernidade e sua mentalidade racional-instrumental é o ‘pluralismo do poder’ e portanto o pluralismo de opiniões autorizadas. Só o pluralismo devolve a responsabilidade moral da ação a seu natural portador: o indivíduo que age. (Bauman, 1999, p. 60)

    Para Croatto as expressões simbólicas do mal em algumas cosmovisões religiosas, a partir do enfoque antropológico, surgem primeiramente na linguagem através da experiência humana e religiosa. Simbolicamente pode ser representado como sendo: impureza – vem de fora, mancha, adere à pessoa, esse símbolo é muito utilizado nas religiões através dos rituais de purificação; pecado – o outro, uma relação que pode ser consigo mesmo ou apontar o dedo ao outro, o símbolo religioso é a conversão, a remissão dos pecados; culpa – é uma interiorização da falta da pessoa, os símbolos da culpa é o peso ou carga, que pode ser medido e o símbolo religioso é a libertação, “tirar o peso de cima” (Croatto, 1999, p. 118-121).

    O artigo “O mal e suas representações simbólicas: o universo mítico e social das figuras de satanás na Bíblia”, de Luigi Schiavo trás uma reflexão que serve de orientação na compreensão das diversas vestimentas, sentidos e significados dado ao mal através das representações do diabo. O artigo retrata o conceito histórico da palavra diabo, Lúcifer e demônio e como o significado foi mudando ao longo do processo histórico desde o Antigo Testamento até o Novo Testamento Bíblico. O diabo possuiu diversas representações simbólicas, como por exemplo: luz, adversidade, doença, calamidade, protetor, adversário, indutor do mal. O artigo buscou fundamentar através dos livros bíblicos, apócrifos e em outras literaturas o sentido e significados do mal:

    O processo de demonização está relacionado à situação de conflito de impotência e de opressão entre grupos sociais e povos. Esta chave nos permite... ler de maneira crítica as várias imagens do demônio na Bíblia, como expressão e memória de situações de conflito, sofrimento, perseguição e morte, mas também como grito de esperança na derrota definitiva do demoníaco que, de mil maneiras, ameaça a vida humana. (Schiavo, 2000, p. 65)

    O mal foi utilizado como instrumento de dominação, de medo, de poder, coerção, de controle social, de perpetuação de paradigmas que interessavam a determinados grupos dominantes. Em resumo o mal possuiu vários nomes e vestimentas ao longo da história da humanidade. O mal se fundiu com a história do diabo, o Lúcifer.

    Schiavo (2001) num outro artigo “Como é que é sentir o calor? A história de Lúcifer que se tornou demônio por causa da mulher” relata as representações simbólicas construídas sobre a mulher na bíblia. Contextualiza a influencia cristão-judaica-grego-romana e desmistifica o papel temido da mulher pelo patriacalismo. “A pergunta que nos guiará será: por que a mulher, o sexo e o amor sexual são culpados pelos males que afligem a humanidade?” No final o autor problematiza e menciona as diversas formas de mal imputado as mulheres através das comparações, da dualidade, da necessidade da imposição de símbolos e imagens negativas referentes à mulher, da ambivalência, da impureza e da tentação da mulher/Lúcifer. Schiavo propõe no seu texto uma quebra de paradigmas e o resgate da imagem da mulher, de forma positiva. Constrói uma metodologia feminina, contraponto a literatura com uma leitura nas entrelinhas, buscando verificar as omissões, os medos, os temores e os vazios literários. O autor afirma que o patriacalismo deixou um legado de machismo, dualidade, vergonha do corpo, da sexualidade, da beleza e na construção simbólica bíblica do feminino de forma negativa.

    Para Sanford (1988, p. 162-194) no texto “A ontologia do mal” ele faz um passeio nas diversas teorias explicativas do problema do mal na teologia cristã e reflexões sobre o interesse e as críticas de Jung a doutrina da privatio boni: “A idéia básica da doutrina da ‘privatio boni’ é que só o bem possui substância; o mal não teria substância própria, mas uma existência apenas no sentido de diminuição do bem” (Sanford, 1988, p. 169). Jung baseia-se em três argumentos para derrubar a doutrina da privatio boni:

    1. A imagem unilateralmente luminosa de Cristo contradiz o fato de que o ‘si-mesmo’ é uma combinação dos opostos. 2. A divisão e isolamento entre o mal e a divindade deu a ele demasiada autonomia, com resultados desastrosos para a humanidade, especialmente quando a doutrina da ‘privatio boni’ tranqüiliza os homens numa falsa sensação de segurança ao negar a realidade do mal, ainda que o sentimento humano esteja contra tal negação. 3. A objeção lógica de que o mal é real, já que o bem e o mal são um par de opostos logicamente equivalentes... Já mencionamos o fato de que Jung sentiu que o símbolo trinitário divino estava incompleto, uma vez que ele deve ser um símbolo da totalidade, e que o símbolo do quaternário seria mais representativo da totalidade. (Sanford, 1988, p. 174-175)

    As reflexões realizadas por Sanford, após analises da citação acima, evidenciaram que o mal e o bem coexistem, formam uma totalidade e depende do ponto de vista da pessoa sobre o que é o bem e o mal. Pois uma situação pode ser bem para si e para o outro pode ser um mal.

    Já a Souki (2007, p. 43-60) reflete sobre o conceito da banalização do mal a partir da analise dos escritos de Hannah Arendt:

    Pensar sobre o mal não constitui uma tarefa fácil e muito menos confortável ou prazerosa, ao contrário, representa um desafio... Outra saída é considerar o mal como um enigma e, nessa via, evitá-lo ou remetê-lo ao ‘buraco negro’ do mistério e do insondável. Mas o fato de ignorá-lo, deslocá-lo de seu estatuto real ou expurgá-lo do pensamento não o esconjura, nem tampouco o retira do universo dos problemas humanos... Foi em relação a tais eventos concernentes a Eichmann que Hannah Arent empregou pela primeira vez a expressão banalidade do mal... ‘Era como se naqueles últimos minutos ele estivesse resumindo a lição que este longo percurso através da maldade humana nos ensinou, a lição da temerosa banalidade do mal’... associa claramente ‘inconsciência’, ‘afastamento da realidade’, e ‘obediência’... Isto significa que a aparência de banalidade tem justamente a função de ocultar o verdadeiro escândalo do mal...  (Souki, 2007, p. 43;49;50;55)

    Pensar se burnout é o mal na educação é um desafio. Como paralelo, ao pensamento desenvolvido na citação acima, os estudos sobre burnout evidenciam que a pessoa afasta-se da realidade, obedece cegamente à burocracia e busca se tornar inconsciente dos seus atos, atitudes, sentimentos, emoções, coisificando-se e desumanizando-se para não sofrer. Acaba por responsabilizar os outros dos males sofridos e enfrentados na profissão, vê tudo que é relacionado ao trabalho como negativo, desiste estando trabalhando; muitas pessoas não sabem que tem essa doença (Codo, 1999; Codo e Vasques-Menezes 2000; Santos, 2004). A educação sofre da banalização do mal? Nesse artigo não temos a pretensão de aprofundar tal questionamento, o paralelo fica como provocações que podem sugerir possíveis estudos comparativos com os estudos de Hannah Arent.  No nosso ponto de vista burnout na educação pode representar a banalização do mal.

    Conforme já refletimos em Passos (2004) burnout pode ser uma oportunidade de revisão de paradigmas individuais e/ou coletivos e para Souki (2007) uma oportunidade de rever nossos pontos de vistas e colocar outros óculos para compreendermos como a banalização do mal age em nosso meio. Sendo assim, voltamos a nossa indagação sobre se é burnout o mal da educação ou é um sinal que os paradigmas educacionais precisarão ser revistos? Segundo a nossa interpretação do texto de Sanford é a pessoa individualmente que consegue a cura para o problema do mal existente em sua vida privado e/ou coletiva. As concepções representadas pelas crenças religiosas sobre o bem e o mal auxiliariam nesse processo de cura individual. Sendo assim basta curar somente o indivíduo que solucionaremos o problema do mal na educação? Onde fica a interdependência das partes e a totalidade do ser?

    2.                 OS REFLEXOS DO MAL NA PESSOA EM BURNOUT

    Um trabalhador que entra em Burnout assume uma posição de frieza frente a seus clientes, não se deixando envolver com seus problemas e dificuldades. As relações interpessoais são cortadas, como se ele estivesse em contato apenas com objetos, ou seja, a relação torna-se desprovida de calor humano. Isso acrescido de uma grande irritabilidade por parte do profissional, este quadro torna qualquer processo ensino-aprendizagem, que se pretenda efetivo, completamente inviável. Por um lado, o professor [trabalhador/a em educação] tornar-se incapaz do mínimo de empatia necessária para a transmissão do conhecimento e, de outro, ele sofre: ansiedade, melancolia, baixa auto-estima, sentimento de exaustão física e emocional. (Codo; Vasques-Menezes, 2000, p. 31)

    Como podemos observar, na citação acima, o mal representado no estar em burnout pode prejudicar a qualidade de vida no trabalho. O sentimento de impotência, de culpa, de frustração, de decepção, de desilusão, de perda de sentido de vida leva a um círculo vicioso que se não for diagnosticado e tratado de forma consciente, as pessoas, as escolas e as instituições envolvidas nesse processo podem adoecer, ou melhor, já estão adoecidas, conforme pesquisas já realizadas. Consequentemente pode gerar uma banalização do mal, uma psicopatologia, desperdício de energia humana, de recursos financeiros, violência simbólica e total desumanização nas relações. Observemos os reflexos da citação acima, no quadro das sintomatologias:

    Quadro 2: Sintomatologias da síndrome de burnout

    Físicas

    Psíquicas

    Comportamentais

    Defensivas

    Fadiga constante e progressiva

    Distúrbios do sono

    Dores musculares ou osteomusculares

    Cefaléias, enxaquecas

    Perturbações gastrointestinais

    Imunodeficiência

    Transtornos cardiovasculares

    Distúrbios do sistema respiratório

    Disfunções sexuais

    Alterações menstruais nas mulheres

    Falta de atenção, de concentração

    Alterações de memória

    Lentificação do pensamento

    Sentimento de alienação

    Sentimento de solidão

    Impaciência

    Sentimento de insuficiência

    Baixa auto-estima

    Negligência ou excesso de escrúpulos

    Irritabilidade

    Incremento da agressividade

    Incapacidade para relaxar

    Dificuldade na aceitação de mudanças

    Perda da iniciativa

    Aumento do consumo de substâncias

    Comportamento de alto risco

    Suicídio

    Tendência ao isolamento

    Sentimento de onipotência

    Perda do interesse pelo trabalho até pelo lazer

    Absentismo

    Ironia, cinismo

    Fonte: Benevides-Pereira, 2002, p.44. In Barasuol, 2005, p. 54.

    Essas sintomatologias camuflam a doença da desistência, as pessoas começam a acreditar que estão acometidas de males físicos, passam por diversas especialidades médicas até descobrirem que o que sentem é burnout, o mal que acomete os cuidadores (Santos, 2004;2007; Barasuol, 2005). É evidente e explicito o mal estar, a dor psíquica sentida e vivenciada pelos/as trabalhadores/as em educação, observemos as citações mencionadas nesse artigo sobre burnout. A pessoa ao sentir algo que não sabe identificar ao certo o que tem, ao perceber e vivenciar sentimentos de dualidade, hostilidade, frieza, irritabilidade, intolerância, pessimismo, desmotivação, apatia, em síntese “tudo vai mal”. Como poderá ter qualidade de vida no trabalho?



    [1] O seminário foi realizado de agosto até dezembro de 2007, a partir de um enfoque multidisplinar, refletimos sobre as diversas interpretações, concepções e representações do mal nas religiões numa perspectiva da antropologia da religião, das literaturas sagradas e da sociologia da religião.

    [2] Conceito baseado em Berger, 1985.

    Cont. O mal na educação é a síndrome de burnout?

