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    O IMPACTO DO TRABALHO NA SAÚDE DAS TRABALHADORAS EM EDUCAÇÃO DE GOIÂNIA-GOIÁS

    XIV JORNADAS SOBRE ALTERNATIVAS RELIGI0SAS EN AMÉRICA LATINA

    GT 3 – RELIGIONES/CUERPOS/SALUD

    GENIVALDA ARAUJO CRAVO DOS SANTOS DOUTORANDA EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO UCG/GO

     

    O IMPACTO DO TRABALHO NA SAÚDE DAS TRABALHADORAS EM EDUCAÇÃO DE GOIÂNIA/GOIÁS

     

    Resumo: O presente trabalho oral visa apresentar os resultados científicos da pesquisa strito-sensu em Ciências da Religião – UCG/GO. O nosso objeto de pesquisa buscou compreender o impacto do trabalho na saúde das trabalhadoras em educação e a busca de sentido de vida na religião, em especial no Espiritismo. Qual a relação da saúde com a religião? Porque as trabalhadoras em educação acometidas com a síndrome de burnout e depressão buscaram o tratamento espiritual no Espiritismo?  A metodologia científica foi desenvolvida com base em um olhar holístico, fenomenológico e qualitativo e constatamos, na investigação, que a educação é uma profissão perigo. Percebemos que as trabalhadoras entrevistadas quando em anomia por causa da síndrome de burnout e da depressão buscam alternativas das mais diversas. Uma das alternativas buscadas pelas trabalhadoras em educação foi o tratamento espiritual no Espiritismo, a teodicéia explicativa de tal fenômeno religioso forneceu sentido de vida simbólico. O Espiritismo tem uma cosmovisão própria sobre a doença, a cura, a saúde e os meios para proporcionar o restabelecimento da saúde, através da terapêutica espírita baseada nos encontros específicos para o tratamento espiritual, reuniões públicas, sessões de desobsessões, passes, água fluidificada, recomendações de leituras espíritas, reforma íntima, cursos e prece. Na conclusão da pesquisa ficou evidenciado que a religião, na busca das pessoas pela saúde, desempenha o papel de proporcionar conforto, respostas aos porquês das doenças e o restabelecimento da vida simbólica e da nomia; e a teodicéia explicativa do Espiritismo restabelece a nomia através do tratamento espiritual.

    PALAVRAS-CHAVES: Educação, Saúde e Religião

     

     

     

    Pesquisas desenvolvidas no final da década de 1990 pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), em parceria com o Laboratório de Psicologia e Trabalho da Universidade Federal de Brasília (LPT/UnB), sobre o impacto da profissão na saúde mental das trabalhadoras em educação diagnosticaram o alto índice da síndrome de burnout. Para Codo (1999), esse quadro indica um grave problema, o qual poderá levar à falência da educação. Esta doença, que afeta a saúde mental da trabalhadora em educação, forma um quadro de desalento, desmotivação, apatia, perda de energia, desistência e isolamento da sociedade, podendo culminar na depressão, exigindo tratamentos psiquiátricos, psicológicos e, até mesmo, licenças para tratamento de saúde.

    As trabalhadoras em educação desempenham múltiplas responsabilidades no cotidiano da escola, por exemplo planejamento escolar e elaboração do Projeto Político Pedagógico (PPP), algumas participam do Conselho Escolar, outras cuidam do espaço físico, dos multimeios didáticos, da segurança dos estudantes, da alimentação, da infra-estrutura escolar e do meio ambiente, acrescentando, ainda, na sua rotina, as funções que envolvem outras tarefas, como Programa de Desenvolvimento Escolar (PDE), Programas de Formação Continuada e de avaliação escolar. Segundo Rodrigues et alii (2003:72), “todo esse processo de envolvimento nas discussões e na tomada de decisões no âmbito educacional gera uma sobrecarga de atividades”.

