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Manifesto da Frente pela Liberdade no IrãManifesto da Frente pela Liberdade no Irã
Construindo uma Cultura de Paz
Quem Somos? Somos um grupo que acredita na diversidade. Pertencemos a diferentes religiões, temos orientações políticas, sexuais, origens étnicas e experiências muito distintas, mas um objetivo comum nos uniu: desejamos que as liberdades civis sejam reconhecidas por todos, inclusive pelo governo iraniano. Desejamos que o governo brasileiro, ao promover e estreitar laços diplomáticos com o atual governo iraniano, defenda todas as vidas humanas como sagradas, a democracia como princípio e a liberdade como direito. Somos negros, somos brancos, somos índios, somos quilombolas, somos católicos, evangélicos, judeus, budistas, bahá´ís, e de religiões de matrizes africanas; temos identidades de gênero distintas, somos professores, advogados, médicos, jornalistas, estudantes, trabalhadores, somos jovens, adultos e idosos, somos seres humanos que respeitam seres humanos e a natureza - nosso corpo comum. Cultura de Paz A Política com Cultura de Paz alicerça-se em Direitos Humanos, Democracia, Desenvolvimento Sustentável, Desarmamento e Diversidade. Esse é o compromisso do Brasil, diante das Nações Unidas, Por esse motivo, não apoia nenhum país que venha ferir os princípios que garantam a paz mundial. A respeito do Irã As autoridades sustentaram severas restrições sobre a liberdade de expressão, de associação e de reunião. Infligiram medidas enérgicas sobre ativistas da sociedade civil, incluindo os defensores dos direitos humanos em geral e, principalmente, os das mulheres e das minorias. Ativistas vêm sendo presos, submetidos a julgamentos injustos e sem defesa, em especial no caso das minorias religiosas, a exemplo de bahá´ís, judeus e cristãos, que são duramente perseguidas. Outros foram proibidos de sair do país e de se reunir. A tortura e os maus tratos aos detentos são cometidos de forma corriqueira e com total impunidade. Sentenças de açoitamento, amputação e apedrejamento são comuns no judiciário iraniano. De acordo com a Anistia Internacional, pelo menos 346 pessoas foram executadas, nos último cinco anos, mas é provável que o número real seja bem maior. O Brasil tem o compromisso em explicitar ao Governo do Irã que não apoiamos sua ações internas e que para fazermos acordos internacionais é necessário estabelecermos como base uma cultura de paz, justiça e cura da Terra. Assim nos tornamos aliados no sentido de que o governo e as autoridades iranianas: - Não persigam minorias, mulheres e reprimam manifestações de culto e crença religiosa , prendendo e executando suas lideranças e negando-lhes direitos CIVIS básicos. - Não neguem sistematicamente os Direitos das Crianças, violando as normas do Direito Internacional, executando crianças e adolescentes. (Segundo dados da Anistia Internacional, desde 1990 o país condenou à morte 42 menores de idade, sendo oito no ano passado e um em 2009). - Não proíbam a liberdade de expressão. (Segundo a Human Rights Watch, somente em 2008, mais de cem estudantes foram presos em protestos nas ruas, sem que suas famílias fossem comunicadas. A vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2003, Shirin Ebadi, que lidera o Centro de Defesa dos Direitos Humanos, recebeu ameaças de morte e seus escritórios foram destruídos por forças paramilitares) - Respeitem a diversidade humana (sem condenar à morte ou negar a existência de LGBT no país). - Reconheçam o Holocausto brutal de 6 milhões de judeus e o assassinato de 5 milhões de ciganos, LGBT, testemunhas de Jeová, deficientes físicos e mentais, entre outros, respeitando a memória de todas as vítimas e sobreviventes do nazismo. - Não ameacem a segurança de outros países, nem desenvolvam energia nuclear ou realizem testes com mísseis balísticos. - Não indiquem para seu ministério pessoas procuradas pela Interpol e acusadas de participar no planejamento de atentados terroristas na América do Sul. - Permitam a imprensa livre no mundo, sem restringir o trabalho de jornalistas e escritores. ( o Irã ocupa uma das últimas posições no ranking da organização Repórteres Sem Fronteiras. Numa lista de 175 países , o Irã está em 172º. lugar) . Frente pela Liberdade no Irã 2009/11/10 Adriana Dias <dias.adriana@...> ABGLT - Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais ABLIRC - Associação Brasileira de Liberdade Religiosa e Cidadania ABRADEL - Associação Brasileira de Defesa da Laicidade do Estado. AMISRAEL - O Mensageiro da Paz Aqui não Articulação Política de Juventudes Negras de São Paulo Associação Beneficente e Cultural B'nai B'rith do Brasil - São Paulo Associação Cultural Israelita de Brasília Associação Espirita Luz e Verdade ATEA - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos. CENARAB - Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira CNAB - Congresso Nacional Afro Brasileiro Comunidade Bahá´í do Brasil CONIB - Confederação Israelita do Brasil ConPAZ - Conselho Parlamentar pela Cultura de Paz da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo CONSUB - Conselheiros Nacionais de Sacerdotes de Umbanda do Brasil De Olho na Midia FISESP - Federação Israelita do Estado de São Paulo FLO - Friends Of Life Organization IEN - Instituto Edson Neris Ilê Asé Orisá Dewi - Brasilia Instituto Oromilade JJO - Juventude Judaica Organizada LIMURB - Liga das Mulheres Umbandistas do Brasil Missionários Combonianos Pastoral Operária Primado Organização Federativa de Umbanda e Candomblé do Brasil Rede Ação pela Paz REDEPAZ - Education for Peace Globalnet Roberto Romano - IFCH - UNICAMP Roça de Candomblé Caboclo Sete Flechas e Ylê de Iansã SOUESP - Superior Orgao de Umbanda do Estado de São Paulo
Publicado no Jornal Diário da Manhã (30/10/2009)Caminhos para a Cultura de Paz (I) Iniciaremos uma série de artigos sobre “Caminhos Para a Cultura de Paz”, trazendo exemplos concretos de ações que promovem a paz ou reflexões das pessoas protagonistas da paz. Genivalda Araujo Cravo dos Santos Fonte: Genivalda Araujo Cravo dos Santos - http://www.dm.com.br/materias/show/t/caminhos_para_a_cultura_de_paz_i Compaixão, Cultura de Paz e Diálogo Inter-Religioso, Tranreligioso e TransculturalDiscurso proferido por KAREN ARMSTRONG na cerimônia de entrega do prêmio “TED PRIZE”* – fevereiro 2008
Estou muito honrada. É maravilhoso estar na presença de uma organização que realmente faz a diferença no mundo. Fico imensamente grata pela oportunidade de poder falar a vocês hoje.
Estou também bastante surpresa, pois olhando para trás vejo que a última coisa que almejava era escrever sobre ou ter qualquer envolvimento com religião. Francamente, depois que deixei o convento achei que nada mais tinha a ver com religião. Assunto encerrado,pensei. Mantive distância por l3 anos. Queria ser professora de Literatura Inglesa. Não tinha nenhum desejo especial sequer de ser escritora. Foi então que uma série de catástrofes profissionais me aconteceram, uma atrás da outra, até que afinal fui parar na televisão. Comentei o fato com Bill Moyers, e ele me disse: “Não se preocupe, nós aceitamos qualquer um”.
Fiz alguns programas religiosos bastante controvertidos, algo que caía muito bem no Reino Unido, onde a religião é extremamente impopular. Assim, pela primeira vez na vida, eu estava finalmente na crista da onda. Mas me enviaram a Jerusalém para fazer um filme sobre o cristianismo primitivo, e pela primeira vez na vida entrei em contato com as outras tradições religiosas: o judaísmo e o islamismo, as religiões irmãs do cristianismo. Apesar de minha intensa formação religiosa anterior, descobri que nada sabia sobre essas tradições. Via o judaísmo somente com um tipo de prelúdio ao cristianismo e nada sabia sobre o islã.