    4. ONDE BUSCAR AJUDA PARA O MAL EM BURNOUT?

    Conforme nossos estudos no mestrado ficaram evidenciados que uma das alternativas buscadas pela pessoa para solucionar ou minimizar o problema do mal vivenciado pode ser na religião. As teodicéias explicativas das religiões, com suas terapias espirituais/religiosas, podem fornecer qualidade de vida através das respostas ou rituais para cura ou libertação dos males enfrentados.

    Para Weber (1999) o conceito de teodicéia significa uma ação racionalizada, como as respostas das religiões, das suas concepções, das visões e das cosmovisões sobre Deus, pecado, salvação, injustiça, justiça, imperfeição do mundo, sofrimento, dor e morte.  “O problema da teodicéia encontrou soluções diversas e estas estão numa relação muito íntima com a formação da concepção de deus e também com a das idéias de pecado e salvação” (Weber, 1999, p. 351).

    Já para Berger (1985. p. 70-1)

    Se uma teodicéia responde, de qualquer maneira, a essa indagação de sentido, serve a um objetivo de suma importância para o indivíduo que sofre, mesmo que não envolva uma promessa de que o resultado final dos seus sofrimentos é a felicidade neste mundo ou no outro [...]. Os ‛ganhos’ da teodicéia para a sociedade devem ser entendidos de um modo análogo aos que são proporcionados ao indivíduo. Coletividades inteiras adquirem a possibilidade de integrar eventos anômicos, agudos ou crônicos, no nomos estabelecido na sua sociedade.

    Sendo assim a religião tem a resposta ao mal, tenha ele, o mal, o nome que tiver. Aquele que crê busca a instituição religiosa ou o espaço sagrado e realiza todos os rituais a fim de encontrar a qualidade de vida almejada.

    Resumindo a religião ajudou profissionalmente: por ser o local onde houve refazimento, reabastecimento de energia, esclarecimento, conscientização, gerando equilíbrio, paciência, tolerância, compreensão, tranqüilidade, força, aprendizado para conviver com os diferentes, respostas, paz, serenidade, humanização e sentido de vida. Essa experiência religiosa proporcionou às pessoas, que buscaram a terapêutica Espírita, o significado, a motivação, o prazer, os meios e os instrumentos para o enfrentamento dos problemas, sejam eles quais forem em especial no cotidiano profissional (Santos, 2004).

    5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

    Esperamos ter contribuído com as nossas provocações e colocado mais lenha nessa fogueira do problema do mal, a partir do enfoque do burnout na educação. Esse é um debate, concordando com Souki (2007), que é desafiante.

    A crise da modernidade pode ser exemplificada na metáfora do jardineiro que separa as ervas daninhas das plantas que ele considera mais importante. Tivemos ao longo do processo histórico exemplos de diversas teorias científicas, que fundamentaram essa concepção da jardinagem ao longo do século XIX e XX. As conseqüências dessa teoria jardineira acabaram sendo materializada na prática, no passado, através do Holocausto, do racismo, do Q.I., do modelo educacional e Estatal excludente (Bauman, 1999, p. 9-61). 

    Podemos também analisar essa metáfora do jardineiro, a partir das interpretações e representações simbólicas do mal, a partir do paralelo do caos e da ordem, ocasionado por estar em burnout:

    O caos, ‘o outro da ordem’ , é pura negatividade. É a negação de tudo o que se empenha em ser. É contra essa negatividade que a positividade da ordem se constitui. Mas a negatividade do caos é um produto da autoconstituição da ordem, seu efeito colateral, seu resíduo e, no entanto, condição ‘sine qua non’ da sua possibilidade (reflexa). Sem a negatividade do caos, não há positividade da ordem; sem o caos, não há ordem. (Bauman, 1999, p. 15)

    O caos estar em burnout. A ordem pode ser as teodicéias explicativas sobre o problema desse mal. A cura pode ser fornecida pelas terapias espirituais/religiosas como tratamento desse caos. Nas interpretações do problema do mal, no nosso caso estar em burnout, caos e ordem caminham juntas e iluminam a nossa estrada onde flores e ervas daninhas convivem no mesmo espaço.

    Como disse Passos (2004) “a cura de Burnout, em nós, é a cura da escola; é a cura das relações materiais e sociais de produção...”. Seria a representação simbólica, do caos e da ordem, a biodiversidade na floresta da vida. Sendo assim, as religiões podem trazer sentido e significado de vida no trabalho. As mesmas podem deixar de ser um mercado de ofertas simbólicas, na disputa do cliente para suas terapias espirituais/religiosas (Bourdieu, 2001, p. 34-78). Para se tornarem em alternativas de qualidade de vida no trabalho.

    A partir da compreensão do Holos = Totalidade do problema do mal, no nosso caso a burnout na educação, conforme citação de Sanford sobre Jung (1988) e Arntz (2007) é romper com o paradigma mecanicista, fragmentalista das especializações e percebermos as interdependências das partes. É permitir emergir, despertar uma nova consciência holística, onde “somos todos um”. Sendo assim as representações simbólicas do mal não será vista de forma fragmentada e nem acusaremos o outro dos males existente em sociedade ou nas culturas ou nas religiões. A interdependência de tudo e de todos os seres vivos existentes no planeta terra, emergirá como uma nova consciência responsável pela qualidade de vida (Arntz, 2007). 

    Poderemos ressignificar nossos modelos e percepções sobre a vida, sobre as religiões, sobre o problema do mal. A ordem estabelecida não será de quem tem mais poder ou ocupa o lugar de destaque em sociedade. A ambivalência do ser retorna à essência divina, o sagrado ganha sentido e significado, consequentemente o local de trabalho, a profissão torna-se prazerosa.  Para exemplificarmos essa reflexão, observemos a citação logo abaixo e vamos aprender um pouquinho com o sábio Weber, pois temos que tomar:

    ‘Cuidado, o diabo é velho; envelhecei também para compreendê-lo’. Isto não significa a idade, no sentido da certidão de nascimento. Significa que se desejarmos haver-nos com esse diabo teremos de não fugir à sua frente, como gostam de fazer tantas pessoas, hoje. Em primeiro lugar, temos de perceber-lhe os processos, para compreender seu poder e suas limitações. A ciência hoje é uma ’vocação’ organizada em disciplinas especiais a serviço do auto-esclarecimento e conhecimento de fatos inter-relacionados... O destino de nossos tempos é caracterizado pela racionalização e intelectualização e, acima de tudo, pelo ‘desencantamento do mundo’. Precisamente os valores últimos e mais sublimes retiraram-se da vida pública, seja para o reino transcendental da vida mística, seja para fraternidade das relações humanas diretas e pessoais. Não é por acaso... (Weber, 1982, p. 179-180;182)

    Finalizando, a representação do mal está simbolicamente representada em diversas vestimentas que escondem os porquês dos males na educação. Claro que não foi o nosso propósito analisar todos os males educacionais. Mas sim apresentar a você leitor/a outro olhar na perspectiva das ciências da religião.  Como vimos nesse artigo às conseqüências da burnout na qualidade de vida no trabalho evidenciam-se ser desastrosas. Os teóricos estudados no seminário interdisciplinar sobre o mal forneceram diversas pistas sobre as interpretações e representações simbólicas do problema do mal conforme o enfoque da antropologia da religião, da literatura sagrada ou da sociologia da religião. Claro que privilegiamos alguns autores para a nossa analise, em detrimentos de outros olhares, e acrescentamos outros que não foram estudados no seminário, mas que consideramos relevantes para a compreensão das provocações expostas nesse artigo.

    BIBLIOGRAFIA:

    ARNTZ, William. Quem somos nós? A descoberta das infinitas possibilidades de alterar a realidade diária. Tradução de Doralice Lima. Rio de Janeiro: Prestígio, 2007.

    BARASUOL, Evandir Bueno. Burnout e docência: sofrimento na inclusão. Três de Maio: Setrem, 2005, p. 41-59.

    BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e ambivalência. Tradução Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999, p. 9-61.

    BERGER, Peter. O dossel sagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião. Tradução de José Carlos Barcelos. São Paulo: Paulinas, 1985.

    BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. 5. ed. São Paulo: Perspectiva, 1998. p. 34-78; 45-57; 69-78.

    CODO, Wanderley (Coord.). Educação: carinho e trabalho. 3. ed. Petrópolis: Vozes; Brasília: Ed. da UnB, 1999.

    CODO, Wanderley; VASQUES-MENEZES, Iône. Burnout: sofrimento psíquico dos trabalhadores em educação. São Paulo: Kingraf, out. 2000. (Cadernos de saúde do trabalhador, INST/ CUT-Brasil)

    CROATTO, José Severino. As linguagens da experiência religiosa: uma introdução à fenomenologia da religião. Tradução de Carlos Maria Vasquez Gutiérrez. São Paulo: Paulinas, 2001, p. 118- 121.

    JUNG, Carl Gustav. A vida simbólica: escritos diversos. Tradução de Araceli Elman, Edgar Orth. Petrópolis: Vozes, 1997. V. XVIII/1.

    PASSOS, Luiz Augusto. Retrato bem temperado da cultura escolar brasileira. In: SILVA, Ainda Maria Monteiro; AGUIAR, Márcia Ângela da Silva. Retrato da escola no Brasil. Brasília: ArtGraf, 2004, p. 52-56.

    SANFORD, John A. Mal, o lado sombrio da realidade. Tradução de Sílvio José Pilon e João Silvério Trevisan. São Paulo: Paulus, 1988, p. 162-194.

    SANTOS, Genivalda Araujo Cravo dos. 2004. Educação, profissão perigo. Burnout, depressão e o tratamento espiritual no Espiritismo. Mestrado. Dissertação. Goiânia: Universidade Católica de Goiás.

    SANTOS, Genivalda Araujo Cravo dos Santos. Educação profissão perigo: burnout, depressão e tratamento espiritual no Espiritismo. In: LEMOS, Carolina Teles (org.) Religião e Saúde. Goiânia: Deescubra, 2007, p. 39-69.

    SOUKI, Nádia. O problema do mal em Hannah Arent. In: II Simpósio Internacional de Teologia e Ciências da Religião. Belo Horizonte: Primacor, 2007, p. 43-60.

    SCHIAVO, Luigi. O mal e suas representações simbólicas. In: Estudos da religião 19, São Bernardo do campo: UMESP, 2000, p. 65-83.

    SCHIAVO, Luigi. Como é sentir o calor? A história de Lúcifer que se tornou demônio por causa da mulher. In: Estudos Bíblicos 72, Petrópolis: Vozes, 2001, p. 73-89.

    WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Tradução de Regis Barbosa e Karen Elsabe Barbosa. Brasília: Ed. da UnB, 1999. p. 3-17;279-320;350-404. (V. I).

    WEBER, Max. Ensaios de sociologia. Rio de Janeiro: LTC, 1982, p. 97-183.

    ARTIGO: TECENDO ALGUNS ASPECTOS IDENTITÁRIOS E PSICOLOGICOS DO FUNDAMENTALISMO

    TECENDO ALGUNS ASPECTOS IDENTITÁRIOS E PSICOLOGICOS DO FUNDAMENTALISMO

    Genivalda Araujo Cravo dos Santos[1]

     

    Resumo: O objetivo desse artigo é refletir, a partir dos autores aqui citados, alguns aspectos identitários e psicológicos contidos no fundamentalismo. Desta forma citaremos alguns casos exemplos de fundamentalismo religioso e econômico/político. Esperamos tecer algumas características históricas e sociológicas desses aspectos e apontar possíveis correlações entre os diversos tipos de fundamentalismos.