    Dados da pesquisa de Santos (2004) sobre o trabalho na educação  evidenciou uma sobrecarga de trabalho e de atividades; uma profissão que exige qualificação, atualização e formação continuada; um relacionamento constante com outras pessoas, sejam os estudantes – que têm as suas individualidades, diferenças e exigências de aprendizado, comportamento e de carinho – ou os colegas de trabalho –; um convívio permanente com pessoas de idades, personalidades, formação, experiências e vivências diferentes, conseqüentemente, essa profissão exige também paciência, tolerância, civilidade e afetividade.

    ANATOMIA DE UM TRABALHO PENOSO E AS SUAS CONSEQÜÊNCIAS NA SAÚDE MENTAL

    Com base nas reflexões expostas anteriormente, vamos apresentar nos parágrafos subseqüentes as conseqüências desta profissão na saúde. Observemos o Quadro 1:

    Quadro 1: Anatomia de um Trabalho Penoso

    Doenças psiquiátricas e neurológicas: trabalho que exige muita atenção com o público, conflitos nas relações pessoais motivados pela múltipla convivência, autoritarismo burocrático e excesso de responsabilidade.

    Calos nas cordas vocais: provocados pelo excessivo número de horas falando em alta voz.

    Problemas cardíacos: ocasionados pela falta de exercícios, de alimentação adequada e pelo estresse.

    Problemas de coluna: causados pelo grande número de horas em posição incômodas e uso de equipamentos não-ergonômicos.

    Irritação e alergias: especialmente na pele e nas vias respiratórias, provocadas pelo pó de giz.

    Varizes ocasionadas pelo longo tempo em pé, além de problemas circulatórios diversos.

    Fonte: Vieira (2003:26).

     

    Tanto professoras como funcionárias administrativas sofrem de mal-estar profissional, que sempre refletirá no desempenho do seu trabalho e nas relações sociais. Se formos considerar as diferenças das complexidades exigidas de cada função, afirmaríamos, precipitadamente, que a professora está mais suscetível ao adoecimento. Essa afirmação carece de um estudo científico para corroborar tal hipótese. Por exemplo, se a professora ficar doente e precisar faltar ao serviço ou pegar licença para tratamento de saúde será contratada uma substituta, ao passo que a funcionária não tem tal benefício, em Goiânia e em Goiás, outra colega da escola ficará sobrecarregada. Essa realidade traz, provavelmente, conseqüências para a saúde das pessoas, para o seu trabalho profissional, para sua relação com os estudantes e com a sociedade.

    Estudiosos de diferentes culturas dão diferentes definições à saúde mental. Os conceitos de saúde mental abrangem, entre outras coisas, o bem-estar subjetivo, a auto-eficácia percebida, a autonomia, a competência, a dependência intergeracional e a auto-realização do potencial intelectual e emocional da pessoa. Por uma perspectiva transcultural, é quase impossível definir saúde mental de uma forma completa. De modo geral, porém, concorda-se quanto ao fato de que saúde mental é algo mais do que a ausência de transtornos mentais (OMS 2001:29).

     

    Se saúde mental é “algo mais do que a ausência de transtornos mentais”, então, a anatomia de um trabalho penoso (Quadro 1) pode demonstrar que a educação está adoecida.

    O QUE É ESTRESSE, SINTOMAS E CONSEQÜÊNCIAS

    O estresse não é bom e nem ruim. Dependendo do organismo, dos fatores estressores – as causas, os porquês, as situações, os motivos – e da adaptação da pessoa às situações que exigem enfrentamento destes problemas, poderá ser positivo ou negativo, pois ele permeia a vida humana, é algo que está interligado a todas as dimensões – sociais, econômicas, culturais, ecológicas, religiosas e políticas:

    O que é estar estressado? Estado do organismo, após o esforço de adaptação, que pode produzir deformidade na capacidade de resposta atingindo o comportamento mental e afetivo, o estado físico e o relacionamento com as pessoas (Limongi França; Rodrigues 2002:28).

     

    Como podemos perceber, existe uma linha tênue que separa o estar com saúde e o estar doente, estressado. O estresse é algo natural na vida, mas tem alguns gatilhos que, quando acionados, podem ocasionar desequilíbrios, excessos, tensões e realizações sem resultados positivos, levando ao adoecimento.