Naquela cidade torturada, onde as três religiões digladiam-se de maneira desconfortável, é possível também perceber a profunda conexão entre elas. E foi o estudo de outras tradições religiosas o que me devolveu um sentido do potencial da religião e me levou a olhar a minha própria fé sob uma luz diferente.
Descobri coisas surpreendentes, coisas que jamais me haviam ocorrido. Francamente, naqueles tempos em que me considerava separada da religião, ela me parecia algo absolutamente inacreditável. As doutrinas me pareciam impossíveis de comprovar, totalmente abstratas. Para meu espanto, quando comecei a estudar as outras tradições seriamente, percebi que “crença” – um assunto tão debatido hoje em dia – não passa de um entusiasmo religioso que aflorou no Ocidente durante o século 17. Originalmente o termo “crença” significava amar, apreciar, querer bem. Mas no século 17 a palavra adquiriu um significado mais específico – por razões que exploro mais a fundo em um livro que estou escrevendo no momento - para significar uma ascensão intelectual a um conjunto de proposições: um credo. “Eu creio” não significava “Eu aceito alguns artigos de credo da fé”; significava ,“ Eu me comprometo. Eu me engajo”. Na verdade, algumas das tradições religiosas não dão grande importância à ortodoxia religiosa. No Corão, a opinião religiosa, a ortodoxia religiosa, é tratada derrogatoriamente como “zanna”: adivinhação auto-indulgente a respeito de assuntos sobre os quais ninguém pode ter certeza, e que leva as pessoas a se tornarem sectárias e briguentas.
Se a religião não acontece na seara do acreditar, do que se trata então?O que descobri, cruzando fronteiras, é que religião gira em torno do comportar-se de maneira diferente. Em vez de decidir se você acredita ou não em Deus, antes de mais nada, faça algo. Comprometa-se. Só então começará a entender as verdades da religião. As doutrinas religiosas foram concebidas como chamados à ação: só podemos compreendê-las quando as colocamos em prática.
Nesse campo, o lugar de honra é dado à prática da compaixão. É incontestável que em qualquer país, e em todas e cada uma das tradições mundiais, a compaixão – a habilidade de sentir com o outro – é o único teste de religiosidade verdadeira, e também aquilo que nos leva à presença do que judeus, cristãos e mulçumanos chamam de “Deus” ou o “Divino”. É a compaixão, diz Buda, que nos leva ao Nirvana. Por quê? Porque na compaixão, quando sentimos com o outro, nos destronamos do centro do mundo e colocamos ali um outro ser. Quando nos livramos do ego, aí sim, estamos prontos para ver o divino.
Cada uma das grandes religiões do mundo tem enfatizado, tem colocado no cerne de seus ensinamentos, aquela que conhecemos como a “ Regra de Ouro”. Ela nos foi apresentada pela primeira vez por Confúcio, cinco séculos antes de Cristo: “Não faça aos outros aquilo que não gostaria que fizessem a você”. Este, disse o sábio chinês, era o fio condutor de todos os seus ensinamentos, e seus discípulos deveriam colocar essa regra em prática todos os dias, o dia todo. A ”Regra de Ouro” poderia levá-los ao valor transcendente que ele chamou de “coração da humanidade”, uma experiência transcendental em si mesma.
E essa regra é crucial também para os monoteísmos. Há uma história famosa sobre o grande rabi Hillel, contemporâneo de Jesus. Um pagão aproximou-se dele e disse estar disposto a converter-se ao judaísmo desde que o rabi pudesse recitar todo o ensinamento judaico enquanto apoiado em uma só perna. Hillel apoiou-se em uma das pernas e disse: “Aquilo que é odioso para você, não o faça a seu vizinho. Esta é a Torá, o resto é comentário. Vá e estude-a”. Vá e estude-a. Isto era exatamente o que ele queria dizer. Disse ele ainda: “Em sua exegese, você deve deixar bem claro que cada um dos versos da Torá é um comentário, um verniz aplicado sobre a Regra de Ouro”. O grande rabi Meir disse que qualquer interpretação da escritura que leve ao ódio, ao desprezo ou à depreciação de outra pessoa – qualquer pessoa – é ilegítima.
Santo Agostinho enfatizou exatamente o mesmo ponto. ‘As escrituras’, disse ele, “ensinam nada mais do que caridade, e não podemos deixar a exegese das escrituras até que encontremos nelas uma interpretação compassiva”. Este esforço para encontrarmos compaixão em alguns destes textos cheios de arestas é um bom ensaio para fazermos o mesmo em nossa vida diária.
Agora, olhemos para nosso mundo. Vivemos em um mundo no qual a religião foi sequestrada, onde terroristas citam versos do Corão para justificar as atrocidades que cometem; onde, em vez de colocarmos em prática as palavras de Jesus “Ame seus inimigos. Não julgue.”, assistimos ao espetáculo de cristãos julgando sem cessar, usando seguidamente as escrituras para discutir com outras pessoas ou para humilhá-las.
Ao longo dos séculos a religião tem sido usada para oprimir o outro e isto se deve ao ego humano, à ganância humana. Como espécie, temos um especial talento para estragar coisas maravilhosas.
E as tradições insistiam também – e este é um ponto importante, penso eu – que não se pode e não se deve limitar a compaixão a seu próprio grupo, sua própria nação, seus correligionários e compatriotas. Você precisa ter aquilo que um sábio chinês chamou de “jian ai”, ou seja, preocupação com todos, amar seus inimigos, honrar o diferente. Diz o Corão que “os formamos em tribos e nações para que possam se conhecer uns aos outros”.
Este alcance universal da religião também tem sido diminuído pelo seu uso – e abuso – para obter ganhos criminosos. Já perdi a conta do número de motoristas de táxi que, quando comento o que faço para viver, me informam que a religião tem sido a causa de todas as grandes guerras ao longo da história. Errado! A causa de nossos males atuais é a política.
Não se enganem, porém, religião é um tipo de falha geológica, e quando um conflito se instala em dada região, a religião é assambarcada e torna-se parte do problema. Os tempos modernos se mostraram extremamente violentos. Entre l914 e l945, só na Europa, 70 milhões de pessoas morreram em consequência de conflitos armados. Muitas de nossas instituições, e até mesmo o futebol (que era um passatempo agradável) hoje é causa de tumultos onde pessoas morrem. Não é de surpreender que a religião também tenha sido afetada por este ambiente violento.
Penso também que, no geral há um grande analfabetismo religioso. As pessoas parecem equacionar fé religiosa com acreditar. Com frequência nos referimos às pessoas religiosas como crentes, como se esta fosse sua característica principal. Com muita frequência, objetivos secundários são priorizados em detrimento da compaixão e da “Regra de Ouro”. A “Regra de Ouro” é muito difícil de ser seguida. Muitas vezes, quando estou falando sobre compaixão para alguma congregação, percebo a expressão de revolta no rosto de alguns: muitas pessoas religiosas preferem estar certas a serem compassivas.
Mas a coisa não acaba aí. Desde 11 de setembro, quando meu trabalho sobre o islã projetou-me na vida pública de uma maneira que jamais imaginei, tive a oportunidade de viajar pelo mundo todo e, onde quer vá, encontro o anseio por mudanças. Voltei recentemente do Paquistão onde literalmente milhares de pessoas assistiram às minhas palestras, e elas vêm porque anseiam, antes de mais nada, por ouvir uma voz ocidental amiga. Principalmente os jovens vêm e me perguntam: O que podemos fazer? O que podemos fazer para mudar as coisas? Meu anfitrião no Paquistão me disse: “Não seja demasiado gentil conosco. Diga-nos onde estamos errando. Vamos conversar sobre onde a religião está falhando”.