    Palavras-chave: Fundamentalismo, Aspecto identitários e psicológico, Religião

     

    Definiré el fundamentalismo, según mi proprio entendimento, como la construcción de la identidad colectiva a partir de la identificación de la conducta individual y las instituciones de la sociedad con las normas derivadas de la ley de Dios, interpretada por una autoridad definida que hace de intermediario entre Dios y la humanidade. (CASTELLS, Manoel. La era de la información. Economía, sociedad y cultura. Vol. 2. El poder de la identidad. Madrid: Alianza Editorial, 1998, p. 35)

     

    O objetivo desse artigo é refletir, a partir dos autores aqui citados, alguns aspectos identitários e psicológicos contidos no fundamentalismo. Desta forma citaremos alguns casos exemplos de fundamentalismo religioso e econômico/político. Esperamos tecer algumas características históricas e sociológicas dos aspectos identitários e psicológicos do fundamentalismo. No final do artigo apontaremos algumas provocações, a luz do estudo realizado.

    Primeiramente vamos compreender a origem da palavra fundamentalismo e logo a seguir vamos tentar realizar um paralelo entre as características do fundamentalismo religioso e fundamentalismo econômico/político.

    O termo ‘fundamentalismo’ veio à luz num contexto histórico determinado, coincidente com a passagem do século XIX ao XX, quando um grupo de protestantes ultraconservadores, nos EUA, denominou a si mesmo fundamentalista, ao procurar resgatar os significados originais – ou fundamentos – da revelação bíblica. Essa procura exprimia a reação de tal grupo à excessiva secularização da sociedade americana, que produzia a indiferença religiosa ou pelo menos uma interpretação labial, historicizada, do texto sagrado. (Micheloto, 2002, p. 19)

    Observemos o quadro abaixo:

    FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO

    CACTERÍSTICAS

    Fundamentalismo Cristão: revisão teológica de declaração de fé Batista de 2000

    §       A inerrância da Bíblia - revelação de Deus; teoria plenária-verbal de inspiração; só são aceitas as Verdades de Deus, do Cristo Jesus, do evangelho; ênfase na pessoa do Cristo Jesus;

    §       Lideranças inerrante, acima de qualquer crítica; dependência de uma teologia tradicional uma luta contra a insegurança; retorno as raízes conservadoras;

    §       A fé cristã inclui declarações de verdade cristalizadas; quem se opõe é maligno/satânico; batalha espiritual; menos responsabilidade humana nas escolhas individuais;

    §       Respostas cristãs para as temáticas polêmicas discordância é heresia;

    §       Corpo doutrinário estático e fechado; frase determinante ‘estas coisas cremos’

    §     Desconfiança de outros cristãos, “nós versus eles”; fragmentação; o inimigo: representação de Satã; Controle das conceituações dos demais; Anula vozes contrarias; polariza as pessoas, classificando-as em categorias com base em supersimplificação de assuntos; ser aderentes a crença torna-se identidade dos Batistas;

    §     A busca de um porto seguro; salvação.

    Fonte: Harbin, 2004, p. 1-19.

    As características do fundamentalismo, conforme síntese acima, não é só restrito ao caso do fundamentalismo Batista, podemos perceber o paralelo com outros fatos históricos ocorridos no passado, como por exemplo: na época da idade média, dos profetas, dos grandes impérios na antiguidade. A diferença que as lideranças não se auto-denominavam fundamentalistas, conforme período histórico citado por Micheloto. Poderíamos dizer que há vários fundamentalismos. Nesse artigo não vamos analisar tal tese, pois a nossa pergunta principal é: Quais os aspectos identitários e psicológicos no fundamentalismo?

    Segundo Castells (1998) a construção identitária se dá a partir de três formas originarias: a) identidade legitimadora: introduzida pela instituição dominante da sociedade frente aos atores sociais, teoria da autoridade e da dominação; b) identidade de resistência: gerada pelos atores que se encontram em posições ou situações estigmatizadas pela lógica de dominação, constroem trincheiras de resistências e de sobrevivências baseadas em princípios diferentes das instituições e da sociedade vigente; c) identidade projetada: quando os atores sociais constroem uma nova identidade redefinindo sua posição na sociedade, buscando a transformação de toda a estrutura social.

    Wasserman (2002) menciona a necessidade que os indivíduos e as coletividades possuem em sentirem-se pertencentes socialmente. Os atores sociais buscam através de experiências reais, significativas e simbólicas esse pertencimento identitário.

    Pertencer a uma comunidade mais ampla do que a comunidade local tem sido a identidade prioritária nos tempos modernos, mas está longe de ser a única... O sentimento de pertencimento, enquanto universo simbólico, imbricado com as experiências concretas da sociedade e o modo de utilização dos símbolos conformam a memória e o passado como verdades inabaláveis desta sociedade. (WASSERMAN, 2002, p. 94; 95)

     

    Analisando o quadro, anterior, a luz dos autores, citados acima, poderemos verificar que o fundamentalismo religioso está baseado nos três modelos de Castells. Dependendo do contexto histórico, das ações e das atitudes das pessoas, do coletivo ou instituição poderá significar simbolicamente um fundamentalismo de identidade legitimadora, identidade de resistência e/ou identidade projetada. No caso analisado, anteriormente, as lideranças religiosas Batistas dão legitimidade ao comportamento da comunidade e suporte psicológico, através: da volta às tradições religiosas e da doutrina, na fé e verdades absolutas vindas de Deus como orientadoras. Quando há oposições, dúvidas, comportamentos considerados desviantes por eles a justificativa para tais ações e atitudes está nas obras de Satanás e do outro ser um herege. Para os fundamentalistas batistas o livro sagrado, no caso deles a Bíblia, responde e direciona a trajetória das suas vidas. Fornecendo dessa forma o caminho da salvação e um porto seguro diante de tantas imoralidades, transformações que ferem os princípios das suas crenças. Nesse caso a teodicéia fundamentalista responde e preenche os vazios nos seus aspectos psicológicos, fornecendo uma identidade cristã Batista. Poderíamos fazer o mesmo paralelo com outras instituições cristãs, mas esse artigo não se propõe a tal estudo. O nosso objetivo nesse artigo é trazer um caso exemplo de fundamentalismo cristão, assim como os demais casos que estaremos analisando logo abaixo, para irmos tecendo os aspectos identitários e psicológicos do fundamentalismo e percebermos as possíveis correlações entre os diversos fundamentalismos.

    Como diz Grof:

    Mestres espirituais de todos os tempos parecem concordar que a busca de objetivos materiais, em si e por si, não pode nos trazer satisfação, felicidade e paz interior. O vertiginoso crescimento da crise global e da deterioração moral e o crescente descontentamento que acompanha o aumento da influência material nas sociedades industriais dão testemunho dessa antiga verdade. Parece haver concordância geral na literatura mística de que o remédio para o mal-estar existencial que assedia a humanidade é voltar-se para seu interior, buscar as respostas em sua própria psique e passar por uma profunda transformação psicoespiritual. (Grof, 2000, p. 321)

    No caso do fundamentalismo religioso cristão Batista, não há um consenso interno na comunidade, Harbin (2004) cita as incoerências teológicas e históricas. Concluindo o seu artigo, dizendo:

    O fundamentalismo modificou a aplicação da declaração de fé batista. De um consenso de opinião entre batistas, passou a ser a definição máxima de ortodoxia. As forças definindo fé como proposicional tanto direcionaram o processo de revisão como guiaram a aplicação do documento, transformando-o num credo – um documento autoritário regendo ortodoxia – nas palavras do preâmbulo da revisão de 2000, ‘um instrumento doutrinário a que se presta contas’. Mesmo que os esforços revisionistas não fizeram algumas das modificações maiores que se podia ter esperado da liderança fundamentalista, promulgou a base para enfatizar conformidade doutrinária, um caráter proposicional da fé, um pano de fundo contribuindo para teologia de inerrância, e estrutura autoritária para que a liderança possa ditar o que o indivíduo deve crer.

     

    Como podemos perceber o fundamentalismo aponta a interdependência entre aspectos psicológicos e a construção de identidades individuais, coletivas e institucionais (WASSERMAN, 2002). Mas essa afirmação não é um consenso entre os estudiosos do fundamentalismo, pois para Micheloto (2002) o fundamentalismo é fruto de processo histórico e das suas conseqüências em sociedade:

    Na realidade, as manifestações históricas do fundamentalismo religioso têm exibido diferenças quanto ao conteúdo ideológico... Temos, portanto, de levar em consideração as condições históricas particulares que envolvem esses fundamentalismos, a fim de traçar análises mais próximas da realidade. (Micheloto, 2002, p. 23-24)

     

    Aqui não vejo contradição, mas olhares que podem indicar complementaridades e não divergências de fundo, apresentando nas entrelinhas aspectos identitários e psicológicos.

    Sendo assim vamos analisar outro caso, o fundamentalismo judeu. Schlegel (2001) caracteriza o fundamentalismo ultra-ortodoxo dos judeus como uma teocracia, o retorno do poder político dos sacerdotes, conforme seus textos internos. Para o autor são as decepções com a modernidade que geram o retorno ao fundamentalista. Com a modernidade, reino da separação, da especialização, da divisão, ocorreu uma mudança cultural e de mentalidade. Frente a essas transformações os fundamentalistas e integristas judeus denunciam a crise da autonomia. Para os judeus o fracasso da modernidade e causado pela ausência de Deus. Utilizam as tecnologias como forma de divulgação e conversão dos não crentes. As tecnologias são consideradas um instrumento neutro, desde que pratiquem os seus rituais sagrados. No campo político recusam a separação entre Estado e religião.

    Para os judeus ultra-ortodoxos é a halacá (a Lei ou a Torá em suas inúmeras aplicações concretas), sem que fique muito claro se os ‘religiosos’ preferem um poder exercido pelos religiosos ou um governo de laicos que apliquem a lei religiosa. (SCHLEGEL, 2001, p. 139)

     

    Sendo assim, “minha convicção é que esses movimentos, com sua violência física e verbal, traduzem um profundo mal-estar interno, uma perda de referências internas, uma crise de identidade social”. (SCHLEGEL, 2001, p. 148)

    Já Neusner (2001, p. 115) afirma que “no sentido estrito, não podemos falar de fundamentalismo no âmbito de nenhum dos judaísmos nem do judaísmo em geral”. Pois a relação entre judaísmo integracionista, que são a maioria dos judeus e detentores do poder político e econômico e o judaísmo segregacionista, minoria que depende financeiramente dos integracionistas. Acaba por criar uma relação de co-dependência econômica entre a minoria e a maioria. Em função disso, para o autor, essa relação impossibilita o avanço do fundamentalismo, pois a co-dependência econômica seria um inibidor. Mas não impediu nesses vinte anos que o judaísmo segregacionista continuasse reunindo-se em comunidades, com peculiaridades diversas.

    Neusner (2001) apresenta alguns traços comuns em meio à diversidade do judaísmo segregacionistas: todos rejeitam qualquer forma de relação com o mundo exterior; todos têm uma visão exclusiva da verdade; todos rejeitam a idéia de política enquanto prática com objetivos comuns a diversas pessoas, “vêem o mundo do político como um meio de melhorar a sua própria situação ou uma fonte de ameaças para a autonomia e a integridade da comunidade” (Neusner 2001, p. 118). Em nossa opinião há uma contradição nos argumentos do autor. Ao mesmo tempo em que ele diz que a correlação de forças econômicas inibe o avanço do fundamentalismo; ele também fornece características do fundamentalismo segregacionista. Afinal existe ou não fundamentalismo no meio dos judeus?

    Poderemos dizer que como Karff (2001) a maioria esmagadora dos judeus rejeitam o fundamentalismo e rejeitam o modo de vida segregacionista. Mas mesmo assim a reafirmação das tradições dentro do judaísmo acaba por legitimar ações que demonstram práticas fundamentalistas. 