    Na situação particular, do stress relacionado ao trabalho, ele é definido como as ‘situações em que a pessoa percebe seu ambiente de trabalho como ameaçador’ a suas necessidades de realização pessoal e profissional e/ou a sua saúde física ou mental, prejudicando a interação desta com o trabalho e com o ambiente de trabalho, à medida que esse ambiente contém demandas excessivas a ela, ou que ela não contém recursos adequados para enfrentar tais situações (Limongi França; Rodrigues 2002:34).

     

    O QUE É SÍNDROME DE BURNOUT, SINTOMAS E CONSEQÜÊNCIAS

    Não existe uma definição única na literatura internacional para a síndrome de burnout, há um consenso de que essa doença “seria uma resposta ao stress laboral crônico, não devendo contudo ser confundido com stress” (Codo; Vasques-Menezes 1999b:240), seria uma doença profissional, pesquisada pioneiramente desde 1970 por Cristina Maslach, psicóloga social, e Herbert J. Freudenberger, psicanalista. Para esses autores, burnout seria

    a resposta emocional a situações de stress crônico em função de relações intensas – em situações de trabalho – com outras pessoas ou de profissionais que apresentam grandes expectativas em relação a seus desenvolvimentos profissionais e dedicação à profissão; no entanto, em função de diferentes obstáculos, não alcançam o retorno esperado (Limongi França; Rodrigues 2002:50).

     

    Há uma grande expectativa com relação à profissão que se está desempenhando, mas as frustrações, as decepções, os problemas, as desvalorizações, as condições de trabalho, a realidade, que não corresponde com o que é planejado, desejado, sonhado, e o contato constante com diferentes pessoas, possivelmente ocasionarão burnout. Essa doença é considerada uma síndrome porque tem três elementos básicos “que podem aparecer associados, mas que são independentes: despersonalização, exaustão emocional e baixo envolvimento pessoal no trabalho [ou redução da realização pessoal e profissional]” (Codo; Vasques-Menezes 1999b:241).

    Para compreendermos esses três sintomas ou aspectos da síndrome, observemos o quadro abaixo:

    Quadro 3: Características, Sintomas e Conseqüências da Síndrome de Burnout

    Exaustão emocional

    O profissional sente-se esgotado, com pouca energia para fazer frente ao dia seguinte de trabalho, e a impressão que ele tem é de que não terá como recuperar (reabastecer) essas energias. Esse estado costuma deixar os profissionais pouco tolerantes, facilmente irritáveis, ‘nervosos’, ‘amargos’, no ambiente de trabalho e até mesmo fora dele, com familiares e amigos.

    Despersonalização

    É o desenvolvimento do distanciamento emocional que se exacerba, como frieza, indiferença diante das necessidades dos outros, insensibilidade e postura desumanizada. O contato com as pessoas é impregnado por uma visão e atitudes negativas, freqüentemente desumanizadas, com a consciência de que em seu trabalho o profissional lida com seres humanos e com perda de aspectos humanitários na interação interpessoal [...] Como resultado do processo de desumanização, o profissional perde a capacidade de identificação e empatia com as pessoas que o procuram em busca de ajuda e as trata não como seres humanos, mas como ‘coisas’, ‘objetos’. Tende a ver cada questão relacionada ao trabalho como um transtorno, como mais um problema a ser resolvido, pois que o incomoda e perturba. Assim, o contato com as pessoas será apenas tolerado, e a atitude em geral será de intolerância, irritabilidade, ansiedade.

    Baixo envolvimento pessoal no trabalho ou redução da realização pessoal e profissional

    A sensação que muitos têm é de que ‘estão batendo a cabeça’, ‘dando murro em ponta de faca’, dia após dia, semana após semana, ano após ano, o que desenvolve intensos sentimentos de decepção e frustração. Com o incremento da exaustão emocional e da despersonalização e todas suas conseqüências, não é raro um senso de inadequação e o sentimento de que se tem cometido falhas, com seus ideais, normas, conceitos. Pode surgir a sensação de que se tornou outro tipo de pessoa, diferente, bem mais fria e descuidada. Como conseqüência, surge queda da auto-estima, que pode chegar à depressão.