Segundo meu parecer, a situação atual é tão séria que qualquer ideologia que deixe de promover um sentido de compreensão global e apreciação mútua entre os povos, está fadada ao fracasso no devido tempo. A religião tem um grande número de seguidores aqui nos Estados Unidos – as pessoas talvez sejam religiosas de diferentes maneiras (como mostra uma reportagem recente) mas, mesmo assim, elas ainda querem ser religiosas. Somente a Europa ocidental mantém seu secularismo, que hoje vai adquirindo um aspecto adoravelmente antiquado.
Mas as pessoas querem ser religiosas, e a religião deveria representar uma força em prol da harmonia no mundo, algo que pode e deveria ser, em vista da Regra de Ouro “Não faça aos outros o que não deseja que façam a você”, uma ética que deveria ser aplicada globalmente nos dias de hoje. Não devemos tratar outras nações da maneira como não gostamos de ser tratados.
Esta é uma questão religiosa – sejam quais forem as nossas crenças capengas – este é um assunto espiritual. É uma questão ética profunda que envolve e deve envolver a todos nós. Como disse, há um profundo desejo de mudança por aí afora. Aqui nos Estados Unidos pode-se constatar isto na campanha eleitoral: nela se evidencia esse anseio por mudança. As pessoas das igrejas e mesquitas deste continente, depois do 11 de setembro, estão se reunindo localmente para criar redes de compreensão mútua. Vozes provindas de sinagogas e mesquitas estão afirmando: “ Precisamos começar a dialogar”. Penso que é chegada a hora de ultrapassarmos a idéia de tolerância e caminharmos no sentido de valorizarmos um ao outro.
Há uma história que gostaria de contar-lhes. Ela se encontra no clássico A Ilíada e nos fala sobre como a espiritualidade deveria ser. Vocês conhecem a historia da Ilíada: a guerra de 10 anos entre a Grécia e Tróia. Em um incidente, Aquiles, o famoso guerreiro grego, retira suas tropas da batalha e todo esforço de guerra é comprometido. Na confusão que se sucede Patroclus, seu querido amigo, é morto num combate corpo a corpo, por Heitor, um dos príncipes troianos. Aquiles, enlouquecido pela dor, pela raiva e pelo desejo de vingança, mata Heitor, mutila seu corpo e recusa-se a devolvê-lo para que seja enterrado pela família o que, para os gregos, significava que a alma de Heitor ficaria perdida, condenada a vagar eternamente. Certa noite, Príamo, rei de Tróia, um velho, entra incógnito no campo grego, caminha até a tenda de Aquiles para pedir-lhe que devolva o corpo de seu filho. Todos se espantam quando o velho tira o capuz revelando sua identidade. Aquiles olha para ele, pensa em seu próprio pai e começa a chorar. Príamo olha para o homem que matou tantos de seus filhos e, também ele, chora. O som do choro de ambos enche o espaço. Os gregos acreditavam que chorar junto criava um laço entre as pessoas. Aquiles então toma ternamente o corpo de Heitor e o entrega ao pai. Os dois homens se olham nos olhos e veem um ao outro como divinos.
Esta é também a ética que encontramos em todas as religiões. Isto é o que significa superar o horror que sentimos quando estamos sendo ameaçados por nossos inimigos e começamos a apreciar o outro. È de grande importância saber que a palavra “santo” em hebraico, aplicada a Deus, é “Kadosh”: separado, outro. De fato, talvez a alteridade mesma de nossos inimigos seja o elemento que nos pode inspirar a transcendência absolutamente misteriosa que é Deus.
Agora, aqui vai meu pedido: gostaria que vocês me ajudassem na criação, lançamento e propagação de uma “Carta pela Compaixão” – idealizada por um grupo de inspirados pensadores pertencentes às três tradições abraãmicas: judaísmo, cristianismo e islamismo, e baseada no princípio fundamental da “Regra de Ouro”. Precisamos criar um movimento envolvendo todas essas pessoas que encontrei em minhas viagens (e que vocês encontram) e que, de alguma maneira, querem juntar-se a nós e reencontrar sua fé, uma fé que elas sentem que foi seqüestrada, como costumo dizer. Precisamos empoderar as pessoas para que se lembrem da ética da compaixão, precisamos dar-lhes as diretrizes. Esta Carta não deve ser um documento grande. Gostaria que ela oferecesse diretrizes sobre como interpretar as escrituras, estes textos que tem sido vítimas de abusos. Lembremos do que os rabis e Agostinho disseram sobre como as escrituras devem ser governadas pelo princípio da caridade. É preciso voltar a isto. Retornemos a este ponto e também à idéia de termos todos, judeus, cristãos e mulçumanos (tradições tão frequentemente em desacordo) trabalhando juntos para criar um documento que, esperamos, será assinado por milhares de líderes religiosos das principais tradições do mundo.
Vocês são as pessoas que podem fazer isto, eu sou apenas uma acadêmica isolada. Apesar da idéia equivocada de que gosto de exposição, a verdade é que passo a maior parte de meu tempo sozinha, estudando. Vocês, com conhecimento da mídia, são aqueles que podem me explicar como levar esta mensagem mundo afora, a todas as pessoas do planeta.
Tive algumas conversas preliminares e o arcebispo Desmond Tutu, por exemplo, está muito feliz por co-assinar esse projeto, assim como o imã de Nova York, Faisal Rauf. Estarei trabalhando também com a Aliança das Civilizações na ONU. Fiz parte dessa iniciativa da ONU chamada Aliança das Civilizações, convocada por Kofi Annan para diagnosticar as causas do extremismo e para oferecer orientações claras para as nações afiliadas sobre como evitar sua escalada.
A Aliança das Civilizações informou que está disposta a colaborar. A importância deste fato – posso ver a expressão preocupada de muitos de vocês que estão pensando que a ONU é uma instituição lenta e pesada. Mas a ONU pode nos oferecer certa neutralidade para que esta iniciativa não seja considerada algo somente ocidental ou cristão, mas que parte da própria ONU, do mundo, e ela nos ajudaria muito com a burocracia envolvida num tal projeto.
Assim sendo, os convoco a juntarem-se a mim para construir esta Carta, lançá-la e propagá-la. Gostaria de vê-la em todas as universidade, todas as igrejas, todas as sinagogas e mesquitas mundo afora, de maneira que as pessoas possam olhar para suas tradições, resgatá-las e transformar a religião numa fonte de paz neste mundo, algo que a religião pode e deve fazer.
NOTA:
*TED (Technology, Entertainment, Design) - uma iniciativa sem fins lucrativos dedicada a “idéias que valem a pena serem divulgadas”.
*“Ted Prize” destina-se a alavancar o excepcional quadro de talentos e recursos da “Ted Conference”. O prêmio é atribuído anualmente a três destacados indivíduos que recebem, cada um, US$ 100.000,00 e, o que é mais importante, o privilégio de “Um Pedido para Mudar o Mundo”. Depois de alguns meses de preparo, eles revelam seu pedido no decorrer da cerimônia de premiação que tem lugar durante a “Ted Conference”. Estes pedidos tem resultado em iniciativas de colaboração com impacto de longo alcance.
Tradução: Clara Terra
Fonte: egrupo URI Brasil POLÍTICAS DE PREVENÇÃO E DE ATENDIMENTO À SAÚDE DOS TRABALHADORES EM EDUCAÇÃO (I)CONAE 2010 - ETAPA ESTADUAL/MATO GROSSO Cuiabá, 03 a 07 de novembro de 2009
EIXO IV - COLÓQUIO 2. POLÍTICAS DE PREVENÇÃO E DE ATENDIMENTO À SAÚDE DOS TRABALHADORES EM EDUCAÇÃO.