    Mas não basta apresentar argumentos sólidos e válidos contra as tentativas fundamentalistas de deslegitimação do resto de nós.  Nós, judeus não fundamentalistas, também devemos abordar as questões desconcertantes que se colocam em nosso próprio campo e não recuar diante de uma autocrítica construtiva... Se a excessiva rigidez é inimiga da vitalidade e da sobrevivência judaica, devemos concordar que uma atitude flexível de adaptação, que ignore os limites e perca a capacidade de dizer não à cultura ambiente e a nós mesmos, também o é. (KARFF, 2001, p. 122)

     

    A pluralidade religiosa judaica nós diversos países onde se fazem presente acaba por legitimar uma ação voltada para as sinagogas, para as instituições educativas e sociais como forma de integração inter-religiosa e socio-política mais ampla (KARFF, 2001, p. 126). Mesmo com toda essa disposição e sentimento identitário consigo mesmo, com o outro e uma boa relação de convivência com os fundamentalistas judeus, os não fundamentalistas do judaísmo do Norte,  americano e Israelense, vêem como desafio essa relação inter-religiosa.

    Como podemos perceber há indícios de pontos em comum entre o fundamentalismo cristão e judaico, dessa forma temos os fundamentalismos, cada um defendendo a sua identidade, o seu ponto de vista sobre o outro. O sentimento de pertencimento está baseado nas tradições, nas doutrinas, na fé incondicional, na autoridade da liderança, nos livros sagrados como verdade de fé e revelação da palavra do Deus de cada fundamentalista religioso ou econômico/político. Tudo colabora na formação das características psicológicas do ser fundamentalista. O apelo a violência, seja ela física, simbólica ou psicológica, justifica-se para aqueles que são fundamentalistas. Pois o outro é o inimigo, seria a representação de Satã, do mal social.  O dialogo inter-religioso poderia ser ameaçado caso a maioria dos líderes religiosos fossem fundamentalistas e encastelados em suas verdades sagradas. Sendo assim observemos a citação logo abaixo:

    Manuel Castells defende ponto de vista muito próximo desse, ao afirmar que a contrapartida de uma globalização desigual quanto aos seus efeitos é o encastelamento de determinados grupos locais, regionais e até nacionais, a partir de posições sectárias ou fundamentalistas. Há, segundo esse autor, um traço comum entre os distintos grupos e movimentos fundamentalistas que grassam no ex-Terceiro Mundo (a exemplo do fundamentalismo islâmico, o Sendero Luminoso e os khmers vermelhos de Pol Pot, sendo o primeiro de base especificamente religiosa): esse traço comum seria a ‘oposição global e não negociável a um modelo de desenvolvimento que ameaça dissolver as identidades culturais pre-existentes’. (Micheloto, 2002, p. 20)

    A partir dessa citação vamos tentar compreender um pouco sobre o fundamentalismo econômico/político e realizar uma correção com o fundamentalismo religioso.

    No artigo “Mudanças na Declaração de Helsinki: fundamentalismo econômico, imperialismo ético e controle social” de Garrafa e Prado (2001) exemplifica como pode ocorrer o fundamentalismo econômico/político e científico através do descumprimento de acordos e normas internacionais, no que diz respeito à metodologia de pesquisa com seres humanos.

    O presente trabalho consiste em uma reflexão crítica sobre as tentativas de alterações na Declaração de Helsinki, entendida como um dos documentos que representam as teses democráticas vencedoras da segunda metade do século passado, portanto, patrimônio da humanidade, pelo seu valor de referência como diretrizes éticas a serem observadas em pesquisa envolvendo seres humanos... Este estudo analisa fatos atuais relacionados com pesquisas com sujeitos humanos, desenvolvidas em países chamados ‘periféricos’ ou ‘em desenvolvimento’. E, também, faz uma interpretação sócio-política da questão, em que se evidencia que o fundamentalismo econômico por parte dos países ricos resulta em um inevitável imperialismo ético, expondo ainda mais as comunidades dos países pobres à vulnerabilidade, discriminação e exclusão social. (Garrafa; Prado, 2001, p. 1489)

     

    Para os autores o poder econômico dos laboratórios de medicamentos e os interesses dos países mais ricos acabam por influenciar alguns cientistas e políticos no que diz respeito à metodologia de pesquisa com determinados grupos humanos. A justificativa é o bem das invenções científicas e o beneficio a toda humanidade, mesmo com o sacrifício de alguns. A ética científica fica relegada aos resultados e aos lucros de laboratórios e pessoas interessadas. Os autores mencionam, no artigo, as estratégias de poder utilizadas para modificar normas e convenções internacionais a fim de facilitar os procedimentos éticos de pesquisa de campo com humanos no mundo. Acabam por denunciar perseguições, manobras, conflitos éticos e de poder e os fundamentalismos em nome da ciência e do poder econômico.

    Qual o paralelo entre as reflexões sobre fundamentalismo econômico e o fundamentalismo religioso? Percebemos alguns pontos em comum entre ambos os fundamentalismos: 1º uma maioria defendendo os interesses da humanidade e uma minoria defendendo os interesses econômicos e políticos; assim como no caso dos batistas fundamentalistas que modificaram o documento teológico da declaração de fé Batista de 2000, os fundamentalistas econômicos conseguiram tecer modificações que podem comprometer a ética científica com humanos; 2º  os argumentos dos que defendem a tese ‘da urgência’, a fim de salvar vidas ferindo as exigências éticas, são parecidas com a tese dos fundamentalistas em defesa das tradições como salvadora da maioria diante do demônio da modernidade e da imoralidade; 3º a doutrina “tudo em nome da ciência ou do poder econômico” , não difere de “tudo em nome de Deus ou de Jesus Cristo”. Esperamos que esses três argumentos suscitem o debate e estudos comparativos sobre os fundamentalismos.   Vamos analisar outro caso, relacionando fundamentalismo religioso com violência política.

    Micheloto (2002) no seu artigo “Fundamentalismo religioso e violência política: ensaio sobre possíveis relações”, aborda brilhantemente o contexto histórico do fundamentalismo, os desdobramentos com a modernidade, analisando o caso exemplo dos mulçumanos iranianos e a violência política. O autor conceitualiza religião conforme Weber e Bourdieu “pois a religião em geral e as religiões particulares que conhecemos são nada menos e nada mais que produções simbólicas” (Micheloto, 2002, p. 18). Defendeu a tese, no artigo, que não é o fundamentalismo que gera a violência, como no Islamismo – os homens bombas – mas a ação consciente política de líderes que utilizam da religião para legitimar as suas ações contra o ocidente e a modernidade. Menciona que não há um tipo de fundamentalismo, mas vários fundamentalismos, que não são herança da transição entre o século XIX e XX, quando protestantes nos EUA se autodenominaram fundamentalistas, a fim de defender a bíblia, seus princípios e valores. Esclarece que na história da humanidade ocorreram diversos casos de fundamentalismo cita o exemplo dos profetas na antiguidade.

    É provável que o fundamentalismo ou os fundamentalismos, como formas simbólicas e comportamentos individuais e coletivos determinados, tenham se manifestado em diferentes conjuntos históricos, inclusive anteriormente àquela inicialmente citada...

    Dentre as várias manifestações de fundamentalismo, religiosos e outros, é o fundamentalismo islâmico o que tem alcançado maior notoriedade nos últimos tempos, graças aos eventos americanos e à atuação da mídia, principalmente devido ao poder amplificador desta junto à opinião pública. (Micheloto, 2002, p. 20;24)

     

    No artigo o autor vai descontextualizando historicamente a associação entre fanatismo religioso e fundamentalismo como algo intrínseco dos mulçumanos. Esclarece que há uma falsa interpretação da cultura-religiosa dos mulçumanos, nos seus termos simbólicos religiosos e apropriação por parte de alguns líderes para interesses políticos. Daí o argumento do autor de fundamentalismo político violento.

    São as situações de destradicionalização agressiva que predispõem à emergência de fundamentalismo... destrói as comunidades locais, as bases econômicas, políticas e culturais em que se assentam, sem, contudo, garantir a essas populações o acesso senão fragmentado à modernidade... Ao passar, a modernidade de tipo ocidental danifica muitas identidades, individuais e grupais, predispondo-as, frequentemente, senão à revolta pelo menos a um estado de crise permanente. São esses estados de rebelião ou de crise que podem ser catalizados por certas religiões ou certas lideranças religiosas, nascendo daí os fundamentalismos, violentos ou não. (Micheloto, 2002, p. 28-29)

     

    Nesse caso, Micheloto (2002), menciona o fundamentalismo de resistência, onde envolveu violência, como no caso de Canudos através do seu líder Antonio Conselheiro. As pessoas lideradas por Antonio Conselheiro, na guerra de Canudos, lutavam em defesa da sua identidade grupal, espaço geopolítico e qualidade de vida adquirida e não contra a modernidade.  Discorda que o fundamentalismo de agora seja o mesmo do passado, menciona que esses elementos diferenciadores são conseqüência da globalização e dos seus desdobramentos. Nos aspectos identitários o autor concorda com Castelli que considera o modelo de fundamentalismo existente hoje, como resistências ou afirmações de identidade grupal ou individual girando em torno de um líder individual, mas carismático que representa a oferta do mercado simbólico

    Para Micheloto (2002) a falta de utopias leva as pessoas para as religiões e isso não significa que todos os fundamentalismos sejam violentos ou contra o outro de forma satanizadora e endemoniadora. Mas fruto da desterritorização, da falta de identidade individual ou grupal e das perdas de referencias. Para o autor não são apenas os aspectos psicológicos que explicam o fundamentalismo atual e sim o contexto histórico, as conseqüências da globalização, as atitudes e ações derivadas dessa modernidade expropriadora, deslegitimadora dos valores humanos e consequentemente desumanizadora. Como já mencionamos, anteriormente, essas reflexões são complementares e não contraditórias para tecermos possíveis indícios dos aspectos psicológicos, dos indivíduos e dos grupos sociais, nos aspectos identitários do fundamentalismo.

     O fundamentalismo pode ser considerado ambivalente? “A oposição nascida do horror à ambigüidade, torna-se a principal fonte de ambivalência” (Bauman, 1999, p. 70). Fazendo um paralelo com Bauman (1999, p. 9-84) podemos tecer alguns fios sobre a formação e a construção nos aspectos identitários e psicológicos do fundamentalismo. Utilizando, como por exemplo, a teoria do estranho, do Outro, do estigmatizado, da ambivalência da linguagem: relação amigo/inimigo.

    As definições desumanizadoras do inimigo não são novas na história do homem e de modo algum um aspecto peculiar da idade moderna... A defesa do próprio direito de viver requer uma negação desse direito ao outro. Em tal configuração, o Outro não precisa  - ou assim parece – ser definido. O Outro define-se – como inimigo – quando lança o respeito alheio por sua identidade moral em conflito com a proteção da identidade alheia. Só se pode desprezar o fato de que ele é ‘um inimigo’ com risco para si. (Bauman, 1999, p. 54)

     

    O autor vai desvelando, no seu estudo, o que está por traz do grito fundamentalista: a defesa da sua identidade e a resistência ao Estado-moderno-liberal que busca enquadrar a todos.

    Existem amigos e inimigos. E existem ‘estranhos’. Amigos e inimigos colocam-se em oposição uns aos outros. Os primeiros são o que os segundos não são e vice-versa... Está é uma variação da oposição-chave entre interior e exterior. O exterior é negatividade para a positividade interior. O exterior é o que o interior não é. Os inimigos são a negatividade da positividade dos amigos. Os inimigos são o que os amigos não são. Os inimigos são amigos falhados; eles são a ‘selvageria’ que viola a ‘domesticidade’ dos amigos, a ‘ausência’ que é uma negação da ‘presença’ dos amigos... Só cristalizando e solidificando o que eles não são (ou o que eles não querem ser ou o que não diriam que sejam) na contra-imagem dos inimigos é que os amigos podem afirmar o que são, o que querem ser e o que querem que se pense que são. (Bauman, 1999, p. 62)

     

    Esperamos ter tecido alguns aspectos identitários e psicológicos do fundamentalismo ou dos fundamentalismos. Nesse artigo não nos debruçamos no conceito de identidade e nem na formação e nas concepções de aspectos psicológicos. Os autores escolhidos aqui neste artigo foram oportunidades de dialogo conceitual e teórico sobre o fundamentalismo. Pensava em fazer um estudo antropológico e me vi numa reflexão sociológica e histórica do fundamentalismo. Trilhar esse caminho não foi algo fácil! Mas fizemos algumas descobertas, algumas provocações ou somente problematizamos, a partir do estudo realizado nesse artigo, logo abaixo um resumo dessas reflexões:

    1.      O fundamentalismo e as suas características não se resumem somente a aspectos religiosos, podemos tecer uma interface com a economia, a política, cultura, produção científica, dentre outros. Os fundamentalismos, se assim quisermos mencionar, não se resumem somente a um período histórico, a partir das idéias aqui mencionadas, poderemos utilizar da imaginação histórica e ir contextualizando outras experiências fundamentalistas e poderemos verificar que ele está mais vivo do que nunca.