    Fonte: Limongi França; Rodrigues (2002:51-52).

     

    Codo (1999) esclarece que a síndrome de burnout é um problema de saúde mental que pode levar a educação pública à falência, fazendo-se necessário o reconhecimento das autoridades sobre a epidemia que está se instalando e a necessidade de implantação de políticas públicas para sua prevenção, seu diagnóstico e tratamento. O público-alvo das trabalhadoras em educação são os seres humanos em suas diversas fases, seja num contato com estudantes, com colegas de trabalho e com a sociedade em geral. Assim, é relevante e urgente a apropriação do que seja essa doença, sua conseqüência para o trabalho, para a educação, para a vida pessoal e familiar, para a sociedade, bem como é necessário traçar políticas públicas para o seu tratamento e prevenção.

    CONCLUSÃO

    A profissão interfere na saúde das pessoas, trazendo como conseqüências doenças como, por exemplo, a síndrome de burnout, advindas também do estresse laboral, e que refletem no local de trabalho. As trabalhadoras entrevistadas na pesquisa, em sua maioria, encontram-se estressadas, intolerantes e em burnout. Esta situação denota que as relações humanas delas devem estar possivelmente, deterioradas, seja entre elas próprias ou entre elas e os estudantes, os pais, as mães ou responsáveis ou com os demais membros da sociedade. Percebemos que as pessoas entrevistadas, para a sobrevivência, trabalham mais de oito horas por dia, o que ocasiona uma sobrecarga, isso sem considerar as exigências profissionais, como formação continuada, leituras, avaliações, atualizações, atividades extraclasse – correções de trabalhos, provas etc –, higiene, manutenção e segurança do espaço físico, bem como as atividades domésticas e o cuidar dos filhos.

    A maioria das trabalhadoras em educação não tem tempo para o lazer e o lúdico. Conseqüentemente, a profissão é um perigo, e, como uma panela de pressão, poderá estourar na saúde física e mental das profissionais e também no processo de ensino-aprendizagem. Nessa pesquisa, privilegiamos as possíveis conseqüências da síndrome de burnout e de depressão na saúde mental das pessoas que trabalham na educação. Infelizmente, a pesquisa demonstrou a falta de conhecimento, por parte das trabalhadoras em educação, do que seja a síndrome de burnout. O próprio termo saúde mental não é bem visto por diversas pessoas, observamos, durante todo o processo da pesquisa de campo nos anos de 2003 e 2004, a insatisfação, o constrangimento e o preconceito com o uso, ocorreram alguns casos de pessoas tentarem nos convencer a não adotá-lo, sugerindo outros, como mal-estar, burnout e sofrimento psíquico. Esse fato está vinculado ao que disse uma entrevistada: “eu pareço pinel, louca”.

     

    Bibliografia

    CODO, Wanderley. (Coord.). 1999. Educação: carinho e trabalho. 3. ed. Petrópolis: Vozes; Brasília: Ed. da UnB.

    LIMONGI FRANÇA, Ana Cristina; RODRIGUES, Avelino Luiz. 2002. Stress e trabalho: uma abordagem psicossomática. 3. ed. São Paulo: Atlas.

    OMS: Organização Mundial de Saúde. 2001. Relatório sobre saúde no mundo: Saúde mental: nova concepção, nova esperança. Suíça: OMS/OPAS.

    RODRIGUES, Edvânia Braz Teixeira; SANTOS, Genivalda Araujo Cravo dos; SILVA, Simei Araújo. 2003. Gestão escolar democrática. Revista Solta a Voz, 14(1):64-81.

    SANTOS, Genivalda Araujo Cravo dos. 2004. Educação, profissão perigo. Burnout, depressão e o tratamento espiritual no Espiritismo. Mestrado. Dissertação. Goiânia: Universidade Católica de Goiás.

    VIEIRA, Juçara Dutra. 2003. Identidade expropriada: retrato do educador brasileiro. Brasília: CNTE.

     

    Artigo publicado