GENIVALDA ARAUJO CRAVO DOS SANTOS Doutoranda e Mestre em Ciências da Religião – PUC/GO. Professora de História - Secretaria Estadual de Educação de Goiás (SEE/GO); e Secretaria Municipal de Educação de Goiânia (SME); Contatos: 62-91130193 / e-mail: genivaldacravo@gmail.com
“A OIT também defende o direito do trabalhador ao "trabalho decente". A entidade conceitua trabalho decente como ‘um trabalho produtivo e adequadamente remunerado, exercido em condições de liberdade, eqüidade, e segurança, sem quaisquer formas de discriminação, e capaz de garantir uma vida digna a todas as pessoas que vivem de seu trabalho’” (Fonte: http://www.parana-online.com.br/canal/direito-e-justica/news/372993/).
1. O IMPACTO DO TRABALHO NA SAÚDE DAS PESSOAS Pesquisas desenvolvidas no final da década de 1990 pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), em parceria com o Laboratório de Psicologia e Trabalho da Universidade Federal de Brasília (LPT/UnB), sobre o impacto da profissão na saúde mental das trabalhadoras em educação diagnosticaram o alto índice da síndrome de burnout. Para Codo (1999), esse quadro indica um grave problema, o qual poderá levar à falência da educação. Esta doença, que afeta a saúde mental da trabalhadora em educação, forma um quadro de desalento, desmotivação, apatia, perda de energia, desistência e isolamento da sociedade, podendo culminar na depressão, exigindo tratamentos psiquiátricos, psicológicos e, até mesmo, licenças para tratamento de saúde. Levantamento realizado no Programa de Saúde no Serviço Público do Estado de Goiás constatou um aumento de licenças para tratamento de saúde por transtornos mentais no ano de 1999, com um total de 2.163 pessoas; no ano de 2000, um total de 2.496 pessoas; em 2001, 3.686 pessoas; no primeiro semestre de 2002, 3.001 pessoas. A maioria dessas licenças é concedida às trabalhadoras em educação. Na rede municipal de educação de Goiânia, o número de licenças médicas das trabalhadoras em educação para tratamento de saúde por transtornos mentais de setembro a dezembro de 2002 foi de 170 e de janeiro a abril de 2003, foi de 120. Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) indicam que, em 1999, 330 milhões de pessoas no mundo sofreram de depressão, conforme PASQUALI e TRACCO (2003, p. 12-4): “de cada 20 pessoas, três vão ter pelo menos um surto depressivo na vida [...] só no Brasil serão mais de 10 milhões de vítimas do mal”. Na região centro-oeste 15,7% dos professores (as) sofrem com a síndrome de burnout, segundos dados da psicóloga Nádia Maria Beserra Leite (http://genivaldacravo.spaces.live.com/blog/cns!C9023A1317D4FA7!2486.entry).
1.2. O IMPACTO DO TRABALHO NA SAÚDE DAS PESSOAS: A REALIDADE NA EDUCAÇÃO PÚBLICA Nos nossos estudos desenvolvidos no mestrado (SANTOS, 2007) percebemos que o trabalho gerou impacto na saúde do trabalhador em educação, ocasionando adoecimento como a síndrome de burnout. Essa constatação foi corroborada tanto na literatura e como na pesquisa de campo. No primeiro capítulo da dissertação apresentamos um retrato pessoal, profissional e da saúde dos trabalhadores em educação[1]. No perfil pessoal a maioria são mulheres na faixa etária entre trinta e cinqüenta anos, convivendo no mesmo ambiente de trabalho, algumas casadas, umas solteiras e outras separadas e, em sua maioria, com um a três filhos(as), tendo de administrar trabalho, família e educação dos(as) filhos(as); autodenominam-se de diferentes cores, algumas, possivelmente, poderão não ter consciência de que são afro-descendentes, já que 32% se consideraram pardas. Essas trabalhadoras em educação desempenham múltiplas responsabilidades e competências no cotidiano da escola, como: planejamento escolar, elaboração do Projeto Político Pedagógico (PPP), cuidam do espaço físico, dos multimeios didáticos, da segurança dos estudantes, da alimentação, da infra-estrutura escolar, participam do Programa de Desenvolvimento Escolar (PDE), do Conselho Escolar, dos Programas de Formação Continuada e das avaliações escolares. Na atuação profissional, dessas pessoas, evidenciou-se sobrecarga de trabalho e de atividades. Um convívio permanente com pessoas de idades, personalidades, formação, experiências e vivências diferentes. Profissão que exige qualificação, atualização e formação continuada. O tempo de serviço variou entre (27%) com um tempo de trabalho entre dez anos, uns (35%), entre dez e vinte anos, e outros (38%), entre vinte e trinta anos. O público-alvo dos (as) trabalhadores (as) em educação são os seres humanos, em suas diversas fases e idades, seja num contato com os estudantes, com os colegas de trabalho e/ou com a sociedade em geral. Essa é uma das profissões que exigem paciência, tolerância, civilidade e afetividade. Conseqüentemente o impacto do trabalho na qualidade de vida dessas pessoas apresenta quadros alarmantes, apontando a necessidade de intervenção dos órgãos públicos no sentido de minimizar os efeitos perniciosos da desistência na educação básica (SANTOS, 2007). Entendemos qualidade de vida conforme a definição proposta pela Organização Mundial da Saúde – OMS: A percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto de sua cultura e no sistema de valores em que vive e em relação a suas expectativas, seus padrões e suas preocupações [...] conceito bastante amplo, que incorpora, de forma complexa, a saúde física, o estado psicológico, o nível de independência, as relações sociais, as crenças pessoais e a relação com aspectos significativos do meio ambiente (THE WHOQOL GROUP, 1995 apud FLECK, 2008, p. 25) A doença laboral que está acometendo os (as) trabalhadores (as) da educação básica, no Brasil, em 48,04% é a síndrome de burnout. Esses dados foram divulgados em 1999 por Wanderley Codo no livro “Educação: carinho e trabalho” onde denúncia a gravidade do problema que poderá levar a educação pública à falência, pois naquela época já representava uma epidemia instalada na educação brasileira. Essa doença pode manifestar-se em qualquer profissional e/ou trabalhador (a) que mantenha uma relação constante com os afetos, com outros seres humanos ou que se sinta injustiçada nas relações trabalhistas ou sofra assédio moral ou que esteja sobrecarregada, desempenhando diversas competências e habilidades ao mesmo tempo e em diferentes áreas. Apresentaremos, logo abaixo, uma descrição resumida dos sintomas e conseqüências da síndrome de burnout. 1.3. ANATOMIA DE UM TRABALHO PENOSO E AS SUAS CONSEQÜÊNCIAS NA SAÚDE DAS TRABALHADORAS EM EDUCAÇÃO Com base nas reflexões expostas anteriormente, vamos apresentar nos parágrafos subseqüentes as conseqüências desta profissão na saúde. Observemos o Quadro 1: Quadro 1: Anatomia de um Trabalho Penoso
Fonte: VIEIRA (2003, p. 26).
Verificamos que essa anatomia de um trabalho penoso apareceu nos resultados da pesquisa de campo da dissertação. As condições de trabalho docente, dado à sua precariedade, são vistas como verdadeiras fontes geradoras dos distúrbios vocais e do estresse, podendo-se estabelecer uma relação entre os mesmos e as condições efetivas de trabalho dessa categoria profissional. Das pessoas entrevistadas, 26% solicitou afastamento do trabalho e 66% faltou ao trabalho por diversos motivos. Verificamos que o número de trabalhadoras que solicitaram licenças médicas por causa de depressão não corresponde ao número das pessoas que responderam terem tido essa doença (59%). As faltas ao trabalho poderão estar camuflando estresse, burnout ou outras doenças conseqüência da profissão laboral. Segundo as pessoas entrevistadas, elas faltaram ao trabalho por diversos motivos, desde problemas familiares e pessoais, doenças na família e com a própria pessoa, a participação em eventos, entre outros motivos. Não temos como saber quantas faltas às pessoas tiveram num semestre ou num ano, pois não foi esse o objeto de nossa pesquisa, mas seria um dado interessante para cruzarmos com os dados sobre o nível de burnout e depressão. Foram evidenciados na pesquisa de campo, também, vários sintomas que representam sinais de estresse e intolerância que poderão levar uma pessoa a adoecer, trazendo como conseqüências problemas físicos, mentais ou emocionais (LIMONGI FRANÇA; RODRIGUES, 2002). Eu fiquei encabulada quando eu fui ao psicólogo e ao psiquiatra em janeiro [2004], eu falei para ele, que lá parecia uma subsecretária, parecia um órgão da secretaria municipal de educação, de tantos colegas que eu encontrei fazendo consulta e tratando de depressão. Na escola no dia a dia estou vendo isso por causa da sobrecarga de dois, três turnos de trabalho lidando diariamente com tanta gente sofrida (Antonia).