    2.       Poderemos classificar o fundamentalismo em vários tipos, conforme os autores citados no artigo, as imagens que temos dos homens-bombas, da violência contra o ocidente e a modernidade camuflam as resistências contra um modelo - econômico, político, cultural - falido que atravessa uma das maiores crises de existência e essas ações são, também, denuncias das contradições do capitalismo.  

    3.      Percebemos, nas leituras, que existem pesquisadores éticos, pessoas de coragem e ousadas que denunciam a farsa das palavras ambivalentes que escondem o desejo do poder acima de tudo e em nome de Deus. Vimos que por detrás de um projeto fundamentalista está interesses que defendem uma verdade absoluta, em detrimento do respeito e da tolerância a diversidade, a pluralidade e ao dialogo inter-religioso/econômico/político/cultural.

    4.      Por detrás de qualquer tipo que seja de fundamentalismo está à busca de uma referencia de identidade individual, grupal e/ou institucional. Está o desejo de acalmar a consciência, as emoções, retirar a insegurança, as incertezas, sair do caos da angústia, da frustração, das decepções. A busca de um porto seguro, de um sentido de vida e de se salvar. Construindo a partir dessa experiência identidades legitimadoras, identidade de resistência e/ou identidade projetada.

    5.      O fundamentalismo denuncia as ambivalências da modernidade, da globalização, das incertezas e crises existências, individual, grupal e/ou institucional. Um novo está sendo tecido, não sabemos ainda o que será ou como será! Será que realmente está ressurgindo um novo? Que novo? Será que os fundamentalistas vão convencer a maioria que eles estão com a razão e nós é que estamos errados? Poderemos estabelecer na sociedade mundial um dialogo inter - religioso, político, econômico, cultural de forma respeitável e solidária?  Até quando ficaremos nesse jogo de cão e gato: “Eu tenho a verdade e eu represento Deus; o meu livro sagrado disse... Vocês são...”?

    Encerramos esse artigo com essas reflexões e provocações. Esperamos ter contribuído de alguma forma com os estudos sobre o fundamentalismo. Tal assunto é ao mesmo tempo atual e tão antigo na história da humanidade no que diz respeito aos seus reflexos negativos, positivos e/ou neutro.

     

    Bibliografia

    BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e ambivalência. Tradução Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999, p. 9-61; 62-84.

    CASTELLS, Manoel. La era de la información. Economía, sociedad y cultura. Vol. 2. El poder de la identidad. Madrid: Alianza Editorial, 1998, p. 28-49.

    HARBIN, Christopher B. O impacto do Fundamentalismo na Revisão Teológica da Declaração de fé Batista de 2000. Aula Inaugural 25º Aniversário do Seminário Teológico Batista do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Copyright, 2004, p. 1-19. Site www.rocksbc.org/sermons/pdf/Impacto_Fundamentalista.pdf. Consulta 21/01/2008.

    WASSERMAN, Claudia. Problemas teóricos que envolvem a questão da identidade coletiva e a formação de novas identidades. In: Semina: Ciências Humanas e Sociais, Londrina, v. 23, set. 2002, p. 93-100.

    GARRAFA, Volnei; PRADO, Mauro Machado do. Mudanças na Declaração de Helsinki: fundamentalismo econômico, imperialismo ético e controle social. In: Caderno Saúde Pública. Rio de Janeiro, v. 17 n. 6, nov./dez., 2001, p. 1489-1496.  Site http://www.scielosp.org/pdf/csp/v17n6/6975.pdf. Consulta 21/01/2008.

    GROF, Stanislav, Psicologia do futuro: lições das pesquisas modernas da consciência. Tradução de Jussara de Avellar Serpa. Niterói: Heresis, 2000, p. 317-344.

    MICHELOTO, Antonio Ricardo. Fundamentalismo religioso e violência política: ensaio sobre possíveis relações. In: Revista Múltipla, Brasília, v. 7 n. 12, jun. 2002, p. 17-36. Site http://www.upis.br/revistamultipla/multipla12.pdf#page=17. Consulta 21/01/2008.

    NEUSNER, Jacob; KARFF, Samuel. O fundamentalismo judeu. In: FUNDAMENTALISMO, INTEGRISMOS: uma ameaça aos direitos humanos – ACAT. São Paulo: Paulinas, 2001, p. 113-128.

    SCHLEGEL, Jean-Louis. Fundamentalistas e integristas ante a modernidade. In: FUNDAMENTALISMO, INTEGRISMOS: uma ameaça aos direitos humanos – ACAT. São Paulo: Paulinas, 2001, p. 129-149.



    [1] Doutoranda e Mestre em Ciências da Religião UCG/GO; professora da Educação básica SEE/GO e SME-Goiânia.

    A SAÚDE DOS /AS TRABALHADORES EM EDUCAÇÃO

     

     

    A SAÚDE DO/A TRABALHADOR/A EM EDUCAÇÃO

     

    Doutoranda e Mestre em Ciências da Religião Genivalda Araujo Cravo dos  Santos (UCG/SEE/SME) genivaldacravo@ig.com.br

     

    RESUMO: O objetivo deste artigo é refletir sobre o adoecimento das trabalhadoras em educação da rede pública , em especial quando acometidas com a síndrome de Burnout, depressão, distúrbios vocais e o tratamento espiritual no espiritismo. A nossa metodologia científica foi desenvolvida com base em um olhar holístico, fenomenológico e qualitativo e constatamos que a educação é uma profissão perigo. Através do olhar das entrevistadas, dos pesquisadores e do espiritismo concluímos que a religião, na busca das pessoas pela saúde, desempenha o papel de proporcionar conforto, respostas aos porquês das doenças; e que as trabalhadoras em educação buscam, no espiritismo, o tratamento espiritual das doenças pela crença no restabelecimento da vida simbólica e da nomia por meio da teodicéia explicativa oferecida por esta expressão religiosa.

    Palavras-chaves: Educação, Saúde e Religião

    Pesquisas desenvolvidas no final da década de 1990 pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), em parceria com o Laboratório de Psicologia e Trabalho da Universidade Federal de Brasília (LPT/UnB), sobre o impacto da profissão na saúde mental das trabalhadoras em educação diagnosticaram o alto índice da síndrome de burnout. Para Codo (1999), esse quadro indica um grave problema, o qual poderá levar à falência da educação. Esta doença, que afeta a saúde mental da trabalhadora em educação, forma um quadro de desalento, desmotivação, apatia, perda de energia, desistência e isolamento da sociedade, podendo culminar na depressão, exigindo tratamentos psiquiátricos, psicológicos e, até mesmo, licenças para tratamento de saúde.

    Levantamento realizado no Programa de Saúde no Serviço Público do Estado de Goiás constatou um aumento de licenças para tratamento de saúde por transtornos mentais no ano de 1999, com um total de 2.163 pessoas; no ano de 2000, um total de 2.496 pessoas; em 2001, 3.686 pessoas; no primeiro semestre de 2002, 3.001 pessoas. A maioria dessas licenças é concedida às trabalhadoras em educação. Na rede municipal de educação de Goiânia, o número de licenças médicas das trabalhadoras em educação para tratamento de saúde por transtornos mentais de setembro a dezembro de 2002 foi de 170 e de janeiro a abril de 2003, foi de 120. Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) indicam que, em 1999, 330 milhões de pessoas no mundo sofreram de depressão, conforme Pasquali e Tracco (2003, p. 12-4): “de cada 20 pessoas, três vão ter pelo menos um surto depressivo na vida [...] só no Brasil serão mais de 10 milhões de vítimas do mal”.

    Em Goiás, há pouca notificação de problemas vocais relacionadas ao trabalho na Educação. Em 2002, foram relacionados 123 professores que solicitaram licenças e/ou readaptação de função por motivo de nosologia relacionada ao uso excessivo de voz. Durante a realização de exames admissionais para o cargo de professor do Estado, em 2004, foram detectadas anomalias nas pregas vocais em 58 deles (GESEG, 2005). No Brasil, os prejuízos, apenas em termos de professores afastados, advindos das enfermidades vocais relacionadas ao trabalho, representam mais de duzentos milhões de reais (CNVP, 2004). As condições de trabalho docente, dado à sua precariedade, são vistas como verdadeiras fontes geradoras dos distúrbios vocais e do estresse, podendo-se estabelecer uma relação entre os mesmos e as condições efetivas de trabalho nessa categoria.

     

    ALGUMAS FUNÇÕES, PAPÉIS, RESPONSABILIDADES E PERFIS PROFISSIONAIS DAS TRABALHADORAS EM EDUCAÇÃO

    A pessoa que trabalha na educação geralmente tem família, filhos, e, para sobreviver, tem, muitas vezes, tripla jornada de trabalho, com uma média de 35 a 40 alunos por turma, ou até mais. Além disso, ela precisa estar atualizada diante das mudanças que ocorrem no mundo do trabalho, da educação, da sua cidade, do estado e do país; precisa lutar por carreira, salário, valorização profissional e direitos trabalhistas.

     [...] Não é fácil você estar lidando com vidas e vidas e vidas futuro, e imagine você ficar de manhã, a tarde e a noite porque se você for observar a estatística, a maioria dos professores precisam, não é porque eles querem para fazer bonito [...] não, eles precisam para poder sobreviver, viver um pouco com dignidade. [...] para tentar melhorar o nosso salário, a nossa casa [...] (Catarina).

    O depoimento anterior e o seguinte complementam-se e esclarecem, também, o papel, as responsabilidades e a função que o educador exerce na sua profissão, que ocasionam até o desejo de desistir da educação em função das exigências, cobranças e mal-estares vivenciados no cotidiano do trabalho:

    Cada dia que passa está cada vez mais difícil de trabalhar com a educação. Eu já tentei sair da educação por três vezes e não consegui. [...] O atual contexto que eu estou em sala de aula 35 alunos, alunos difíceis de convivência, alunos sem limites, que a família nunca consegue por limite [...]. Tenho 05 turmas no Estado e 02 turmas no município [...] (Suelen).