Esse quadro dos sintomas apresentados é preocupante, pois, como verificamos anteriormente, as funções, os papéis e as responsabilidades na educação são complexas, exigem atributos, habilidades, competências e conhecimentos que, na maioria das vezes, devem ser dosados com muita paciência, tolerância e afetividade. Estava muito estressada, esgotada e coincidiu de anunciar o Programa de Demissão Voluntária e, muito cansada, com filho pequeno, problemas domésticos, resolvi entrar na demissão. Fiz um balanço do que poderia perder e poderia ganhar e optei pelo filho e pela casa. Ficar em casa um período [no outro, trabalha na rede municipal], cuidando dos meus afazeres de mãe e de dona de casa (BARROS, 2002, p. 88).
Desse mesmo mal-estar, as funcionárias administrativas são também acometidas: Há os que têm um nível de escolaridade mais alto, reclamando, e com razão, de que seu trabalho é rotineiro, sem verem aproveitadas suas potencialidades; há os que se encontram com nível de escolaridade compatível com a função, mas sentem o tempo todo que precisam de mais, pois participam da educação e recebem condições de trabalho compatíveis apenas com lavar alfaces (CODO, 1999, p. 367).
Tanto professoras como funcionárias administrativas sofrem do mal-estar profissional, que sempre refletirá no desempenho do seu trabalho e nas relações sociais. Se formos considerar as diferenças das complexidades exigidas de cada função, afirmaríamos, precipitadamente, que a professora está mais suscetível ao adoecimento. Essa afirmação carece de um estudo científico para corroborar tal hipótese. Por exemplo, se a professora ficar doente e precisar faltar ao serviço ou pegar licença para tratamento de saúde será contratada uma substituta, ao passo que a funcionária, que trabalha em Goiás, não tem tal benefício, outra colega da escola ficará sobrecarregada. Essa realidade traz, provavelmente, conseqüências para a saúde das pessoas, para o seu trabalho profissional, para sua relação com os estudantes e com a sociedade. Analisemos com atenção o seguinte depoimento: Vários colegas eu já encontrei [adoecidos] [...]. Também aqui na escola, eu cheguei na sala dos professores, tinha uma professora deitada no chão na hora do intervalo, aquilo pra mim... Aquela cena não saiu da minha cabeça, um absurdo, fui conversando com ela e percebi a depressão que ela tava vivendo. Ela chegou a me pedir [diretora] me devolve pra secretaria faz qualquer coisa pelo amor de Deus, mas eu não consigo entrar mais na sala de aula. Então ela e os outros colegas eu indiquei que procurasse um médico, um tratamento [...] isso é constante na nossa profissão (Antonia). Verificamos, na pesquisa, que a maioria das pessoas entrevistadas (80%) não sabe o que é síndrome de burnout, somente 18% diz conhecer essa doença. Com relação à questão ‘você já teve essa doença’, ficou evidenciado o total desconhecimento por parte das pessoas entrevistadas, a maioria respondeu “não” e “não sei”, outras, num total de 87%, não a responderam. Foram poucas as pessoas que, no momento de responder, confirmavam com convicção – por conhecer a doença – que não tiveram tal acometimento. Apenas 13% afirmaram ter a doença. Com relação à depressão, 59% das pessoas entrevistadas consideraram que tiveram ou têm depressão e 39%, que não têm a doença, sendo que, das que tem depressão, 84% buscou ajuda em tratamento espírita; 78%, na religião, das quais 43%, no espiritismo; 8%, no catolicismo e espiritismo; 8%, na religião evangélica e espiritismo, e 3%, na Seicho-Noie; 70%, em livros de auto-ajuda; 54%, nos psicólogos e em remédios; 49%, sozinha e 41%, nos psiquiatras. Segundo as pessoas entrevistadas, 38% tiveram ou têm depressão há mais de um ano; 19%, há alguns dias; 16%, há mais de três meses; 8%, há duas semanas; 8%, há três ou cinco semanas; 5%, há dois meses e 3%, há uma semana. Valendo-nos dessas respostas, podemos verificar a confusão presente com relação ao que sejam os sintomas que evidenciam depressão, estresse, síndrome de burnout ou, possivelmente, outro tipo de doença. Estudiosos de diferentes culturas dão diferentes definições à saúde mental. Os conceitos de saúde mental abrangem, entre outras coisas, o bem-estar subjetivo, a auto-eficácia percebida, a autonomia, a competência, a dependência intergeracional e a auto-realização do potencial intelectual e emocional da pessoa. Por uma perspectiva transcultural, é quase impossível definir saúde mental de uma forma completa. De modo geral, porém, concorda-se quanto ao fato de que saúde mental é algo mais do que a ausência de transtornos mentais (OMS, 2001, p. 29).
Se saúde mental é “algo mais do que a ausência de transtornos mentais”, então, a anatomia de um trabalho penoso (Quadro 1) pode demonstrar que a educação está adoecida. Durante a coleta de dados nos órgãos responsáveis pelas licenças médicas, algumas pessoas demonstraram preconceito, deboche, casos como piadas e brincadeiras. Utilizaram expressões do tipo “é malandragem das pessoas; só querem ficar em casa; fulano já teve aqui não sei quantas vezes; os psiquiatras só dão licença, é um estressinho e querem licença”. Algumas depoentes relataram casos, tanto no plano de saúde do estado como no município de Goiânia, de serem desacatadas, desrespeitadas e tratadas como se fossem objetos e não seres humanos que estiveram ou estão doente. 1.4. O QUE É SÍNDROME DE BURNOUT, SINTOMAS E CONSEQÜÊNCIAS Não existe uma definição única na literatura internacional para a síndrome de burnout, há um consenso de que essa doença “seria uma resposta ao stress laboral crônico, não devendo, contudo ser confundido com stress” (CODO; VASQUES-MENEZES, 2002, p. 240), seria uma doença profissional, pesquisada pioneiramente desde 1970 por Cristina Maslach, psicóloga social, e Herbert J. Freudenberger, psicanalista. Para esses autores, burnout seria a resposta emocional a situações de stress crônico em função de relações intensas – em situações de trabalho – com outras pessoas ou de profissionais que apresentam grandes expectativas em relação a seus desenvolvimentos profissionais e dedicação à profissão; no entanto, em função de diferentes obstáculos, não alcançam o retorno esperado (LIMONGI FRANÇA; RODRIGUES, 2002, p. 50).
Há uma grande expectativa com relação à profissão que se está desempenhando, mas as frustrações, as decepções, os problemas, as desvalorizações, as condições de trabalho, a realidade, que não corresponde com o que é planejado, desejado, sonhado, e o contato constante com diferentes pessoas, possivelmente ocasionarão burnout. Essa doença é considerada uma síndrome porque tem três elementos básicos “que podem aparecer associados, mas que são independentes: despersonalização, exaustão emocional e baixo envolvimento pessoal no trabalho [ou redução da realização pessoal e profissional]” (CODO; VASQUES-MENEZES, 2002, p. 241). Para compreendermos esses três sintomas ou aspectos da síndrome, observemos o quadro abaixo: Quadro 3: Características, Sintomas e Conseqüências da Síndrome de Burnout
Fonte: LIMONGI FRANÇA; RODRIGUES (2002, p. 51-52).