    Enfim, as trabalhadoras em educação desempenham múltiplas responsabilidades no cotidiano da escola, por exemplo planejamento escolar e elaboração do Projeto Político Pedagógico (PPP), algumas participam do Conselho Escolar, outras cuidam do espaço físico, dos multimeios didáticos, da segurança dos estudantes, da alimentação, da infra-estrutura escolar, acrescentando, ainda, na sua rotina, as funções que envolvem outras tarefas, como Programa de Desenvolvimento Escolar (PDE), Programas de Formação Continuada e de avaliação escolar. Segundo Rodrigues et alii (2003, p. 72), “todo esse processo de envolvimento nas discussões e na tomada de decisões no âmbito educacional gera uma sobrecarga de atividades”. O depoimento da entrevistada logo a seguir irá esclarecer e contextualizar a afirmação de Rodrigues et alii (2003):

    Eu convivo diariamente com 1.200 pessoas, são 1.200 alunos nessa escola, sem contar com pais ou os responsáveis, [...] além dos funcionários. É essa profissão que você acaba sendo o professor, o educador, um pouco mãe, um pouco amigo. Então sempre os problemas vêm pra cima da gente. [...] Fora o papel do que dizem que é minha obrigação eu tenho que cumprir 10 horas, 10 tempos na escola então se são 05 dias eu teria que cumprir 02 períodos, no entanto não é esse tempo que a escola necessita e também dentro do que eu tenho condição física de fazer. Então eu acho que o gestor [diretor] ele tem que estar integrado em tudo, pedagógico e administrativo, então desde uma coisa que estraga, desde o planejamento que vai fazer com a verba que vem pra escola, de estar promovendo conciliação entre as pessoas; porque no trabalho eu tenho 30 pessoas por turno, 30 funcionários por turno e as divergências tem que ser conciliadas é um papel imprescindível para o gestor. O pedagógico é minha paixão. Então [...] eu faço questão de acompanhar, eu sei de todos os projetos que estão sendo trabalhados, eu sei o que cada professor está fazendo nas 35 turmas nos três horários no ciclo 02, no ciclo 03, no EAJA de 1° a 4° e de 5° a 8°, eu acompanho tudo [...] (Antonia).

    Considerando-se tudo isso, será que sobra tempo e dinheiro para estes educadores dedicarem-se à leitura, ao lazer, à diversão e, ainda, adquirirem bens de consumo essenciais na profissão deles, como o computador, a impressora e garantir o acesso à internet em casa?

    A trabalhadora em educação ainda é cobrada, avaliada pelo sistema e, até, se auto-avalia, e muitas vezes, se culpa pelos problemas enfrentados no local de trabalho.

    Eu sentia é que agente tava passando na educação por um processo de mudança, era a implantação do ciclo, [a entrevistada está relatando sua experiência quando entrou na rede em 1999] na época eu [...] tinha uma grande responsabilidade porque eu sabia que os professores da aceleração, eles querendo ou não, eles funcionavam como protótipo da rede como modelo e o ciclo foi implantado de uma forma que agente não tinha preparação não teve esse respaldo da secretaria então você lidava com crianças com distúrbio de comportamento e não tinha uma equipe, como foi proposto uma equipe multidisciplinar (Maria José).

    Em alguns momentos, as educadoras são responsabilizadas pelo fracasso escolar e pela falta de consciência cidadã dos estudantes, dos pais, das mães e da sociedade (Ceccon et alii, 1998). Essas trabalhadoras em educação assumem funções no trabalho cotidiano com os estudantes que não seriam sua atribuição, como a de psicólogo, psiquiatra, fonoaudiólogo, enfermeiro, assistente social, policial, pai, mãe, avôs e religiosos; em alguns momentos, isso acontece até entre os próprios colegas de trabalho.

    As pessoas nos procuram pra desabafar, pra pedir conselhos e isso é uma sobrecarga muito grande de energias, são muitas energias negativas [...] Agente vive numa comunidade onde predomina o desemprego, baixa renda e violência. Estou convivendo diariamente, no meu caso na direção, são todos os dias praticamente 12 horas por dia com todos esses problemas: com crianças abusadas sexualmente, com violência contra a mulher, roubo e drogas. Isso é constante na nossa vida, nos educadores que trabalhamos no ensino público, estamos na periferia onde esses problemas aparecem; eu já trabalhei na rede privada e esses problemas existiam mais eles são mais camuflados. Aqui a pessoa não tem psicólogo, não tem acesso a um advogado então agente acaba aconselhando o direito deles, também, [...] nos procuram enfim pra vários motivos e isso vai nos gerando uma sobrecarga de energias [...] (Antonia).

    Como podemos perceber pelos depoimentos, o trabalho da professora e da funcionária administrativa não se resume só nas competências estabelecidas nas leis educacionais, nos regimentos ou nos editais de concurso público. Em alguns casos, extrapola, como evidenciado nos depoimentos, o local de trabalho, envolvendo não só os conhecimentos aprendidos, mas também os seus sentimentos, afetos, experiências, vivências e as relações extra-muro do local de trabalho.

    O perfil pessoal das entrevistadas, na sua maioria, evidencia uma situação onde o retrato esboça um grupo de mulheres educadoras na faixa etária entre trinta e cinqüenta anos convivendo no mesmo ambiente de trabalho, algumas casadas, umas solteiras e outras separadas e, em sua maioria, com um a três filhos(as), tendo de administrar trabalho, família e educação dos(as filhos(as); autodenominam-se de diferentes cores, algumas, possivelmente, poderão não ter consciência de que são afro-descendentes, já que 32% se consideram pardas. Sendo que o perfil profissional das entrevistadas, percebemos uma realidade que evidencia sobrecarga de trabalho e de atividades; uma profissão que exige qualificação, atualização e formação continuada; um relacionamento constante com outras pessoas, sejam os estudantes – que têm as suas individualidades, diferenças e exigências de aprendizado, comportamento e de carinho – ou os colegas de trabalho – alguns (27%) com um tempo de trabalho entre dez anos, uns (35%), entre dez e vinte anos, e outros (38%), entre vinte e trinta anos; um convívio permanente com pessoas de idades, personalidades, formação, experiências e vivências diferentes, conseqüentemente, essa profissão exige também paciência, tolerância, civilidade e afetividade.

     

    ANATOMIA DE UM TRABALHO PENOSO E AS SUAS CONSEQÜÊNCIAS NA SAÚDE DAS TRABALHADORAS EM EDUCAÇÃO

    Com base nas reflexões expostas anteriormente, vamos apresentar nos parágrafos subseqüentes as conseqüências desta profissão na saúde. Observemos o Quadro 1:

    Quadro 1: Anatomia de um Trabalho Penoso

    Doenças psiquiátricas e neurológicas: trabalho que exige muita atenção com o público, conflitos nas relações pessoais motivados pela múltipla convivência, autoritarismo burocrático e excesso de responsabilidade.

    Calos nas cordas vocais: provocados pelo excessivo número de horas falando em alta voz.

    Problemas cardíacos: ocasionados pela falta de exercícios, de alimentação adequada e pelo estresse.

    Problemas de coluna: causados pelo grande número de horas em posição incômodas e uso de equipamentos não-ergonômicos.

    Irritação e alergias: especialmente na pele e nas vias respiratórias, provocadas pelo pó de giz.

    Varizes ocasionadas pelo longo tempo em pé, além de problemas circulatórios diversos.

    Fonte: Vieira (2003, p. 26).

    Verificamos que essa anatomia de um trabalho penoso apareceu nos resultados da pesquisa de campo da dissertação. As condições de trabalho docente, dado à sua precariedade, são vistas como verdadeiras fontes geradoras dos distúrbios vocais e do estresse, podendo-se estabelecer uma relação entre os mesmos e as condições efetivas de trabalho dessa categoria profissional.

    Das pessoas entrevistadas, 26% solicitou afastamento do trabalho e 66% faltou ao trabalho por diversos motivos. Verificamos que o número de trabalhadoras que solicitaram licenças médicas por causa de depressão não corresponde ao número das pessoas que responderam terem tido essa doença (59%). As faltas ao trabalho poderão estar camuflando estresse, burnout ou outras doenças conseqüência da profissão laboral. Segundo as pessoas entrevistadas, elas faltaram ao trabalho por diversos motivos, desde problemas familiares e pessoais, doenças na família e com a própria pessoa, a participação em eventos, entre outros motivos. Não temos como saber quantas faltas as pessoas tiveram num semestre ou num ano, pois não foi esse o objeto de nossa pesquisa, mas seria um dado interessante para cruzarmos com os dados sobre o nível de burnout e depressão.

    Foram evidenciados na pesquisa de campo, também, vários sintomas que representam sinais de estresse e intolerância que poderão levar uma pessoa a adoecer, trazendo como conseqüências problemas físicos, mentais ou emocionais (Limongi França; Rodrigues, 2002).

    Eu fiquei encabulada quando eu fui ao psicólogo e ao psiquiatra em janeiro [2004], eu falei para ele, que lá parecia uma subsecretária, parecia um órgão da secretaria municipal de educação, de tantos colegas que eu encontrei fazendo consulta e tratando de depressão. Na escola no dia a dia estou vendo isso por causa da sobrecarga de dois, três turnos de trabalho lidando diariamente com tanta gente sofrida (Antonia).

    Esse quadro dos sintomas apresentados é preocupante, pois, como verificamos anteriormente, as funções, os papéis e as responsabilidades na educação são complexas, exigem atributos, habilidades, competências e conhecimentos que, na maioria das vezes, devem ser dosados com muita paciência, tolerância e afetividade.

    Estava muito estressada, esgotada e coincidiu de anunciar o Programa de Demissão Voluntária e, muito cansada, com filho pequeno, problemas domésticos, resolvi entrar na demissão. Fiz um balanço do que poderia perder e poderia ganhar e optei pelo filho e pela casa. Ficar em casa um período [no outro, trabalha na rede municipal], cuidando dos meus afazeres de mãe e de dona de casa (Barros, 2002, p. 88).

    Desse mesmo mal-estar, as funcionárias administrativas são também acometidas:

    há os que têm um nível de escolaridade mais alto, reclamando, e com razão, de que seu trabalho é rotineiro, sem verem aproveitadas suas potencialidades; há os que se encontram com nível de escolaridade compatível com a função, mas sentem o tempo todo que precisam de mais, pois participam da educação e recebem condições de trabalho compatíveis apenas com lavar alfaces (Codo; Soratto, 1999, p. 367).

    Tanto professoras como funcionárias administrativas sofrem do mal-estar profissional, que sempre refletirá no desempenho do seu trabalho e nas relações sociais. Se formos considerar as diferenças das complexidades exigidas de cada função, afirmaríamos, precipitadamente, que a professora está mais suscetível ao adoecimento. Essa afirmação carece de um estudo científico para corroborar tal hipótese. Por exemplo, se a professora ficar doente e precisar de faltar ao serviço ou pegar licença para tratamento de saúde será contratada uma substituta, ao passo que a funcionária não tem tal benefício, outra colega da escola ficará sobrecarregada. Essa realidade traz, provavelmente, conseqüências para a saúde das pessoas, para o seu trabalho profissional, para sua relação com os estudantes e com a sociedade.

    Analisemos com atenção o seguinte depoimento:

    Vários colegas eu já encontrei [adoecidos] [...]. Também aqui na escola, eu cheguei na sala dos professores, tinha uma professora deitada no chão na hora do intervalo, aquilo pra mim... Aquela cena não saiu da minha cabeça, um absurdo, fui conversando com ela e percebi a depressão que ela tava vivendo. Ela chegou a me pedir [diretora] me devolve pra secretaria faz qualquer coisa pelo amor de Deus, mas eu não consigo entrar mais na sala de aula. Então ela e os outros colegas eu indiquei que procurasse um médico, um tratamento [...] isso é constante na nossa profissão (Antonia).

    Verificamos, na pesquisa, que a maioria das pessoas entrevistadas (80%) não sabe o que é síndrome de burnout, somente 18% diz conhecer essa doença. Com relação à questão ‘você já teve essa doença’, ficou evidenciado o total desconhecimento por parte das pessoas entrevistadas, a maioria respondeu “não” e “não sei”, outras, num total de 87%, não a responderam. Foram poucas as pessoas que, no momento de responder, confirmavam com convicção – por conhecer a doença – que não tiveram tal acometimento. Apenas 13% afirmaram ter a doença.

    Com relação à depressão, 59% das pessoas entrevistadas consideraram que tiveram ou têm depressão e 39%, que não têm a doença, sendo que, das que tem depressão, 84% buscou ajuda em tratamento espírita; 78%, na religião, das quais 43%, no espiritismo; 8%, no catolicismo e espiritismo; 8%, na religião evangélica e espiritismo, e 3%, na Seicho-Noie; 70%, em livros de auto-ajuda; 54%, nos psicólogos e em remédios; 49%, sozinha e 41%, nos psiquiatras. Segundo as pessoas entrevistadas, 38% tiveram ou têm depressão há mais de um ano; 19%, há alguns dias; 16%, há mais de três meses; 8%, há duas semanas; 8%, há três ou cinco semanas; 5%, há dois meses e 3%, há uma semana.

    Valendo-nos dessas respostas, podemos verificar a confusão presente com relação ao que sejam os sintomas que evidenciam depressão, estresse, síndrome de burnout ou, possivelmente, outro tipo de doença.

    Estudiosos de diferentes culturas dão diferentes definições à saúde mental. Os conceitos de saúde mental abrangem, entre outras coisas, o bem-estar subjetivo, a auto-eficácia percebida, a autonomia, a competência, a dependência intergeracional e a auto-realização do potencial intelectual e emocional da pessoa. Por uma perspectiva transcultural, é quase impossível definir saúde mental de uma forma completa. De modo geral, porém, concorda-se quanto ao fato de que saúde mental é algo mais do que a ausência de transtornos mentais (OMS, 2001, p. 29).

    Se saúde mental é “algo mais do que a ausência de transtornos mentais”, então, a anatomia de um trabalho penoso (Quadro 1) pode demonstrar que a educação está adoecida. Durante a coleta de dados nos órgãos responsáveis pelas licenças médicas, algumas pessoas demonstraram preconceito, deboche, casos como piadas e brincadeiras. Utilizaram expressões do tipo “é malandragem das pessoas; só querem ficar em casa; fulano já teve aqui não sei quantas vezes; os psiquiatras só dão licença, é um estressinho e querem licença”. Algumas depoentes relataram casos, tanto no plano de saúde do estado como no município de Goiânia, de serem desacatadas, desrespeitadas e tratadas como se fossem objetos e não seres humanos que estiveram ou estão doente.

     

    O QUE É SÍNDROME DE BURNOUT, SINTOMAS E CONSEQÜÊNCIAS

    Não existe uma definição única na literatura internacional para a síndrome de burnout, há um consenso de que essa doença “seria uma resposta ao stress laboral crônico, não devendo contudo ser confundido com stress” (Codo; Vasques-Menezes, 2002, p. 240), seria uma doença profissional, pesquisada pioneiramente desde 1970 por Cristina Maslach, psicóloga social, e Herbert J. Freudenberger, psicanalista. Para esses autores, burnout seria

    a resposta emocional a situações de stress crônico em função de relações intensas – em situações de trabalho – com outras pessoas ou de profissionais que apresentam grandes expectativas em relação a seus desenvolvimentos profissionais e dedicação à profissão; no entanto, em função de diferentes obstáculos, não alcançam o retorno esperado (Limongi França; Rodrigues, 2002, p. 50).

    Há uma grande expectativa com relação à profissão que se está desempenhando, mas as frustrações, as decepções, os problemas, as desvalorizações, as condições de trabalho, a realidade, que não corresponde com o que é planejado, desejado, sonhado, e o contato constante com diferentes pessoas, possivelmente ocasionarão burnout. Essa doença é considerada uma síndrome porque tem três elementos básicos “que podem aparecer associados, mas que são independentes: despersonalização, exaustão emocional e baixo envolvimento pessoal no trabalho [ou redução da realização pessoal e profissional]” (Codo; Vasques-Menezes, 2002, p. 241).

    Para compreendermos esses três sintomas ou aspectos da síndrome, observemos o quadro abaixo:

    Quadro 3: Características, Sintomas e Conseqüências da Síndrome de Burnout

    Exaustão emocional

    O profissional sente-se esgotado, com pouca energia para fazer frente ao dia seguinte de trabalho, e a impressão que ele tem é de que não terá como recuperar (reabastecer) essas energias. Esse estado costuma deixar os profissionais pouco tolerantes, facilmente irritáveis, ‘nervosos’, ‘amargos’, no ambiente de trabalho e até mesmo fora dele, com familiares e amigos.

    Despersonalização

    É o desenvolvimento do distanciamento emocional que se exacerba, como frieza, indiferença diante das necessidades dos outros, insensibilidade e postura desumanizada. O contato com as pessoas é impregnado por uma visão e atitudes negativas, freqüentemente desumanizadas, com a consciência de que em seu trabalho o profissional lida com seres humanos e com perda de aspectos humanitários na interação interpessoal [...] Como resultado do processo de desumanização, o profissional perde a capacidade de identificação e empatia com as pessoas que o procuram em busca de ajuda e as trata não como seres humanos, mas como ‘coisas’, ‘objetos’. Tende a ver cada questão relacionada ao trabalho como um transtorno, como mais um problema a ser resolvido, pois que o incomoda e perturba. Assim, o contato com as pessoas será apenas tolerado, e a atitude em geral será de intolerância, irritabilidade, ansiedade.

    Baixo envolvimento pessoal no trabalho ou redução da realização pessoal e profissional

    A sensação que muitos têm é de que ‘estão batendo a cabeça’, ‘dando murro em ponta de faca’, dia após dia, semana após semana, ano após ano, o que desenvolve intensos sentimentos de decepção e frustração. Com o incremento da exaustão emocional e da despersonalização e todas suas conseqüências, não é raro um senso de inadequação e o sentimento de que se tem cometido falhas, com seus ideais, normas, conceitos. Pode surgir a sensação de que se tornou outro tipo de pessoa, diferente, bem mais fria e descuidada. Como conseqüência, surge queda da auto-estima, que pode chegar à depressão.

    Fonte: Limongi França; Rodrigues (2002, p. 51-52).

    Codo (1999) esclarece que a síndrome de burnout é um problema de saúde mental que pode levar a educação pública à falência, fazendo-se necessário o reconhecimento das autoridades sobre a epidemia que está se instalando e a necessidade de implantação de políticas públicas para sua prevenção, seu diagnóstico e tratamento. O público-alvo das trabalhadoras em educação são os seres humanos em suas diversas fases, seja num contato com estudantes, com colegas de trabalho e com a sociedade em geral. Assim, é relevante e urgente a apropriação do que seja essa doença, sua conseqüência para o trabalho, para a educação, para a vida pessoal e familiar, para a sociedade, bem como é necessário traçar políticas públicas para o seu tratamento e prevenção.

     

    O QUE É DEPRESSÃO, SINTOMAS E CONSEQÜÊNCIAS

    Doença que afeta a mente e o corpo, os sintomas são físicos e psicológicos, mas a natureza exata da doença varia de uma pessoa para outra, ou seja, uma determinada pessoa pode apresentar a predominância de alguns sintomas da doença que diferem dos sintomas predominantes em outra. Classificada como transtorno afetivo bipolar, episódio depressivo, transtorno depressivo recorrente, transtorno persistente do humor e outros transtornos do humor, segundo a Classificação Internacional de Doenças (CID 10) da Organização Mundial da Saúde (OMS) em função do perfil sintomatológico, da gravidade, do padrão de recorrência e do curso (Cordas; Taveira, 2003, p. 15).

    Quadro 4: Sintomas e Conseqüências da Depressão

    Uma ‘lentificação de processos psíquicos’ de gravidade variável que dificulta o raciocínio por lentificar os pensamentos, causa redução da capacidade de organização e planejamento, da concentração e, conseqüentemente, da memorização.

    Tais alterações afetivas e cognitivas ‘são acompanhadas de uma distorção para o negativo’ dos afetos (sentimento e emoções) e dos pensamentos (idéias) que integram a mente.

    Assim, surgem sentimentos/sensações de sofrimento (angústia, culpa, ressentimento, tristeza, mágoa, vazio, falta de sentido, insegurança, baixa auto-estima etc.) e pensamentos negativos recorrentes (fracasso, inutilidade, morte, doença, ruína financeira, auto-recriminação etc.).

    Eles aparecem na forma de ruminações depressivas e se associam a um aumento de preocupações e à sensação de que ‘tudo é difícil, complicado’. [...] ocorrem ainda falta de vontade, indecisão e falta de iniciativa.

    Os principais sintomas fisiológicos são a insônia – tipicamente o despertar precoce – ou a hipersonia, a falta ou o aumento de apetite e peso, a queda de libido e dores ou sintomas físicos difusos não-explicados por outro problema médico.

    Fonte: Cordas; Taveira (2003, p. 14-5).

    Na verdade, os médicos utilizam o termo depressão para descrever uma doença clínica considerada grave, cujos sintomas podem durar vários meses, ou até anos, ao contrário das reações que todas as pessoas têm, quotidianamente, caracterizadas por fases de baixo-astral e tristeza, mas que podem passar rapidamente, o que não é o caso do quadro depressivo. As pessoas neste estado, quando procuram ajuda, fazem-no em diversos segmentos, não só na medicina oficial, mas na terapia alternativa e em diversas religiões.

     

    CONCLUSÃO

    A profissão interfere na saúde das pessoas, trazendo como conseqüências doenças como distúrbios vocais, a síndrome de burnot e de depressão, advindas também do estresse laboral, e que refletem no local de trabalho. As trabalhadoras entrevistadas, em sua maioria, encontram-se estressadas, intolerantes e em burnout. Percebemos que as pessoas entrevistadas, para a sobrevivência, trabalham mais de oito horas por dia, o que ocasiona uma sobrecarga, isso sem considerar as exigências profissionais, como formação continuada, leituras, avaliações, atualizações, atividades extraclasse – correções de trabalhos, provas etc –, higiene, manutenção e segurança do espaço físico, bem como as atividades domésticas e o cuidar dos filhos.

    A maioria das trabalhadoras em educação não tem tempo para o lazer e o lúdico. Conseqüentemente, a profissão é um perigo, e, como uma panela de pressão, poderá estourar na saúde física e mental das profissionais e também no processo de ensino-aprendizagem. Infelizmente, a pesquisa demonstrou a falta de conhecimento, por parte das trabalhadoras em educação, do que seja a síndrome de burnout e, também, do que venha a ser, realmente, a depressão.

    Constatamos que as trabalhadoras em educação buscam a religião nos casos de problemas com a saúde porque ela proporciona conforto, respostas aos porquês das doenças e o restabelecimento da vida simbólica e da nomia. A busca pelo tratamento espiritual no espiritismo está vinculado à teodicéia explicativa da religião. Para 95% das entrevistadas, o tratamento realizado no espiritismo proporcionou melhoras na sua saúde e, para 84%, a religião ajudou profissionalmente. Isso denota, também, o vínculo entre educação, saúde e religião.

    A terapêutica espírita não se resume ao que é recomendado pela Federação Espírita Brasileira em suas orientações documentais, também não há um consenso na literatura espírita sobre o tema. Percebemos que o tratamento espiritual espírita é realizado com autonomia pelos grupos religiosos e nem os rituais realizados por um grupo nem sempre são os mesmos do outro. O que há de comum em todos é a oração, os passes, a água fluidificada e a palestra. A forma da prática e da implementação do ritual dependerá de cada grupo, da orientação dos mentores espirituais e da administração local. A busca por tratamento espiritual no espiritismo se dá em situações as mais diversas, como problemas emocionais, psicológicos, físicos, familiares, mentais, curiosidades, espirituais e/ou materiais. Todas as pessoas que procuram são atendidas e não são questionadas nada sobre sua vida pregressa, situação econômica ou a religião que freqüenta. O sigilo, a ética, o respeito e a discrição foram elementos comuns aos grupos pesquisados.

     



    [1]  Queremos esclarecer que essa pesquisa faz uma abordagem valendo-nos do fenômeno religioso, a fim de refletir as dificuldades e as motivações das trabalhadoras em educação e as possíveis conseqüências na profissão e na vida pessoal.

     

    Referências:

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    CARVALHO, Mércia Maria Almeida de. Desobsessão, terapia do amor. In: ASSOCIAÇÃO MÉDICA ESPÍRITA DO BRASIL. Saúde e espiritismo: campo de força, mediunidade, sexualidade e abordagens na prática médica. 2. ed. São Paulo: AME-Brasil, 2000. p. 233-45.