Codo (1999) esclarece que a síndrome de burnout é um problema de saúde mental que pode levar a educação pública à falência, fazendo-se necessário o reconhecimento das autoridades sobre a epidemia que está se instalando e a necessidade de implantação de políticas públicas para sua prevenção, seu diagnóstico e tratamento. O público-alvo das trabalhadoras em educação são os seres humanos em suas diversas fases, seja num contato com estudantes, com colegas de trabalho e com a sociedade em geral. Assim, é relevante e urgente a apropriação do que seja essa doença, sua conseqüência para o trabalho, para a educação, para a vida pessoal e familiar, para a sociedade, bem como é necessário traçar políticas públicas para o seu tratamento e prevenção. Observemos o quadro das sintomatologias da síndrome de burnout:
Fonte: BENEVIDES-PEREIRA, 2002, p.44. In aput BARASUOL, 2005, p. 54. Essas sintomatologias camuflam a doença da desistência, as pessoas começam a acreditar que estão acometidas de males físicos, passam por diversas especialidades médicas até descobrirem que o que sentem é burnout, o mal que acomete os (as) cuidadores (as) (SANTOS, 2007; BARASUOL, 2005). É evidente e explicito o mal estar, a dor psíquica sentida e vivenciada pelas (os) trabalhadoras (es) em educação. Analisemos as citações mencionadas nesse artigo sobre burnout. A pessoa ao sentir algo que não sabe identificar ao certo o que tem, ao perceber e vivenciar sentimentos de dualidade, fragmentação, hostilidade, frieza, irritabilidade, intolerância, pessimismo, desmotivação, apatia, em síntese “tudo vai mal”. Como poderá ter qualidade de vida, na sua vida e conseqüentemente no trabalho? Fora que esse mal estar é contagioso. Segundo algumas pesquisas científicas, tradições espirituais, religiosas e nativas o pensamento é poder. O pensamento negativo forma energias densas que vai contaminando o meio ambiente, atrapalhando e neutralizando as boas ações ou o desejo e motivação de buscar ajuda (ARNTZ, 2007; SANTOS, 2007; SIQUEIRA, 2003). Já PASSOS (2004, p. 52-56) reflete essa doença como uma oportunidade simbólica de mudança do velho paradigma educacional para um novo, onde os seres humanos terão condições de ter prazer e sentido de vida no que fazem. 1ª) As doenças físicas são nossas irmãs! 2ª) A cura de nossas enfermidades não pode ser feita pela supressão dos sintomas físicos e pelo silenciamento de nossas dores... 3ª) Se houver uma ação em favor da vida – e contra Burnout -, não é a supressão do signo e de sua simbolização, mas sim, compreender e modificar o significante, que são as razões sócio-econômico-político-culturais de nossos conflitos... A cura de Burnout, em nós, é a cura da escola; é a cura das relações materiais e sociais de produção; é a cura da cultura pervertida; e a cura da exploração de nosso desejo; é a destruição da mentira institucional; é a recuperação de voz de protesto, ou seja, a remissão da condição de mercadoria a que estamos submetidos como classes e que usurpa nossa humanidade. Numa abordagem a partir das ciências da religião, a síndrome de burnout, conforme analisada por PASSOS (2004) deixa de ser simbolicamente uma representação do mal, uma culpa, impureza, estigma, pecado para ser salvação, redenção, justiça, ressignificação dos valores, concepções, princípios e estruturas educacionais. É uma denúncia de que algo não vai bem, não é só com os profissionais em educação e sim em toda estrutura e sistema, perpassando todos os níveis institucionais, as pessoas que trabalham na educação, as sociedades, as culturas. Ao mesmo tempo burnout, também, pode representar uma resistência silenciosa e inconscientemente contra o mal que acomete a educação. 1.5. O QUE É DEPRESSÃO, SINTOMAS E CONSEQÜÊNCIAS Doença que afeta a mente e o corpo, os sintomas são físicos e psicológicos, mas a natureza exata da doença varia de uma pessoa para outra, ou seja, uma determinada pessoa pode apresentar a predominância de alguns sintomas da doença que diferem dos sintomas predominantes em outra. Classificada como transtorno afetivo bipolar, episódio depressivo, transtorno depressivo recorrente, transtorno persistente do humor e outros transtornos do humor, segundo a Classificação Internacional de Doenças (CID 10) da Organização Mundial da Saúde (OMS) em função do perfil sintomatológico, da gravidade, do padrão de recorrência e do curso (CORDAS; TAVEIRA, 2003, p. 15). Quadro 4: Sintomas e Conseqüências da Depressão
Fonte: CORDAS; TAVEIRA (2003, p. 14-5).
Na verdade, os médicos utilizam o termo depressão para descrever uma doença clínica considerada grave, cujos sintomas podem durar vários meses, ou até anos, ao contrário das reações que todas as pessoas têm, quotidianamente, caracterizadas por fases de baixo-astral e tristeza, mas que podem passar rapidamente, o que não é o caso do quadro depressivo. As pessoas neste estado, quando procuram ajuda, fazem-no em diversos segmentos, não só na medicina oficial, mas na terapia alternativa e em diversas religiões. [1] Consultar SANTOS, Genivalda Araujo Cravo dos. Burnout, depressão e tratamento espiritual no Espiritismo [versão eletrônica]. Palma de Mallorca: Fundació Càtedra Iberoamericana, 2007. Disponível em http://www.uib.es/catedra_iberoamericana/publicaciones/burnout/libro.doc. Acesso em 04 de jun. de 2008.
POLÍTICAS DE PREVENÇÃO E DE ATENDIMENTO À SAÚDE DOS TRABALHADORES EM EDUCAÇÃO (II)2. A BUSCA POR QUALIDADE DE VIDA NUMA VISÃO TRANSDISCIPLINAR Diversos estudos, no Brasil e internacional, já apontam para a melhora da saúde das pessoas acometidas com transtornos mentais ou outros tipos de adoecimentos através e pela fé e/ou crença, na participação em rituais ou práticas religiosas e espiritualistas (DALGALARRONDO, 2008; FLECK, 2008; VASCONCELOS, 2008). Dentre esses estudos estão as minhas pesquisas desenvolvidas no mestrado sobre terapêutica espírita e a relação entre religião e saúde. O resultado final dessa pesquisa apontou uma melhora acentuada na saúde mental das pessoas que procuraram essa terapêutica e algumas relataram até curas e como essas práticas terapêuticas ajudaram na profissão (SANTOS, 2007). A dissertação de mestrado de Cleide Martins Canhadas (1999), também, evidenciou nos seus estudos num centro espírita em São Paulo a cura através da terapêutica espiritual no tratamento das doenças físicas, emocionais, mental e espiritual. O antropólogo GREENFIELD (1999) desenvolveu os seus estudos sobre as curas espirituais de efeito físico e, também, demonstrou a eficácia da terapêutica religiosa espiritual em diversos tipos de adoecimentos. DALGALARRONDO (2008) no seu livro “Religião, psicopatologia & saúde mental”, apresenta uma revisão literária sobre os conceitos de religião, espiritualidade, fé e crença numa abordagem multidisciplinar. O autor buscou compreender como a crença, a religião interfere na saúde e no adoecimento das pessoas com problemas na saúde mental. Relata diversas pesquisas já realizadas em diferentes partes dos continentes sobre o restabelecimento da saúde através da crença, da fé, da religião e da espiritualidade. Já VASCONCELOS (2008) no livro “Espiritualidade no ambiente de trabalho: dimensões, reflexões e desafios”, analisa as mudanças advindas nas organizações a partir da espiritualidade nos ambientes de trabalho, distinguindo religião de espiritualidade. Apresenta uma revisão conceitual sobre espiritualidade, paradigma espiritual nas organizações e como essa prática pode evitar adoecimentos, melhorar os locais de trabalho e a saúde dos profissionais. FLECK & COLABORADORES (2008) no livro “A avaliação de qualidade de vida: guia para profissionais da saúde” conceitualiza qualidade de vida a partir das experiências no grupo de pesquisa Word Health Organization Quality of Life Instrument (WHOQOL) da Organização Mundial da Saúde (OMS). O módulo que foi criado, pela OMS, é um instrumento internacional de avaliação da intervenção ou não da espiritualidade, religiosidade e crenças pessoais na qualidade de vida, dentre outros itens que são avaliados. A partir da elaboração das versões do questionário de campo (WHOQOL – 100 e a versão abreviada WHOQOL – Bref) e analise dos seus resultados. Alguns pesquisadores e pesquisadoras perceberam que as questões referentes às dimensões espirituais, crença, fé e religiosidade eram incompletas. Uma das alternativas formuladas foi traduzir a versão RCOPE Scale, que no Brasil ficou conhecida como Escala de Coping Religioso Espiritual (Escala CRE): Os objetivos do coping religioso se coadunam com os cinco objetivos-chave da religião, que são: busca de significado, controle, conforto espiritual, intimidade com Deus e com outros membros da sociedade, transformação de vida [...] e bem-estar físico, psicológico e emocional [...] Estratégias religiosas de coping foram verificadas em estudos a partir de evidências quanto à importância da religião, em especial diante de situações de crise [...], principalmente frente a problemas relacionados à saúde e ao envelhecimento, como doenças, incapacidades e morte [...] à perda de entes queridos [...] e às guerras [...] Estudos demonstram que coping religioso espiritual pode estar associado tanto a estratégias orientadas para o problema, quanto a estratégias orientadas para a emoção [...] (PANZINI, 2004, p. 25-26).
O nosso interesse na pesquisa que estamos investigando é realizar um estudo na abordagem transdisciplinar. Estamos entendo nesse artigo, num construto preliminar, o conceito terapia espiritual religiosa como um método onde as pessoas buscam a sua autotransformação, autoconhecimento, auto-cura e uma conexão/ponte com o seu ser espiritual, emocional, mental e físico. Um equilíbrio no todo onde a sua inteligência espiritual está ancorada na sua dimensão ética espiritual. Aqui estamos entendendo dimensão espiritual conforme BONILLA (2008, p. 6) “aquele componente do ser humano, que transcende a suas dimensões material, mental e emocional, e se centra no significado da vida, em harmonia com as Energias Superiores”. BONILLA (2008) menciona, também, o conceito inteligência espiritual que em resumo: ‘a inteligência espiritual unifica, integra e reveste-se do potencial de transformar o material surgido dos outros dois processos: razão e emoção. Ela ‘fornece um centro de crescimento e transformação, dá ao Eu, um centro ativo, unificado, gerador de sentido’’ [...] ‘A inteligência espiritual’ não tem nenhuma conexão necessária com religião. Para algumas pessoas, aquela inteligência pode encontrar um modo de expressar-se através da religião tradicional. Mas, ser ‘religioso’ não garante alto QS (quociente espiritual) [...] ‘A religião convencional é um conjunto de regras e crenças (dogmas) ‘impostas de fora’; a ‘inteligência espiritual’, entretanto, é uma ‘capacidade’ interna’, inata, do cérebro e da psique humana, extraindo seus recursos mais profundos do âmago do próprio universo’ [...] ‘A inteligência espiritual’ é a ‘inteligência da alma’, com a qual nos curamos, e com a qual nos tornamos um ‘todo íntegro’ [...] (ZOHAR; MARSHALL apud BONILLA, 2008, p. 4-5).
Essa definição vem de encontro ao que acreditamos ser a conexão e a ponte motivadora para algumas pessoas buscarem a acupuntura, o shiatsu, o tai chi chuan, a meditação, o reike, a astrologia, a oração, o passe, a benzição, o culto no lar, a contemplação, a visualização dentre outras formas de terapias complementares, alternativas ou terapias espirituais religiosas, conforme preferimos chamá-las. A UNESCO recomenda que a ciência leve em consideração as tradições espirituais, outras culturas não ocidentais, a arte, a poesia, a literatura, a espiritualidade como alternativa de compreensão do mundo e de novas possibilidades de soluções dos problemas que assola a humanidade e que coloca em risco a vida no planeta terra. A crise que vivenciamos atualmente consiste num reflexo do extremo avanço científico e tecnológico logrado pela humanidade, sem que houvesse ‘o correlato desenvolvimento das dimensões psíquica, emocional, valorativa, ética, noética e o despertar da essência espiritual. Temos uma tecnociência incrível, sem alma, sem coração, sem espírito (CREMA apud CREMA 2008, p. 13).
Diante dessa crise o ser humano está buscando nomia e ao mesmo tempo vive uma angustiante duvida Ser ou Ter. As terapias espirituais religiosas oferecidas, desde as tradições espirituais até os dias de hoje podem oferecer a possibilidade de solução dessa crise pessoal e coletiva e conseqüentemente uma saída da fragmentação do ser. Necessitamos inventar, com urgência, um código de comunicação transdisciplinar. Tenho constatado que uma das maiores dificuldades para a transmissão da abordagem holística diz respeito à insuficiência dos nossos habituais discursos. Não é possível falar do novo com a linguagem velha [...] Como transmitir uma mensagem inclusiva que contenha, ou possa dar abrigo, à visão do cientista, à do filósofo, à do poeta e à do místico? Este é um dos maiores e mais tocantes desafios a nossa frente: romper com a clausura dos fragmentados discursos das disciplinas (CREMA, 1993, p. 159).
No livro de Erich Fromm “Ter ou Ser?” (1977) o autor descortina um dos véus da crise da humanidade, a semântica do sentido e do significado dos conceitos ou das palavras. Para ele isso pode denotar “o fim da ilusão” (FROMM, 1977, p. 23-32). Ao longo do livro o autor vai conceituando e exemplificando as diferenças entre Ser e Ter ou quem sabe o ter e o ser. Ao que tudo indica ‘ter’ é uma função normal de nossa vida: a fim de viver nós devemos ter coisas. Além do mais, devemos ter coisas a fim de desfrutá-las. Numa cultura em que a meta suprema é ter – e ter cada vez mais [...] Menciono apenas uma questão aguda: o conceito de ‘processo, atividade e movimento como um elemento no ser’. Como assinalou George Simmel, a idéia de que ser implica mudança, isto é, ser é ‘transformar-se’ [...] (FROMM, 1977, p. 35; 43).
FROMM (1977, p. 57-60) analisa a diferença entre fé no modo ter e fé no modo ser. Observemos logo a baixo as diferenças: A fé, no modo ter, é a posse de uma resposta àquilo para o que não se tem qualquer prova racional. Ela consiste de formulações criadas por outros, que se aceita porque se aceita sujeição a outros – em geral uma burocracia. Ela traz consigo o sentimento de certeza devido ao poder concreto (ou apenas imaginário) da burocracia. È o bilhete de ingresso para juntar-se a um grupo grande de pessoas. Ela alivia da árdua tarefa de pensar e tomar decisões próprias. A pessoa torna-se um dos beati possidentes, os felizes proprietários da verdadeira fé [...] No modo ser, a fé é um fenômeno totalmente diferente [...] A fé, no modo ser, não é, em primeiro lugar, uma crença em certas idéias (embora possa também ser isto), mas uma orientação íntima, uma ‘atitude’. Seria preferível dizer-se que se ‘está na fé, em vez de que se tem fé’ [...] Pode-se estar em fé consigo mesmo ou para com outros, e a pessoa religiosa pode estar em fé para com Deus [...] Nossa fé em nós mesmos, em outro, na humanidade, em nossa capacidade de tornarmo-nos plenamente humanos, também implica certeza, mas certeza baseada em nossa própria experiência, e não em nossa submissão a uma autoridade que dita certa crença [...] (FROMM, 1977, p. 57-59).