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    CLARO, I. Depressão: causas, conseqüências e tratamento. Matão: O Clarim, 1998.

    CODO, W. (Coord.). Educação: carinho e trabalho. 3. ed. Petrópolis: Vozes; Brasília: Ed. da UnB, 1999.

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    RODRIGUES, E. B. T.; SANTOS, G. A. C. dos; SILVA, S. A. Gestão escolar democrática. Revista Solta a Voz, Goiânia, v. 14, n. 1, p. 64-81, jan./jun. 2003.

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    VIEIRA, Juçara Dutra. Identidade expropriada: retrato do educador brasileiro. Brasília: CNTE, 2003.

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    GENIVALDA ARAUJO CRAVO DOS SANTOS

    Doutoranda e Mestre em Ciências da Religião - UCG/GO. Professora de história, sociologia, ensino religioso e tutora na Secretaria Estadual de Educação de Goiás (SEE/GO); coordenadora de turno na Secretaria Municipal de Educação de Goiânia (SME); Contatos: 62-91130193 / e-mail: genivaldacravo@ig.com.br.

     

     

    Falando sobre COMO VIVER EM PLENITUDE? - TRECHO DO LIVRO NORMOSE - UMA PATOLOGIA DA NORMALIDADE

     

    Citação

    COMO VIVER EM PLENITUDE? - TRECHO DO LIVRO NORMOSE - UMA PATOLOGIA DA NORMALIDADE

    O livro NORMOSE – A PATOLOGIA DA NORMALIDADE de Pierre Weil, Jean-Yves Leloup e Roberto Crema, foi escrito à partir de um retiro ocorrido na UNIPAZ-DF. Ele nos faz refletir o que vem a ser NORMOSE! Vou repassar um trecho abaixo em que Pierre Weil, faz uma síntese do que ele, Roberto Crema e Jean Yves haviam falado até aquele momento. Boa Leitura!

     

    “O que fazer para passar à plenitude? A resposta é só uma: despertar! Aquilo que Gurdjieff e todos os grandes mestres da consciência indicaram: despertar! É essa a arte está ao alcance, em nossas mãos...

     

    ...Roberto Crema fez um grande esforço para nos mostrar e definir o que é um ser humano realmente saudável, que está  além da normose. Esse é grande o desafio que temos diante de nós. Ele assumiu uma posição absolutamente adequada com relação a esse tema: o ser humano está em formação...

     

    ... Assim, a tarefa que me cabe, agora, é fazer uma espécie de síntese, simplificando um pouco tudo o que foi dito até agora...

     

    ...O  que fazer com os outros e pelos outros? A primeira resposta é: começar por nós mesmos. Como podemos orientar os outros se nós mesmos não passamos nem pelas primeiras fases pelas quais passam as pessoas para percorrer o candelabro de aliança, tão bem descrito na obra de Gitta Mallasz? Para isso, temos de firmar uma posição, esclarecer o que é o ser humano normótico e o que é o ser humano saudável. Qual é a diferença?..

     

    ... Penso que, de certa forma, Jean-Yves e Roberto abriram um horizonte básico sobre esse tema fundamental. Quem vive a plenitude de modo permanente é santo. Passar da normose à plenitude é passar da doença à sanidade e da sanidade à santidade... O santo está em nós, potencialmente. É preciso despertá-lo. Não se forma um santo. Trata-se de um despertar para a santidade. A questão é como despertar? Diante dessa questão, há dois tipos de pessoas: o normótico, que está totalmente inconsciente dessa possibilidade; e o ser humano saudável, que despertou e encontra-se a caminho, conscientemente, da atualização desse potencial de plenitude....

     

    ...Portanto, a nossa função é despertar e formar mutantes. O mutante é aquela pessoa que, esteja onde estiver, transforma os próprios valores, trabalha a si mesma para uma única finalidade: lograr a plenitude, ou seja, o pleno alcance de todo o seu potencial, da sua liberdade e da consciência total. Como se faz isso? Pois é exatamente o que, há mais dezesseis anos, estamos fazendo nesta UNIPAZ, que se irradiou por este Brasil afora e para o exterior.

     

    Para nós, está muito claro que existem, pelo menos, três vertentes. O processo de passagem do estagnante ao mutante, do normótico ao ser pleno, é uma via tríplice: a educação, a terapia e meditação/contemplação...

     

    ... Historicamente, quem introduziu a primeira vertente educativa na UNIPAZ foi Lídya Rebouças, que deveria estar aqui para ser homenageada. Logo no início de nossas atividades, Lídya fundou a CASA DO SOL, cuja característica essencial é a educação pelo amor. Ela trouxe o amor a esta casa. Trouxe as crianças e os professores que estavam acomodados quase que em um a catacumba, no subterrâneo do Teatro Nacional de Brasília. Eu a tirei de lá e a trouxe para cá, a pedido do governador, José Aparecido de Oliveira, que tinha vislumbres e sabia que o lugar da CASA DO SOL era aqui. Hoje, a casa contém um programa educacional básico da UNIPAZ.

     

    O segundo aspecto, o terapêutico, foi introduzido na UNIPAZ por Jean-Yves Leloup e desenvolvido nacionalmente por Roberto Crema; trata-se do Colégio Internacional dos Terapeutas. É um local de encontro de terapeutas formados na abordagem transdisciplinar holística, que se dedicam à tarefa essencial de cuidar do Ser.

     

    O terceiro aspecto é uma metodologia comum a ambas, educação e terapia, que as integra e ultrapassa: a meditação. Por isso temos na UNIPAZ praticamente três tipos de espaços: o espaço da educação – a CASA DO SOL, o Projeto Taba, a Formação Holística de Base e outros; o espaço do Colégio Internacional dos Terapeutas – uma casinha inspiradora onde terapeutas encontram-se e trocam reflexões e experiências; e o espaço do silêncio – que  recomendo a todos freqüentar sempre, por ser um templo especial de oração e meditação, habitado pelo silêncio de todos os que passaram por lá e se conectaram com as dimensões mais sutis e essenciais. O silêncio é uma abertura de encontro de todas as orações, de todos os corações, de todas as tradições.

     

    O que estamos celebrando hoje é a aliança entre essas três vertentes... Educar é despertar, desenvolver, lidando com seres, eu diria, não muito perturbados. Quais são os tipos de educação e os problemas que estão sendo levantados sob a perspectiva da busca da plenitude? Eu vejo que há crianças que já são mutantes quase que desde o nascimento, desde o berço. ...

     

    ...O que levanta um problema: não só na Casa do Sol, mas, ultimamente, em muitos outros educandários, notam-se crianças fora do comum. Aumenta o número das que já são vegetarianas desde o nascimento. Elas passam mal se comem carne, não toleram mentira e demonstram uma verdadeira e precoce sabedoria. Nesses casos, educar é preservar aquilo que já existe, não reprimindo esse tesouro de talentos naturais. Ora, a tendência dos pais desinformados e estagnantes é para a repressão. Quantas crianças não se dirigem a adultos, expressando intuições autênticas e, em troca, recebem punições verbais e até mesmo físicas?

     

    A tarefa, portanto, é cultivar, e não abafar nem descuidar. Mesmo em se tratando de uma minoria, o educador precisa estar atento para esse cuidado, porque a tendência é aumentar o número dessas crianças, como se vem observando nas últimas décadas. Alguns chamam esse fenômeno de crianças índigos.

     

    Quanto às  outras crianças, a questão é como facilitar o seu despertar rumo à plenitude? Como todos enfatizamos, é preciso uma verdadeira revolução educacional que abranja os quatro pilares de uma proposta transdisciplinar, conforme o Documento de Jacques Dellor, da Unesco: além de aprender a conhecer e a fazer, aprender a conviver e a ser. Sobretudo, que se acrescente o aprender a conviver com amor, porque é o caminho essencial para aprender a ser.

     

    Ser consciente e livre, em vez de ser condicionado como um autômato: isto implica a educação do próprio educador e dos pais, que são, como já indiquei, os portadores e irradiadores da cultura normótica, do automatismo e da violência. A educação das crianças começa pela educação dos adultos. Por isso, em nossa CASA DO SOL, desde o início estava previsto o contato permanente com os pais. E, Deus sabe quanto é difícil! Geralmente são as mães que comparecem às reuniões; raríssimos os pais, infelizmente. Isso é um fato no mundo inteiro. ..

     

    Então, ao levantar essas questões na busca de suas respostas, é fundamental considerar a necessidade de uma formação continuada dos professores, como fazemos na UNIPAZ através de programas como a FORMAÇÃO HOLÍSTICA DE BASE. Estende-se por quase três anos e é uma verdadeira escola de professores, de país e de líderes dos novos tempos...

     

    Consideremos, agora, a questão terapêutica. Enquanto a educação cuida do despertar do mutante, a terapia vai dedicar-se ao processo de reparação daquilo que a normose destruiu no ser humano. A noção de terapia foi ampliada na UNIPAZ, graças ao Colégio Internacional dos Terapeutas. Considerar a terapia apenas para indivíduos que tenham distúrbios, desarmonias, neuroses e até psicoses é muito limitado. Muitos têm se dedicado a isso. Entretanto, precisamos ampliar o conceito, já que a saúde envolve a ecologia em nível individual, social e ambiental.

     

    Assim, a terapia é profunda e naturalmente reparadora, embora os processos educacionais e terapêuticos sejam muito semelhantes, às vezes até iguais. Trata-se de cuidar, além do indivíduo, da esfera social, sobretudo no contexto empresarial e educacional, como já refletimos. Por exemplo, um administrador de empresa que procura unir os princípios do masculino e do feminino na organização, a eficiência e a afetividade, é um terapeuta....

     

    Roberto Crema levantou um novo conceito: a pedagogia iniciática. Entre os métodos terapêuticos está a terapia iniciática. A distinção entre os métodos terapêuticos e os educacionais nem sempre é fácil, pois muitas vezes eles se complementam. Temos as grandes metodologias orientais e ocidentais de transformação do ser humano como a ioga, o tai chi chuan, o sufismo, o budismo, o hesicasmo do cristianismo, entre outras. Essas grandes tradições sapienciais são caminhos diferentes, embora convergentes....

     

    A beleza por exemplo, da ioga, como método educacional e terapêutico, é apresentar metodologias próprias, específicas, para cada bloqueio de cada centro energético: hataioga, para os problemas do primeiro chacra físico; tantra ioga, para o sexual; carma ioga para o terceiro, o do poder; bakti ioga para o quarto, do coração. E assim por diante, até jnana e raja ioga, que é a grande ioga...

     

    Como passar dessa educação puramente intelectual, da qual nos falava Roberto, que se reduz ao processo de aprender a conhecer e a fazer, num dominante racional e manual, para uma educação também vivencial, integral? Ao longo de mais de uma década e meia, desenvolvemos um método de educação para a paz o qual consiste em unir intelecto e vivência, propondo também uma síntese dos métodos educacionais orientais e ocidentais, cuja amostragem foi apresentada no seminário A ARTE DE VIVER EM PAZ e no livro com o mesmo título, publicado pela Unesco. No ano 2000, esse método recebeu o Prêmio Internacional de Educação para a Paz, em Paris. A menção realça que o mérito consiste na integração realizada entre as abordagens orientais e ocidentais...

     

    O terceiro aspecto é a oração e contemplação, que nos liga a essa proposta de uma pedagogia e de uma terapia iniciática. O que há de comum entre elas é o fato de apontarem ambas para a meditação, para o silêncio, para o recolhimento; ... A melhor maneira de fazer isso é penetrar num espaço de silêncio, no templo da serenidade interior... Creio que Jean-Yves está fazendo ressurgir a antiga noção de templo e sua função primordial de contemplação, de abrir espaço. “

     

    (TRECHOS DO LIVRO: NORMOSE – A PATOLOGIA DA NORMALIDADE – PIERRE WEIL, JEAN YVES LELOUP E ROBERTO CREMA, PAG. 153/164, EDITORA VERUS)