Sendo assim a terapia espiritual religiosa pode significar para a pessoa que freqüenta ou participa de terapêutica, como um modo ter ou como um modo ser ou quem sabe começar num tipo e ir emergindo para outro tipo. No trabalho de campo, que eu realizei com as trabalhadoras em educação que estavam adoecidas com a síndrome de burnout e/ou depressão, pudemos constatar nos relatos os dois movimentos: uma busca do ter e outra do ser. De acordo com as buscas ocorria uma mudança de atitude e de comportamento. As pessoas acabaram escolhendo o caminho do autoconhecimento, da autotransformação e da auto-cura, segundo o entendimento das entrevistadas (SANTOS, 2007). SIQUEIRA (2003, p. 25-64) analisa “A labiríntica busca religiosa na atualidade: crenças e práticas místico-esotérica na capital do Brasil”, a partir dos principais significados e visões de mundo dos grupos pesquisados, a saber: 1. Karma e reencarnação: a lei de causa e efeito ou lei de ação e reação; noção de evolução dos indivíduos e da própria humanidade; 2. Visibilidade do eu interior, eu superior, eu maior, eu crístico ou eu próprio: ‘conhece-te a ti mesmo’; a anulação do ego; 3. O mundo é uma ilusão: anular o ego e desapegar-se: o que nos afasta de Deus é o orgulho, o falso ego; Nós estamos no meio do oceano de ilusão; 4. A divinização do indivíduo: recuperação da magia e psicologização da religiosidade: nós somos Deuses, todo mundo é Deus; 5. Holismo e ecumenismo: ‘o ser como um todo numa perspectiva integral’ (SIQUEIRA, 2003, p. 32-40). Nessa dimensão, conforme a visão da autora, os desdobramentos seriam: a) As novas dimensões do mundo e a re-localização do eixo interior-exterior: a maldade não existe, nós criamos a maldade; b) Desinstitucionalização, destradicionalização e pluralismo religioso; c) Conteúdo identitários, emocionais e de mercantilização religiosa; d) Secularização, dessecularização (SIQUEIRA, 2003, p. 40-54). Essas visões, significados e desdobramentos das práticas terapêuticas espirituais religiosas dos adeptos e/ou participantes nas atividades evidenciam a inteligência espiritual de cada pessoa que se manifesta na sua procura, busca e/ou prática. Acreditamos que uma das possibilidades de compreensão dessa subjetividade humana é através da transdisciplinaridade. Ao negarmos a inteireza do Ser poderemos estar negando o seu direito de se cuidar. Ser terapeuta é cuidar do que não é doente em nós, do ser, facilitando a cura a partir do intrinsecamente saudável. Sempre cautelosos quanto à cilada da inflação do ego pessoal, tinham por sua tarefa cuidar ou facilitar, reconhecendo que é o vivente, na natureza, quem cura. É espantoso comprovar que os padres do deserto antecederam, em dois milênios, a psicologia humanística e transpessoal do Ocidente. Cuidar do corpo, cuidar do desejo, cuidar do imaginal e cuidar do outro, segundo Fílon, são quatro tarefas básicas dessa antiga tradição (CREMA, 1993, p. 162-163).
A partir das experiências vivenciadas pelas pessoas em retiros, seminários, holopráxis, terapias, leituras, participação em instituições religiosas ou outras atividades orientadas ou não por um terceiro. A pessoa poderá ou não ressignificar o seu mundo interno e externo. Para exemplificar tal afirmação, indicamos a pesquisa desenvolvida pela autora desse artigo. Onde constatamos que as entrevistadas da educação de Goiânia, Goiás alegaram que encontraram nomia e melhoras na sua saúde a partir da participação na terapia espiritual espírita. As mesmas alegaram que a religião ajudou na profissão permitindo uma ressignificação dos problemas vivenciados nos locais de trabalho através da teodicéia fornecida pela crença que participaram. Outro dado evidenciado a participação em crenças diferentes, simultaneamente ou não, com o objetivo de busca por cura ou melhoras na saúde (SANTOS, 2007).
CONCLUSÃO A profissão interfere na saúde das pessoas, trazendo como conseqüências doenças como distúrbios vocais, a síndrome de burnout e de depressão, advindas também do estresse laboral, e que refletem no local de trabalho. As trabalhadoras entrevistadas, em sua maioria, encontram-se estressadas, intolerantes e em burnout. Percebemos que as pessoas entrevistadas, para a sobrevivência, trabalham mais de oito horas por dia, o que ocasiona uma sobrecarga, isso sem considerar as exigências profissionais, como formação continuada, leituras, avaliações, atualizações, atividades extraclasse – correções de trabalhos, provas etc –, higiene, manutenção e segurança do espaço físico, bem como as atividades domésticas e o cuidar dos filhos. A maioria das trabalhadoras em educação não tem tempo para o lazer e o lúdico. Conseqüentemente, a profissão é um perigo, e, como uma panela de pressão, poderá estourar na saúde física e mental das profissionais e também no processo de ensino-aprendizagem. Infelizmente, a pesquisa demonstrou a falta de conhecimento, por parte das trabalhadoras em educação, do que seja a síndrome de burnout e, também, do que venha a ser, realmente, a depressão. Constatamos que as trabalhadoras em educação buscam a religião nos casos de problemas com a saúde porque ela proporciona conforto, respostas aos porquês das doenças e o restabelecimento da vida simbólica e da nomia. A busca pelo tratamento espiritual no espiritismo está vinculada à teodicéia explicativa da religião. Para 95% das entrevistadas, o tratamento realizado no espiritismo proporcionou melhoras na sua saúde e, para 84%, a religião ajudou profissionalmente. Isso denota, também, o vínculo entre educação, saúde e religião. As terapias espirituais religiosas são métodos, utilizados pelas pessoas, com o possível objetivo de desobstruir as energias paradas, onde o corpo fala e as dores aparecem; modificar a vida que se encontra em conflito, em angustia, fragmentada, adoecida; encontrar respostas para os seus problemas existenciais, materiais, seus problemas diversos; a fim de restabelecer a saúde, estar em paz ou gerenciar melhor os conflitos e as crises enfrentadas. Nessa dimensão a inteligência espiritual pode ser o grande impulsionador desse desejo e busca. Quando essa dimensão espiritual está obscurecida, em ilusão ou fragmentada pelo ter. As pessoas podem buscar na bebida, nas drogas, na criminalidade, no consumismo a forma de preencher essa dimensão espiritual, mesmo que seja de forma distorcida. 5. Referências ARNTZ, William. Quem somos nós? A descoberta das infinitas possibilidades de alterar a realidade diária. Tradução de Doralice Lima. Rio de Janeiro: Prestígio, 2007. BARASUOL, Evandir Bueno. 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Disponível em http://www.uib.es/catedra_iberoamericana/publicaciones/burnout/libro.doc. Acesso em 04 de jun. de 2008.
Síndrome de burnout, Assédio Moral: OIT e UEAssédio Moral Coletivo na OIT e na UE Sônia Mascaro Nascimento Inicialmente, cumpre mencionar que a Convenção n.º 155, de 1981, elaborada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre segurança, saúde dos trabalhadores e meio ambiente, ratificada pelo Congresso Nacional em 1992 e promulgada pelo Decreto federal n.º 1.254/94, estabelece em seu artigo 3.º que o termo "saúde", com relação ao trabalho, "abrange não só a ausência de afecção ou de doenças, mas também os elementos físicos e mentais que afetam a saúde e estão diretamente relacionados com a segurança e a higiene no trabalho". Fonte: http://www.parana-online.com.br/canal/direito-e-justica/news/372993/ Consulta 04/11/2009. |
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